Mação | Tia, tia! Bolinhos, bolinhos! Em louvor de todos os santinhos (C/VIDEO)

1 de novembro, Dia de Todos os Santos, é um feriado com vários costumes que marcam a efeméride. Uma das tradições, que remonta a muitas décadas atrás, passa pelo peditório dos bolinhos (também chamado noutros locais como Pão por Deus), onde as crianças e jovens correm as aldeias de sacola na mão ou mesmo o taleigo bordado do pão para receber guloseimas e/ou moedas. Em Queixoperra, concelho de Mação, apesar de os antigos bandos com dezenas de jovens agora serem reduzidos a grupos de 3 a 5 crianças acompanhadas dos pais, a tradição está a passar às gerações mais novas. E dizem os locais, que é para manter. O mediotejo.net não quis ficar de fora, e alinhou na aventura de pedir os bolinhos com a criançada, de porta em porta, por toda a aldeia. Em mais um ano, cumpriu-se a tradição.

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A manhã começa cedo, a pé desde as 8h00, os pais aguardam que São Pedro seja generoso e que deixe a chuva e trovoada para outro dia, para facilitar o cumprir da tradição com os mais novos a percorrerem toda a pequena aldeia, a pé, para fazer o peditório.

O relógio marcava cerca das 9 horas da manhã quando encontramos Duarte, 10 anos, Simão e Salvador, 6 anos, e Constança, 3 anos, já na rua que vai para a igreja. Acompanhados dos pais, Júlio Lopes e Luís Carias, os pequenos mostravam-se ansiosos e avançavam pelas ruas da aldeia, como conhecedores de todos os cantos e cantinhos e com a determinação de quem conhecia, uns melhor que outros, os donos das casas onde entoavam a cantiga tradicional.

“Tia, tia! Bolinhos, bolinhos! Em louvor de todos os santinhos!”, ouvia-se, num coro por vezes certinho e em uníssono, outra vezes mais descoordenado. Mas o que interessava era que as “tias” e “tios” viessem à porta e dessem os seus bolinhos em troca dos louvores da pequenada.

Os mais velhos e destemidos rapazes, traziam consigo bolsas a tiracolo, equipados e aconchegados contra o frio da manhã, e visivelmente entusiasmados pelo tilintar das moedas que já iam juntando, orgulhosos da safra deste ano.

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Os doces, esses, iam sendo trocados conforme o gosto de cada um. “Eu não gosto deste”, afirma Simão, ao passo que Salvador lhe estende um dos seus para troca. “Toma este, eu fico com esse”. Tudo certo.

Já a mais pequenina Constança, na sua inocência pura, não partilhava do mesmo entusiasmo dos seus companheiros de peditório. A pequenina, que trazia uma sacola cujo transporte era dividido entre si e o pai, preferia os bombons que corria a aceitar e logo, logo, a pedir para provar.

“Pois, com as guloseimas já ficas contente. As moedas tenho de ser eu a aceitá-las”, diz Júlio, risonho, mas compreensivo. Mais uns anos, e Constança já saberá dar valor às moedas ofertadas no Dia de Santos. Já terá mais noção do dinheiro. “Logo saberás que com estas moedas podes comprar mais bombons como esses”, disse-lhe o pai.

Apesar de pequena, Queixoperra tem muitas casas e habitantes resistentes. Não só mais velhos, como também casais jovens. E não houve casa que não tivesse, à passagem dos pequenos, os bolinhos para dar. “Tu pedes por quantos?”, questionava a maioria das pessoas, para saber quantas moedas dar. Em resposta, com toda a honestidade, recebiam um singelo: “é só para mim”.

E lá nos fomos cruzando com outras mães e pais, com alguns bebés de colo. A tradição começa a ser passada bem cedo. E logo reparamos que Queixoperra recebeu recentemente uma bela fornada de meninas. E segundo apurámos, elas já são mais que eles.

Subimos lá acima, pelo caminho que antigamente, Júlio e Luís, bem como os da sua geração e outros, faziam até à antiga escola primária, atual central meleira. E logo pais e filhos trocam memórias, ainda que os pequenos fiquem meio desconfiados por ser difícil conceber no edifício reestruturado a imagem de uma escola. A deles é diferente. Simão, Duarte e Salvador frequentam a escola em Mação.

As baterias começam a ficar descarregadas, já mais de meia aldeia percorrida. E Simão já perguntava “e o almoço?”. Eram cerca de 10h30 da manhã. Mas a fome começava a apertar, afinal, foi grande o esforço.

“Vamos lá, só já faltam mais três casas”, diz Júlio. E Luís logo completa “e cantem lá mais alto, que isso tão baixinho não dá com nada!”.

Dantes não era nada assim. Júlio e Luís lembram-se de acordar ainda mais cedo, e de haver grupos maiores. “Havia um espírito competitivo na altura, pois quem começasse mais cedo e terminasse o peditório por todas as casas da aldeia em primeiro lugar era aquele que ganhava. Era o maior”, recordou Júlio.

“E a nós só interessavam eram as moedas. O resto ficava pelo caminho, pois era hábito darem tremoços, romãs,… Nós queríamos era o dinheirito!”, confidenciou Luís, entre risos.

Ainda assim, e apesar de os tempos terem mudado, fizeram questão de dar condições aos filhos para aprender e cumprir com a tradição que, um dia, os mais velhos também lhes passaram. Mas fizeram-no de forma natural e sem qualquer esforço.

“Surgiu naturalmente, pois foi assim que foi passada a nós. Crescemos nesta tradição, e naturalmente foi passada aos filhos, da mesma forma”, disse Júlio.

Já Luís mostra-se contente por poder contribuir para a continuidade desta antiga tradição. Agora só espera “que se mantenha por muitos anos”, tal como outras que “fazem parte” da identidade da aldeia de Queixoperra.

E a manhã passou rápido, com a volta bem orientada pelos pais, para que os filhos conseguissem pedir os bolinhos o mais rapidamente possível. Não para serem os maiores, mas para encontrarem os mais velhos em casa. Pois outras tradições chamavam pelos maçanicos: as missas em louvor dos que partiram, as visitas aos cemitérios e a Feira dos Santos no centro da vila de Mação.

A missa, os bandos de antigamente e os bolinhos numa época de necessidades

Mesmo na entrada da aldeia, uma das últimas casas onde as crianças pediram os bolinhos, cruzamo-nos com Armindo Luís, com 78 anos, natural de Queixoperra, mas a residir nos arredores de Lisboa. A felicidade com que distribuía a moeda e a guloseima aos mais novos era visível.

Talvez porque lhe assaltara à memória a sua infância e juventude, quando estava do lado de lá, de sacola na mão, mas numa época totalmente diferente e com outros costumes.

“Havia muito mais miúdos, muito mais. E nós íamos à missa, e levávamos já o saquinhos. Quando saímos da missa… era uma alegria! Éramos aos bandos, quase”, recordou, saudoso Armindo, que estimou que naquela altura eram cerca de 70 a 90 crianças e jovens a participar na tradição.

“Começávamos numa ponta, junto à Igreja, e vínhamos para baixo, todos contentes, até acabar a volta toda”, disse, notando que aí o motivo de felicidade eram outro tipo de bolinhos.

Entre “tremoços, figos secos, merenditas, e alguns tostões” os companheiros do seu tempo ficavam felizes com a colheita, pois “havia necessidades” o que leva Armindo a crer que antes “se dava mais valor” à tradição e à oferta dos bolinhos.

“Vivo nos arredores de Lisboa, mas faço questão de vir aqui neste dia para dar os bolinhos aos miúdos, pois lembro-me de antigamente, quando os recebia. E achava que me dava jeito a mim e aos meus pais, pois tínhamos dificuldades. Por isso, já há alguns anos a esta parte, este dia é guardado para vir à terra e cumprir a tradição para os mais novos”, afirmou, com sensação de orgulho e de quem cumpriu com o seu dever para que a tradição continue e perdure no tempo, a fazer miúdos e graúdos felizes, num dia especial e que tem sempre encontro marcado na aldeia para rever familiares, amigos e vizinhos.

Mesmo que isso implique fazer longos quilómetros até à terra natal dos pais e avós. É como dizem: faz parte.

*Reportagem da tradição em Queixoperra em 2018, republicada em 2019

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