Mação | Utentes com mais de 90 anos e bebés de 2019 distinguidos nos 40 anos do SNS

Foto: mediotejo.net

O auditório do CC Elvino Pereira voltou a acolher os utentes mais antigos – com mais de 90 anos – e os utentes mais novos – nascidos em 2019, numa cerimónia de distinção simbólica a assinalar os 40 anos do Serviço Nacional de Saúde. Tempo para refletir sobre a qualidade do serviço de saúde em Mação, bem como os desafios que o concelho enfrenta nomeadamente com o envelhecimento populacional, a desertificação e a longevidade dos utentes que requerem um novo modelo de acompanhamento.

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Na sessão solene contou-se com a presença na mesa do médico António Novais Tavares, coordenador do Centro de Saúde de Mação, bem como Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal.

O médico lembrou rapidamente a diferença entre o SNS nos dias de hoje e o Serviço de Saúde há mais de 40 anos, o tempo das Casas do Povo, as Caixas de Previdência, dos Hospitais das Misericórdias, fazendo uma breve apresentação do Centro de Saúde maçaense, referindo que “muita gente não tem ideia do que é hoje um centro de saúde, muito menos quando comparado com essas alturas”.

Novais Tavares lembrou a nova constituição por unidades, sendo que o centro de saúde de Mação trata de uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP), pertencente ao ACES Médio Tejo, e que conta com apoio de outro tipo de unidades, caso da Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (URAP), representada na sessão por Cláudia Mourato, e a Unidade de Saúde Pública (USP), representada pelo vereador da CM Mação Nuno Barreta, enfermeiro de profissão.

“Muita coisa mudou nestas unidades e para melhor, hoje temos pessoas licenciadas, a qualidade melhorou significativamente e em termos médicos Mação está estabilizado”, disse o coordenador do centro de saúde em Mação.

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Foto: mediotejo.net

A UCSP, que o médico diz ser confundida pelas pessoas como sendo o centro de saúde, “é quem presta cuidados seja de enfermagem, seja cuidados médicos” sendo a “unidade maior, com mais visibilidade dentro do centro de saúde”.

O ACES Médio Tejo é quem monitoriza localmente as diversas unidades na sub-região do Médio Tejo. Tem em funcionamento 8 Unidades de Saúde Familiar (USF), 11 Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) e 7 Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC). Corresponde a uma área territorial com 2706,10 km² com um total de cerca de 235 390 utentes em 11 concelhos: Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha.

O índice de desempenho, datado de junho de 2019, foi projetado em gráfico cedido pela ARS de Lisboa e Vale do Tejo, com Novais Tavares a sublinhar a qualidade de atendimento do centro de saúde de Mação em relação aos restantes centros do Médio Tejo, que se encontravam abaixo. Também a nível de Lisboa e Vale do Tejo, Mação assume liderança, indicou o coordenador.

“A qualidade de saúde em Mação é muito boa em termos dos índices de desempenho, contrariamente àquilo que nós muitas vezes dizemos”, frisou.

Vasco Estrela, autarca maçaense, começou por se dirigir a todos os representantes de IPSSs do concelho ali presentes, funcionários, utentes e suas famílias. O autarca frisou esta comemoração do 40º aniversário do Serviço Nacional de Saúde como sendo o relevar de “uma grande conquista” e responsável “pelo facto de o país onde vivemos ser o país onde os índices dos cuidados de saúde são reconhecidos a nível internacional como tendo qualidade assinalável”.

O presidente da CM Mação interveio de forma genérica, aludindo às questões a nível nacional, indicando que é “um serviço que carece sempre de melhorias” e onde vão sendo verificadas “algumas lacunas” caso das “listas de espera, da dificuldade em marcar consultas, alguma deficiência na acessibilidade aos serviços, instalações com alguma degradação”, enumerou.

“Apesar de tudo isso, é um serviço universal, gratuito e que presta e trata os cidadãos por igual – ou pelo menos devia ser assim, e é para isso que todos nós devemos trabalhar, porque foi essa a essência do SNS”, salientou.

Em Mação, a realidade tem sido favorável. “Fruto do extraordinário trabalho de todos os que fizeram e fazem parte deste serviço, temos tido um trabalho de excelência, de muita proximidade e que seguramente é responsável pelo facto de o concelho de Mação ser um dos concelhos do país onde as pessoas morrem com idade mais avançada, em média”, disse Vasco Estrela.

Maria do Rosário, de 105 anos, e Luís da Pomba, de 95 anos, foram um dos casais distinguidos na cerimónia. Foto: mediotejo.net

A longevidade da população, insistiu o autarca, deve-se aos “cuidados de saúde primários, de proximidade, e seguramente do extraordinário trabalho das IPSSs do concelho que vão fazendo a monitorização das pessoas mais idosas, das pessoas com maior carência, e da articulação feita em todos os serviços”.

Os certificados foram entregues aos utentes ou familiares pelo autarca Vasco Estrela, pelo médico Novais Tavares e pelos vereadores Nuno Barreta (proponente desta iniciativa) e Margarida Lopes, num auditório quase cheio e perante utentes que chegavam à impressionante idade de 105 anos, caso de Maria do Rosário, sempre acompanhada pelo marido Luís da Pomba, de 95.

A cerimónia começou com apontamento musical pela FunFarra da Sociedade Filarmónica União Maçaense, que apresentou quatro peças que animaram os presentes, e terminou em festa. Aproveitou-se para cantar os parabéns não só ao SNS como a uma das utentes distinguidas, a dona Maria Rita que fez 97 anos, e ainda houve lanche-convívio e bolo de aniversário a condizer com a temática.

Os desafios do futuro: a descentralização de competências, a falta de médicos de família e a necessidade de mais tempo de consulta para a população idosa

No final da sessão, tempo para balanço daquela que é a postura do município e a colaboração com este serviço de saúde no concelho. Vasco Estrela não deixou de mencionar os novos diplomas setoriais no âmbito da saúde, que ao que tudo indica irão a partir de 2021 atribuir competências até então do Governo central na área da saúde às Câmaras Municipais.

O autarca disse que a Câmara tem correspondido a todos os desafios que têm surgido, vindos da parte do Ministério da Saúde ou outros. “Se temos este número de pessoas com mais de 90 anos deve-se especialmente aos cuidados de saúde primários, ao cuidado que foi tido para com as pessoas de mais idade, uma responsabilidade que tem sido partilhada com as IPSSs do concelho e as extensões de saúde que existem em praticamente todo o concelho, com exceção da freguesia de Amêndoa”.

Esta proximidade e presença, segundo o edil, assume papel preponderante a partir do momento em que as pessoas começam desde logo a ser acompanhadas “logo que evidenciam sinais de carência de acompanhamento”.

“O município não deixará de estar presente e ao lado das instituições de saúde, o facto de virmos a ter descentralização, quer queiramos quer não, teremos de a aceitar até final de 2020, evidentemente que vem reforçar as nossas responsabilidades. Mas penso que até à data de hoje não temos fugido a nenhuma responsabilidade e até temos feito muito mais daquilo que nos era exigido”, notou.

Vasco Estrela disse ainda que a Câmara Municipal terá “total colaboração” sempre que seja solicitado, com “respeito integral pela autonomia da área da saúde”.

“Não deixaremos de assumir as nossas responsabilidades, e levá-las até ao fim, porque a partir do momento em que há descentralização de competências na área da saúde e que as responsabilidades da Câmara vão começar a ser muito mais escrutinadas, não podemos deixar de as exercer sob pena de sermos responsabilizados por algo que corra mal”, referiu, acrescentando ainda que, daqui para a frente “o relacionamento irá ser aprofundado”.

A tendência para o aumento da longevidade vem colocar “mais pressão” sobre os profissionais de saúde e sobre a Câmara no sentido de “dar a maior qualidade de vida possível aos cidadãos do concelho”.

Vasco Estrela lembrou ainda a importância do trabalho de proximidade e da colaboração da autarquia, que concretizou a cedência de duas viaturas ao centro de saúde – uma em parceria com a CIMT e outra com recurso ao orçamento municipal e fundos comunitários.

“Foi-nos sinalizado que seria positivo terem viaturas novas para um trabalho de proximidade junto dos utentes, tendo nós disponibilidade para o efeito decidimos politicamente que era importante fazê-lo”, disse, frisando que vem “na linha do que tem feito a autarquia”.

Concluindo, o presidente da Câmara afirmou que “não há-de ser, seguramente, por falta de empenho da CMM que os cuidados de saúde primários no concelho de Mação não continuarão a ser de excelência como foram até aqui, essencialmente fruto dos extraordinários funcionários que temos tido”.

Por outro lado, António Novais Tavares alerta para um futuro com outros desafios e necessidade de repensar o modelo e a estrutura das unidades de saúde, nomeadamente pelo envelhecimento generalizado e a longevidade, bem como a desertificação que assola o país.

“Mação é dos concelhos do país mais envelhecidos, o que leva a ter que adaptar algumas situações. Hoje a quantidade de pessoas idosas é muita, as necessidades são maiores e diferentes, na medida em que quanto mais envelhecemos mais doenças degenerativas vamos ter. Como tal, não só a unidade de saúde de Mação, como todas as unidades de saúde e o próprio SNS, têm que se adaptar a uma nova realidade”, contextualizou o coordenador do Centro de saúde de Mação.

António Novais Tavares afirma que não é fácil fazer esta adaptação, uma vez que vai ser preciso “mais tempo de consulta, menos carga de utentes por médico, e implica maior quantidade de médicos”.

Quanto ao tempo de consulta que, na opinião de Novais Tavares, tem que ser alargado, tal justifica-se pela complexidade da patologia que os idosos apresentam, bem como as dificuldades em expressar-se e o tempo que necessitam para tal.

Foram ainda atribuídos certificados aos mais recentes utentes do Centro de saúde de Mação, 15 bebés nascidos em 2019. Foto: mediotejo.net

As crianças, sendo 15 bebés os distinguidos com certificado e nascidos em 2019, são “poucas” face aos mais de 300 utentes com mais de 90 anos.

“São utentes com necessidades completamente diferentes e o SNS tem de se virar mais para os idosos pela quantidade que temos. Quanto às crianças, infelizmente são poucas, o que vai fazer com que mais desertificação haja no interior, porque é muito complicado esta tendência. Os lares em Mação proliferam, estão sempre cheios, e mesmo assim não é fácil gerir todas estas pessoas idosas, muitas delas ainda em casa, com alguma autonomia, mas para uma unidade de saúde é difícil, pois muitas destas pessoas precisam de cuidados ao domicílio”, explicou.

A falta de médicos é também uma realidade. “Há falta de médicos, ainda que no município de Mação não haja tanta necessidade, na medida que tem vindo a diminuir a população. Mas não nos podemos esquecer que muitos dos médicos estão à beira da reforma, e este vai ser outro desafio: conseguir ter médicos de família, não médicos contratados como temos em Abrantes, Constância e Sardoal. Em Mação, dentro de um a dois anos, começamos a ter reformas e alguma dificuldade em substituir”, admitiu.

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