Médio Tejo | A revolução que está a nascer na Maternidade de Abrantes

Foto: Christian Bowen/Unsplash

Tempo é dinheiro, já diziam os antigos sábios, e a cotação só tem vindo a aumentar nos últimos anos… Por isso, “dar tempo ao tempo” no que a um trabalho de parto diz respeito, é um “luxo” que a maioria das maternidades não oferece às grávidas. Mas em Abrantes, tal como já sucede na Póvoa de Varzim, por exemplo, há a vontade de apostar cada vez mais no parto fisiológico, que respeita a fisiologia da mulher e do bebé, atendendo aos ritmos do corpo, reduzindo a intervenção médica ao mínimo essencial. A mulher volta a ter um papel ativo, uma voz, outra dignidade. E apoiá-la da forma que mais desejar é a grande missão das enfermeiras deste serviço de obstetrícia do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

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“Hoje em dia tem-se muita pressa…”. A enfermeira chefe da Maternidade de Abrantes, Conceição Courinha, vai repetindo o comentário à medida que mostra o serviço às visitas.

O espaço foi requalificado há poucos anos, é amplo e em tons claros e alegres, com a particularidade do internamento ter uma vista belíssima sobre o rio Tejo e as margens ribeirinhas verdejantes de Abrantes. Com cinco salas de parto, uma entrada específica para pais, quartos de internamento com duas camas cada e casa de banho, e bem apetrechada ao nível de equipamentos médicos, a maternidade contabilizou em 2018 cerca de 800 partos, uma tendência de subida.

Na casa dos 60 anos, a aproximar-se da reforma, Conceição Courinha lembra a época em que se tinha que ir chamar o médico e, entre o chegar e não chegar, os processos evoluíam e os bebés nasciam. Não se coloca em causa, sublinha às visitas a dado instante, os grandes benefícios trazidos pelas cesarianas e por todos os restantes procedimentos médicos que vieram contribuir para nascimentos mais seguros e saudáveis, tanto para as mães como para os bebés. “Foram um grande progresso”, constata. Mas, vai repetindo, “hoje em dia tem-se muita pressa…”.

As enfermeiras Conceição Courinha (na bola) e Paula Oliveira (de branco, em pé), a médica obstetra Helena Mota (em pé, de verde) e o anestesista Bruno, fazem parte da equipa da Maternidade de Abrantes  Foto: mediotejo.net

A enfermeira obstetra Paula Oliveira junta-se entretanto ao grupo. Cresceu numa casa com muitas mulheres onde tudo se discutia, entre todas, de forma aberta. Mãe de três filhos, para si ter um parto fisiológico sempre fez parte do plano, mesmo antes de o tema virar uma corrente, e lutou por ele de cada vez que teve que passar pelo processo.

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Assim, tendo trabalhado como enfermeira da cirurgia, rapidamente percebeu que não era naquele andar que queria ficar. Há cerca de uma década mudou-se de armas e bagagens para a obstetrícia e as pequenas mudanças que começam a ser introduzidas na Maternidade partem em grande medida do seu entusiasmo e do grande número de formações que ela e outra colega têm realizado, a expensas próprias, na área do parto fisiológico.

Não havendo riscos associados no quadro clínico da grávida, por esta Maternidade já um pouco de tudo se vai concretizando com o apoio destas profissionais. Mas ainda há um caminho longo a percorrer, constata a enfermeira, para mudar mentalidades.

Um processo bem sucedido para um parto fisiológico implica uma consciencialização sobre o corpo, a gravidez e o parto da parte das próprias mães. Implica também uma maior abertura ao diálogo da parte dos médicos. Há vários hospitais no país a darem passos nesta direção, sendo que o único hospital público que assumiu inteiramente a filosofia foi o Centro Hospitalar da Póvoa do Varzim, no norte do país. Aqui acorrem desde há quatro anos grávidas do Algarve aos Açores, factor que conseguiu contrariar um possível encerramento da unidade.

Plano de parto em consulta prévia, possibilidade de presença de pai e doula, bolas de pilates, cadeiras de parto, piscina para trabalho de parto (o parto em água em Portugal não é permitido no SNS), condições para adaptação do ambiente mediante as necessidades da mãe (música, por exemplo), são algumas das possibilidades oferecidas a quem opte por esta modalidade e esteja predisposto, claro, a aceitar os ritmos da natureza, nem sempre dados a pressas – um parto natural (sem qualquer tipo de intervenção médica), mais gradual que um intervencionado, pode chegar aos três dias.

Susana Gonçalves foi mãe pela quarta vez e conseguiu finalmente um parto agradável, tendo tido a maternidade de Abrantes como primeira opção Foto: mediotejo.net

Pela Maternidade de Abrantes, os planos de parto (plano delineado previamente entre a grávida e, idealmente, um profissional de saúde sobre os procedimentos que gostaria de ver respeitados durante o parto) já vão surgindo, mas são escassos. Nunca se registou, pelo menos oficialmente, a presença de uma doula (profissional que realiza um acompanhamento emocional e físico da mulher durante a gravidez, o parto e o pós-parto). Também não há a famosa piscina, alternativa de alívio da dor a que muitas parturientes acorrem quando querem contornar a epidural. Por enquanto, só mesmo as bolas de pilates e a flexibilidade das profissionais em encontrar soluções de alívio natural da dor e posições mais fisiológicas de nascimento – num parto que atende à fisiologia da mulher evitam-se as posições deitadas ou reclinadas, uma vez que não são as melhores para as mulheres e aumentam a necessidade de intervenções médicas, como a episiotomia.

Da parte da equipa de enfermagem há uma grande abertura a que tal suceda. Mas, defendem, é necessário dar “passos sustentados” e seguros – com mais informação, em suma – criando condições para que as equipas médicas, e as próprias mães e pais, se sintam confortáveis e as situações evoluam apoiadas em “dados de saúde” e ambiente de equipa.

Nasceram assim em dezembro os encontros “Cuidar para Nascer”, que se têm vindo a repetir regularmente na maternidade. Na prática, explicam Conceição Courinha e Paula Oliveira, são sessões de duas horas para dar a conhecer a maternidade e a equipa. No final, referem, são feitos inquéritos de satisfação. Muitos pais ficam mais tempo e questionam sobre as possibilidades, admitem, outros não têm qualquer informação. A maternidade tem recebido casais de toda a região, de Ponte de Sôr a Santarém, e também de Leiria.

O objetivo é dar o passo seguinte com a informação acumulada, para que em setembro/outubro a maternidade tenha condições de iniciar o seu próprio curso de preparação para o parto, focado no parto fisiológico e destinado não só às grávidas como também aos respetivos companheiros, considerados uma presença ideal neste processo.

Além das formações que Paula Oliveira e outra colega têm realizado nesta área, há ainda várias enfermeiras que possuem também a formação em CAM (Conselheiras de Aleitamento Materno), por forma a dar apoio a quem deseje amamentar. Outra iniciativa já a decorrer é a “massagem infantil”, que se concretiza em aulas específicas para pais e os seus bebés.

“Acho que o fundamental é o respeito que tem que se ter com a grávida”, reflete por fim Conceição Courinha. As sessões de visita, a massagem infantil e a idealizada formação para o parto podem parecer pequenos passos, mas já implicam mudanças substanciais. “Se conseguirmos isto… já era muito bom”, comenta.

A responsável reconhece, porém, que uma política mais voltada para o parto fisiológico pode atrair mais pessoas para a maternidade de Abrantes, ao exemplo do fluxo que tem seguido de todo o país para a Póvoa de Varzim. “Temos noção que as pessoas estão mais informadas e que estes procedimentos podem atrair mais mães”, admitiu.

Assim, de forma por vezes tímida, a maternidade de Abrantes vai ganhando nome e reputação. A instituição orgulha-se das condições das instalações e da qualidade dos seus profissionais, recusando qualquer estigma por estar no Interior do país.

“o fundamental é o respeito que tem que se ter com a grávida”, diz a enfermeira Conceição Courinha

Durante a visita conhecemos Susana Gonçalves, 35 anos, moradora na Carregueira, concelho da Chamusca, uma recém-mamã de apenas três horas, ainda a recuperar na sala de parto e a olhar extasiada para Kassandra, a sua quarta filha. Com um histórico de uma cesariana e dois partos seguintes vaginais, mas com bastante intervenção (forceps e ventosas) e sem epidural, estava feliz por ter conseguido passar finalmente por um processo mais agradável, que espoletou naturalmente, evoluiu de forma rápida mas ainda conseguiu ir a tempo da anestesia para a derradeira fase final, a pedido da mãe.

“Tive um parto a sorrir”, repetia, com o sorriso ainda de orelha a orelha, salientando que teve sempre como primeira opção encaminhar-se para a maternidade de Abrantes.

No corredor do bloco de partos, uma mulher grita. “Está sob efeito da epidural, a vocalização serve para ajudar o bebé” a sair, explica a médica obstetra Helena Mota, com Conceição Courinha e tentar exemplificar o porquê da necessidade de gritar no final do parto. Poucos minutos passados, os gritos cessam e faz-se silêncio. De repente, um bebé chora.

Quem permanece no corredor vê, passado algum tempo, um bebé bem constituído, mas ainda bastante exaltado e a chorar a plenos pulmões, a passar para a sala dos primeiros cuidados. É um rapaz, bonito e perfeito, com a cabeça algo afunilada devido à “viagem” que acabou de empreender. “Tem três quilos. Certinhos!”

*texto rectificado pelas 08h32 de 13 de agosto de 2019

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