Médio Tejo | Há sete enfermeiras na região que dão apoio (gratuito) à amamentação

Paula Gil, Paula Cavalheiro, Olinda Lopes, Carla Ramos, Irene Costa, Cristiana Gomes e Narcisa Alho dão apoio à amamentação no ACES Médio Tejo Foto: mediotejo.net

Nas maternidades estimula-se as mães a amamentarem, mas falta frequentemente a informação adequada para que o processo ocorra sem dramas e se prolongue pelo tempo desejável. Amamentar não é isento de dificuldades e há que combater um conjunto de mitos instalados por 50 anos de orientações contraditórias. Para ajudar quem precisa, o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo tem sete enfermeiras formadas em aconselhamento de aleitamento materno (são CAMs). Dão apoio gratuito, também ao domicílio, e estão entusiasticamente disponíveis para ajudar quem queira amamentar. 

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Depois de cerca de meio século em que a amamentação foi praticamente substituída pelo leite artificial, considerado até final do século XX um “alimento superior” para o bebé, a investigação científica tornou a olhar para a amamentação e a descobrir a complexidade, riqueza e benefícios do leite materno. Em teoria, deve ser o alimento exclusivo nos primeiros seis meses do bebé (recomendações da Organização Mundial de Saúde), pois fortalece o sistema imunológico do bebé e há outros benefícios positivos, devido à libertação hormonal, à criação de apego entre mãe e filho.

Mas como corre isto tudo na prática? Há todo um conjunto de pequenos problemas na introdução da amamentação e sua manutenção que facilmente conduzem à desistência ou à sua recusa pelas mães e/ou pelos próprios bebés. São poucas as mulheres que atingem os seis meses de exclusividade e mantêm a amamentação pelos dois anos que a Organização Mundial de Saúde recomenda.

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O tema tem a sua cota-parte de drama e faz destilar a fúria das recém-mamãs nas páginas de maternidade e redes sociais. Quem amamenta de forma prolongada sente-se oprimida por quem não conseguiu ou não quis amamentar; quem não conseguiu ou não quis amamentar sente-se oprimida pelas mães que amamentam de forma prolongada. As acusações de falta de empatia são mútuas.

O que se passa afinal para um processo supostamente tão natural ser tão controverso? Precisam mesmo as mulheres de ajuda?

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A resposta é o resumo desta reportagem sobre o tema: Sim, precisam! Nenhuma mulher nasce ensinada e ainda que os bebés possuam um impulso de procurar a mama imediatamente quando nascem, não sabem o que estão a fazer e todo o processo pode correr (muito) mal.

A questão do peso dos bebés nas primeiras semanas acaba por levar muitas mães a introduzirem suplementos artificiais. Foto: Unsplash

Este contexto serve de base ao encontro do mediotejo.net com as sete enfermeiras formadas em amamentação do ACES Médio Tejo: Paula Gil, da Unidade de Cuidados na Comunidade de Abrantes; Cristiana Gomes, do Centro de Saúde de Ourém; Olinda Lopes, da Unidade de Saúde Familiar do Entroncamento e Unidade de Cuidados na Comunidade Almourol (Entroncamento, Barquinha e Constância); Narcisa Alho, da Unidade de Cuidados na Comunidade Maria Dias Ferreira (Ferreira do Zêzere) e do Centro de Saúde de Ourém; Irene Costa, da Unidade de Cuidados na Comunidade de Torres Novas; Carla Ramos, da Unidade de Cuidados na Comunidade Olhos d’Água (Alcanena); Paula Cavalheiro, da Unidade de Cuidados na Comunidade Cova da Iria (Fátima).

Reunimo-nos à mesa e pedimos histórias pessoais e algumas respostas para a necessidade de haver “apoio” à amamentação. Parte do problema, discute-se, está na falta de informação: quer entre mães, quer entre técnicos de saúde. Mas também ao facto, convém salientar, de o primeiro mês da amamentação ser particularmente difícil, ainda que haja mulheres que passem pela fase sem qualquer dificuldade.

Mas se a amamentação está na moda, não deve ser uma imposição, frisam as sete profissionais. Acima de tudo tem que estar o respeito pela mãe e a defesa de uma escolha informada, mas não dogmática. A mulher, como tantas outras questões relativas ao seu corpo, deve ser livre de escolher.

A história é narrada nos manuais de aleitamento materno: no pós II guerra mundial, com as mulheres a entrarem em força no mercado de trabalho, o leite artificial vulgarizou-se e durante décadas foi entendido como um alimento completo, superior ao próprio leite materno. Era receitado pelos médicos e mantém-se uma crença tão enraizada que ainda hoje é tido como preferível face a algum problema que surja na amamentação. Muitos ainda acreditam que o leite materno simplesmente é insuficiente para alimentar um bebé.

A solução, libertadora para a mulher, teve (e tem) porém um efeito perverso: sem estimulação devida, o leite secava, os bebés habituavam-se às fórmulas lácteas desde recém-nascidos e rapidamente se sucederam gerações de mulheres que assumiam que não tinham leite ou que o leite era fraco. A introdução precoce de leite artificial, entre outras ajudas artificiais à amamentação (mamilos de silicone, chupetas, etc), são ainda hoje factores que dificultam a vida a quem deseja amamentar.

Mas de há uns anos a esta parte, sobretudo com a disseminação das formações de conselheiras de aleitamento materno (conhecidas por CAMs), o olhar sobre a amamentação tem vindo a mudar, nomeadamente entre a classe de enfermagem. Há também mais informação e o crescimento dos movimentos de valorização da mulher, nomeadamente na questão do parto humanizado, acabou por ajudar ao ressurgimento da amamentação, a um ponto que há quem afirme que se tornou “moda”.

A Organização Mundial de Saúde recomenda o aleitamento materno como alimento exclusivo do bebé até aos seis meses. Foto: Unsplash

Houve sobretudo “uma mudança de paradigma”, comenta a enfermeira Narcisa Alho. “Estudos científicos recentes têm provado as vantagens do aleitamento materno a vários níveis”, complementa Olinda Lopes, e “o culto do corpo da mulher deixou de ser tão praticado em prol de uma vida mais saudável”.

A experiência de Irene Costa é demonstrativa dessa evolução. A enfermeira recorda que quando iniciou a atividade em Torres Novas, corria o ano 2000, havia uma grande facilidade em introduzir o biberão aos bebés. “Fomos muito sensibilizadas no curso de conselheiras de aleitamento materno para coisas que não sabíamos”, explica. Durante anos o marketing do leite artificial, a ideia disseminada que os bebés podiam passar fome com o leite materno, fazia com que os especialistas, enfermeiros e médicos, dissessem às mães para introduzirem suplementos na alimentação, os quais estavam disponíveis inclusive nos centros de saúde.

O paradigma foi mudando com a informação que foi chegando de outros países, com a introdução dos cantinhos da amamentação e o surgimento dos hospitais com a certificação “amigos do bebé”. Hoje procura-se fazer um trabalho na comunidade que contrarie os mitos instalados por anos de informações contraditórias. Muitas avós, assistindo ao aconselhamento de netas que acabaram de ser mães, comentam “se eu soubesse…”, relata Irene Costa.

houve sobretudo “uma mudança de paradigma”, comenta a enfermeira Narcisa Alho. “Estudos científicos recentes têm provado as vantagens do aleitamento materno a vários níveis”, complementa Olinda Lopes, e “o culto do corpo da mulher deixou de ser tão praticado em prol de uma vida mais saudável”.

Este esforço bate de frente com vários problemas, reflete o grupo. Nem sempre os profissionais de saúde tem a informação mais adequada para dar às mães que queiram amamentar e estejam a precisar de algum tipo de ajuda e o biberão é frequentemente a solução logo apontada, gerando-se facilmente alguma confusão com a informação contraditória. Mesmo entre pediatras, constata-se, muitas vezes não há consensos na informação a veicular. Estas sete profissionais, não obstante a especialização em saúde materna, tiveram que fazer um curso específico de apoio à amamentação para estarem aptas a dar soluções alternativas. Do outro lado, os mitos em torno do “leite fraco” ou a falta de leite instalados nas mulheres da família durante gerações não ajudam a um processo que requer confiança à mãe e um olhar atento e sem preconceitos ao desenvolvimento do bebé.

Mas se a amamentação está na moda, não deve ser uma imposição, frisam as sete profissionais. Acima de tudo tem que estar o respeito pela mãe e a defesa de uma escolha informada, mas não dogmática. A mulher, como tantas outras questões relativas ao seu corpo, deve ser livre de escolher.

O que se pode então fazer para ajudar as mães e tornar o processo menos complicado? Se não é suposto a amamentação doer, as más pegas, as feridas nos mamilos e as mastites podem dar a sensação contrária e tornar a alimentação do bebé um martírio.

As sete enfermeiras frisam a importância da informação transmitida nos cursos de preparação para o parto e a disponibilidade de todas para ajudar no pós-parto. Narcisa Alho, por exemplo, desenvolve um projeto em Ferreira do Zêzere em que vai visitar as recém-mamãs após o nascimento do bebé para auxiliar em eventuais problemas na amamentação. Algumas unidades de saúde dão apoio ao domicílio, como na Unidade de Cuidados na Comunidade Olhos d’Água. Todas estas enfermeiras afirmam dar os números de telefone às mães para que as contactem caso haja problema.

Os casais podem ter aconselhamento gratuito nos Centros de Saúde do Médio Tejo, no pré e pós-parto. Foto: Unsplash

“Aumentar a confiança” é essencial neste processo, afirma Paula Gil, que tem experiência tanto em bloco de partos como em centro de saúde. No decorrer da conversa constata que os problemas na amamentação tendem a surgir todos junto dos centros de saúde e não tanto nas maternidades, de onde as mulheres tendem a sair aparentemente com a amamentação resolvida. No entanto, a descida do leite dá-se entre o terceiro e o quinto dia após o parto, já com as mães em casa. As idas às urgências são, por tal, frequentes.

Chegados a este ponto, “é importante que falemos todos a mesma linguagem”, explica ainda Irene Costa. “O grupo tem feito um esforço para formar médicos e enfermeiros” sobre a amamentação, combatendo os mitos instalados e as inseguranças. Se uma mãe procura ajuda, é necessário apresentar outros recursos e não imediatamente o biberão, a fim de que a amamentação seja bem sucedida.

Cada bebé é um bebé e o trabalho destas enfermeiras não é isento de desafios. Para além das más pegas e dos ductos entupidos, um dos problemas mais frequentes que lhes surge é o do peso dos bebés, que não acompanham as linhas do percentil ou tardam em recuperar o peso de nascimento. “Bebés ótimos e não engordam” como seria suposto, sintetiza Paula Cavalheiro. Nestes casos, refere Cristiana Gomes, “temos que fazer o diagnóstico diferencial”, recolher o seu histórico. “Fazer uma avaliação e ter calma, dar tempo”, adianta Irene Costa. “Às vezes basta aumentar as mamadas”, constata Narcisa Alho.

Por aqui, admitem as sete, são todas apaixonadas pela amamentação e a conversa facilmente se prolonga além do horário estabelecido. O interesse nasceu muitas vezes da própria experiência pessoal, conforme admite Olinda Lopes. “É uma área que gosto imenso, há uma envolvência muito grande na tríade familiar”, reflete, “não podemos ser estanques, temos que ver a mulher. É realmente apaixonante”.

além das más pegas e dos ductos entupidos, um dos problemas mais frequentes que lhes surge é o do peso dos bebés, que não acompanham as linhas do percentil ou tardam em recuperar o peso de nascimento. “Bebés ótimos e não engordam”

“O aleitamento materno é uma preocupação das políticas mundiais, nacionais e locais”, adianta Paula Gil, e a sua promoção “tem sido uma política dos cuidados de saúde primários, nomeadamente dos enfermeiros”. O ACES Médio Tejo tem desenvolvido formações internas nesta área, tendo a última decorrido em novembro.”O suporte ao aleitamento materno é determinante no sucesso da amamentação e são os enfermeiros dos cuidados de saúde primários que estão numa posição privilegiada para esse apoio”, conclui.

Grávidas e mães de recém-nascidos que queiram amamentar, o que devem então fazer? “Frequentar os cursos de preparação para o parto”, frisa Cristiana Gomes. “Procurarem apoio, que ele existe. Muitas vezes as mães já nos chegam muito tarde”, reflete Narcisa Alho. Cada concelho possui uma especialista e ela está ao dispor para ajudar.

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