“Março é mês de quê?”, por Berta Silva Lopes

Foto: Pixabay

A primavera não é a minha estação favorita. Prefiro a época das maçãs bravo de esmolfe e dos apetitosos montinhos de folhas de cores quentes e acolhedoras. Raramente lhes resisto. Umas e outras ocupam empatadas o topo da lista dos pequenos prazeres que o outono me traz. Mas há mais.

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Apesar do frio das nortadas e dos dias cinzentos, o outono é mágico e acolhedor. Rima com mantas e sofá, aconchego e ronha. Com ele chegam as noites frescas e as primeiras constipações, razão para os habituais queixumes da época. É tempo disso – manhãs nubladas, tardes mornas, dias incertos – ora essa.

Findo o verão, os dias ficam mais preguiçosos, doces e melancólicos. Na cozinha, cheira a canela. Todos os fins de semana há scones e doce de abóbora sobre a mesa, não faço caso das calorias, faço marmelada e broas de mel. O outono é também o tempo das castanhas e dos cogumelos, das romãs e das uvas, todos tão do meu agrado.

Esta crónica não é sobre o outono, embora possa parecer. Sobre o tempo de todas as amenidades bastam-me as palavras de Rubem Braga nessa prosa linda de Chegou o Outono.  Esta crónica é sim sobre as frutas que estão na safra – e já agora, março é mês de quê?

As coisas são boas é na época delas, sempre ouvi o meu pai dizer, mas só há pouco comecei a dar-lhe razão. Hoje temos acesso a tudo de forma quase instantânea. Comemos cerejas no natal, dióspiros na primavera, morangos o ano inteiro. E fomos nós que baralhámos tudo, não as estações.

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No supermercado, por vezes tenho de pensar se já é tempo disto ou daquilo, recuso deixar-me levar pela gula e pelas cores apelativas da fruta nas prateleiras, e quando cedo – que desconsolo! Tento respeitar as épocas e a natureza, esperar pelo tempo certo, aquele momento feliz em que redescubro os sabores da minha infância nos dias de hoje.

Naqueles anos, tudo chegava no tempo certo ao quintal da família: havia pêssegos e figos, melancias, meloas, ameixas e amoras no verão; e no inverno não faltavam as tangerinas, as laranjas e os kiwis. Todos sabíamos o que esperar de cada colheita, e aguardávamos.

Entretanto, a cobiça roubou-nos o prazer da espera. Agora queremos tudo todo o ano, vivemos com fartura – felizmente – mas talvez isso seja só uma bênção disfarçada. Pois é, o meu pai está coberto de razão: as coisas são boas é no tempo delas. Esperemos, pois, pacientemente, pelas cerejas.

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.
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