Mação | Rotas estão a erguer-se das cinzas para elevar o património do concelho (c/vídeo)

Nos últimos anos Mação tem carregado o fardo dos incêndios florestais, e dele não tem conseguido livrar-se. Para um concelho com uma identidade enraizada na floresta, torna-se difícil seguir caminho de cada vez que este património – e o legado histórico de antepassados – é engolido pelas chamas. Mas a resiliência do povo parece ter amadurecido com tantos desafios, e dezenas de pessoas arregaçaram mangas para valorizar e preservar este território, criando novas Rotas para atrair gente ao concelho e, pelo caminho, concretizar o sonho de ver nascer um Geopark em Mação.

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O mote para esta reportagem não poderia ser outro: a caminhada solidária, proposta voluntariamente nas redes sociais, e que mexeu com mais de uma centena de pessoas. O evento passou do plano virtual à realidade, e reuniu na praia fluvial de Cardigos, no dia 15 de agosto, cerca de 90 pessoas prontas a caminhar pelos trilhos devorados pelo fogo que lavrou na freguesia entre 20 e 23 de julho, deixando cerca de 15 aldeias em sobressalto e destruindo mais quatro habitações.

O objetivo era enfrentar o medo e a aflição que o fogo havia causado, percorrendo as zonas atingidas, como aquela que dará origem ao PR – Rota de Cardigos Norte, que já tinha sido projetado, mas que agora terá de ser repensado.

Pela manhã, os participantes juntaram-se a Leonel Mourato e aos seus companheiros do grupo de voluntários das Rotas de Mação, para uma caminhada com um evento de geocaching integrado. Os “Filhos do Fogo” estavam prestes a dar luta à terra queimada, munidos de esperança e coragem para a convencer a renascer das cinzas.

Miúdos e graúdos percorreram os trilhos e, o que parecia ser uma manhã de névoa, tímida, depressa se tornou numa manhã de verão. Mas nem isso fez os caminhantes tremer. Lá vinha o jipe do Professor António Manuel trazer águas ao longo do percurso.

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Passando pela primeira zona ardida, junto das aldeias de Casas da Ribeira, Corujeira, Chão do Pião, subimos até à vila, depois atravessada para descer pela estrada para o Vergancinho. Entramos num dos atalhos de estradão florestal em direção a Roda, um dos 26 povoados da freguesia e onde se pararia não mais do que 15 minutos, para o reforço, ao km 8.

E as palavras que Leonel havia dito no briefing foram dando lugar a conversas cruzadas enquanto se avaliava aquele cenário dramático. “Pedrógão – o incêndio onde infelizmente faleceram 66 pessoas – cabe dentro de Mação 13 vezes, e Monchique – o maior incêndio do ano passado – cabe em Mação três vezes”, tinha dito. E Mação, um concelho com 400 quilómetros quadrados, viu 98% da sua área ser fustigada pelo fogo entre 2017 e 2019.

Os “privilégios” da caminhada, segundo Leonel, é que os caminhantes ficariam a conhecer de perto “o concelho de Portugal que mais área ardida tem”, e por outro lado, “percorreriam também os 2% que restam” de área verde.

Além disso, explicou-nos Leonel, “a ideia é dizer às pessoas de Cardigos que estamos com eles, e vamos tentar homologar o percurso da freguesia no sentido de valorizar o território. Mesmo que coloquemos placas em zonas pintadas de negro, pelo menos, há ali qualquer coisa diferente. Ao homologar um percurso estamos a dar um sinal às pessoas que tudo pode ser diferente”.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Na Roda, depois de reabastecidos com produtos da região no salão da associação local, o grupo seguiu rua abaixo, entre as travessas apertadas, até à rua onde mora uma senhora que Leonel tinha visitado há pouco tempo, numa das caminhadas de reconhecimento do território.

“Sentei-me ao pé de uma senhora que ficou desconfiada. Deve ter ficado a pensar porque é que um tipo de chapéu, mochila às costas e que andava com um GPS na mão – uma coisa esquisita – lhe ia bater à porta? Dizia-me ela: ‘As minhas filhas não vêm aqui há cinco anos, porque dizem que aqui não há caminhos, e dizem que vão para o Gerês que é mais bonito'”.

A intenção de Leonel era que aquela senhora pudesse vir até à porta e visse a multidão que ali se uniu e que iria dar-lhe a certeza de que iria existir ali um caminho para percorrer, para que as filhas possam ali voltar e percorrê-lo também.

Seguimos caminho, saindo da povoação em direção ao Circuito Rupestre Lithos, onde iríamos presenciar algo inédito e que resistira à força das chamas. A Anta da Laginha, situada num local recôndito, não tivesse o fogo devastado tudo o que a rodeava. E, também no grupo, Sara Cura, arqueóloga e investigadora do Museu de Mação e do Instituto Terra e Memória, logo se lançou à contextualização do monumento perante os olhares curiosos e sedentos por saber mais sobre a história dos antepassados.

A arqueóloga Sara Cura, com o grupo que fez a caminhada solidária. Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Sara Cura referiu que a Anta da Laginha é um dos poucos monumentos megalíticos funerários de Mação que foi escavada nos últimos anos. Constituída da câmara que teria uma lage na cobertura – pedras que desaparecem pela mão humana, achando que lhes dá jeito e não sabendo que estão a atentar contra o património histórico e arqueológico da sua terra – e com alguns esteios ainda de pé.

“Isto era um monumento funerário onde, há cerca de 6 ou 7 mil anos, as comunidades que viviam neste território, agricultores e pastores, enterravam os seus mortos. Depositavam-nos na câmara central e às vezes até no corredor, uma vez que se faziam também enterramentos coletivos”.

Segundo a arqueóloga foram feitas escavações no local durante os últimos 12 anos, que resultaram numa monografia realizada por uma equipa internacional, editada pela Cambrige, que irá ser lançada nos próximos meses. O monumento ardeu este verão, antes disso.

“Encontrámos o que acompanhava os mortos mas os ossos não encontrámos porque os sedimentos são demasiado ácidos aqui nesta zona e a matéria orgânica não se preserva”, explica Sara Cura, referindo que durante as escavações se encontraram objetos como taças de cerâmica, machados de pedra polida, lâminas, placas de xisto, pontas de seta, e outros objetos que faziam parte do quotidiano. As peças estão expostas no Museu de Mação, e encerram em si uma religiosidade e espiritualidade “difícil de compreender e explicar”.

A arqueóloga acabou por desabafar, e referir ser “muito triste ver o monumento assim”, com a parte da mamoa [monte de terra que faria a cobertura da câmara e que teria uma entrada para o interior] “bastante danificada”.

Mas o porquê da localização da Anta da Laginha ainda não se conseguiu descobrir, até porque difere do habitual, estando “quase numa cova”, mas o motivo poderá ter a ver “com a confluência da paisagem” para ali.

“Cada caso é um caso, e não podemos olhar só para o monumento. Temos de olhar também para o território”, concluiu Sara Cura.

Dali, com metade do caminho feito, o sol já ia alto e o calor começava a apertar mais e mais. Esperavam-nos algumas duras subidas, com as pernas já martirizadas pelo esforço e pintalgados do carvão que se ia pisando.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Esperava-nos o derradeiro ponto no final do percurso: a barragem do Vergancinho. Ali, já se iam separando os grupos conforme o apoio necessário, e houve sempre quem orientasse e, dentro do espírito solidário, surgia instantaneamente a entreajuda e o companheirismo de quem passa pela mesma experiência, rendendo-se às evidências. Se naquela manhã foi duro, como teria sido nos dias e noites em que as labaredas tomaram conta de tudo?

E a matutar naquele cenário, de uma guerra que será sempre inglória para o ser humano, lá seguimos na direção certa, até porque deu jeito ter connosco um elemento da Proteção Civil de Mação para nos indicar o caminho numa encruzilhada.

Do lado de lá, Proença-a-Nova já se avistava. Fomos descendo e começava a sentir-se uma brisa diferente, limpa, quase fresca, no meio do calor que nos acompanhara durante a maioria do percurso.

Era meio-dia e avistávamos a albufeira da Barragem do Vergancinho. Também ela com provas dadas no combate ao fogo, enchendo tanques e depósitos de água, e que naquela manhã exibia na sua serenidade e quietude as suas sebes verdes e as águas de reflexo claro. Paragem para fotos daquele momento e ganhar fôlego para a reta final.

Uma ligeira subida com descida até à praia fluvial que, se de manhã não tinha praticamente carros nenhuns estacionados nos parques, àquela hora já estava repleta de gente. Os carros abrandavam à passagem dos caminhantes, olhando com alguma estranheza para aquele agrupamento de gente que não ia sequer fardada para ir a banhos.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Não imaginavam, com certeza, que assim que chegássemos, passaríamos pelos chuveiros e acabaríamos com os pés de molho nas águas frescas e límpidas do lado de cima da piscina, para atenuar o inchaço dos pés, e outros para beberem algo fresco no bar antes de seguirmos até à associação dos Galitos de Cardigos, onde seríamos brindados com um almoço farto.

Canja, carne grelhada, sardinhas, salada de alface e tomate, batata cozida para quem quis, água, sumos, pão e vinho tinto. E cerveja para os que assim preferiram.

Ali estavam reunidos os verdadeiros “Filhos do Fogo”: os naturais de Cardigos e ali residentes, sócios da associação local, e os caminhantes que quiseram prestar-lhes solidariedade, percorrendo as suas terras e sentindo-lhes as dores e feridas que vão custar a sarar.

Ali estava gente rija, oferecendo o almoço como forma de gratidão pela esperança semeada durante a manhã, e que se espera que mais tarde dê os frutos certos para colher.

Geopark em Mação: um sonho que pode vir a ser realidade?

Desengane-se quem pensa que as Rotas de Mação são um projeto só de percursos pedestres. Não, não são. Leonel Mourato, natural de Ortiga e praticante de geocaching, começou a trilhar na cabeça formas de conseguir valorizar e preservar o território do concelho de Mação. Uma onda de voluntários, das várias terras e freguesias, juntamente com os presidentes de Junta, associações locais, e a Câmara Municipal, entre outras entidades e instituições, chegou às quarenta pessoas envolvidas no processo.

Mas há muito mais a fazer do que marcar percursos para caminhar. “Temos uma ambição, até que nos digam que não é possível: queremos criar um Geopark em Mação”, afirmou, com tanto de convicto quanto de sonhador.

“O que pretendemos é, de alguma forma, reerguer estes territórios. É difícil, mas é este o caminho. As Rotas de Mação têm este espírito solidário”, assumiu ao mediotejo.net.

“Quando iniciámos este projeto as pessoas não nos davam muito tempo de vida: uma semana, um ou dois meses… E agora estão a perceber que as Rotas de Mação são diferentes. Nós estamos a pegar no concelho, a uni-lo como um todo e qualquer acidente ou incidente que exista no concelho, também nos magoa a nós”, disse, abrindo os braços para dar a entender o sentido coletivo que o projeto tem.

“Foi com esse espírito com que nos juntámos, e nos lançámos no terreno. Temos pouco para dar, mas temos muito para oferecer. Não é fácil vir fazer uma caminhada a um território queimado, é muito mais fácil ir para uma esplanada à beira-mar beber uma cerveja, descansado…”, notou.

A caminhada passou por um dos 16 percursos pensados para o concelho, sendo que, como a freguesia de Cardigos é “muito extensa” tem duas rotas pensadas para Sul e Norte.

“Nós tínhamos à beira da ribeira tudo mapeado, mas ardeu tudo… Esta caminhada não vai ser exatamente o futuro PR da zona Norte, porque vamos ter que o adiar. Mas vai ser muito aproximado, porque começa e acaba na praia fluvial de Cardigos, e vamos tentar que passe no maior número de povoações à volta”, adiantou.

E lá insistiu que as Rotas têm “um espírito diferente”, mexendo até com a psicologia das pessoas. “Trabalhamos muito isso: eu para conseguir algo, antes de mais tenho que perceber o que o outro me pode dar e como posso fazer com que se interesse”.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

A equipa tem juntado dois geólogos, uma arqueóloga, um historiador e mais o conjunto de voluntários, que percorreram as várias freguesias fazendo levantamentos e reconhecimento dos territórios e pontos de interesse.

“Aquilo que temos percebido dos territórios que pisamos é brutal”, mencionou, entusiasmado, para depois contar um dos episódios vividos nesta jornada. “Na Rota do Brejo, na Serra do Bando, alguém dizia: ‘Não passamos ali, que aquilo são só calhaus’. Mas aqueles calhaus fazem parte da nossa história. A Serra do Bando é a segunda maior serra do distrito de Santarém, só ultrapassada pela dos Candeeiros, e quando me disseram que aqueles dois maciços rochosos – o Bando dos Santos e o Bando do Codes – vieram a rebolar do lado de Peniche, 200 km no mar, fiquei de boca aberta…”, contou, acrescentando que “há 600 milhões de anos, onde nós estamos agora era mar e onde é o mar era terra; os continentes desagregaram-se e inverteu-se. É este conhecimento que também vamos colocar nos painéis informativos”.

No fundo, pretende-se que as rotas potenciem os territórios e os conteúdos das mais variadas áreas que possam alimentar conhecimento e saber de quem por ali passar.

“Queremos que as pessoas, ao percorrerem e saírem da rota, também sintam que absorveram toda a riqueza em termos de conteúdos sobre a cultura, a história e a tradição dos lugares por onde passaram”, justificou.

Mas o trabalho está ainda longe de ficar terminado. “Um percurso pedestre não é espetar um poste no chão com uma placa… Dá muito trabalho. Estamos numa fase de trabalho de retaguarda, que é agregar o maior número de conteúdos das mais diversas áreas. E a ideia é criar um portal online, com apoio de empresas que trabalham este tipo de conteúdos”, fez notar.

Em setembro, segundo Leonel, vai ser feita a oficialização do processo, por via de assinatura de um protocolo “que envolverá a Câmara Municipal, as Juntas de freguesia, as associações, as escolas, a GNR e os Bombeiros, o Instituto Terra e Memória e o grupo de 40 pessoas das Rotas de Mação”.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

“Vai ser a constituição, com o estipular de direitos e deveres, para salvaguardar no futuro todo o trabalho que vai sendo feito”, aludiu.

Mas o objetivo final… é um geoparque. “Estará previsto para 2025… mas em 2023 a Câmara Municipal vai ter que optar se quer avançar ou não, porque envolve uma parceria com as universidades, ser reconhecido pela UNESCO, envolve uma candidatura… um conjunto de passos”, mencionou, dando a entender que o processo será moroso.

Apesar da noção da dificuldade e da responsabilidade que acarreta este passo, Leonel e a equipa que o acompanha não desmobilizam. “Nós temos um elefante dentro de uma sala de porcelana, é complicado empurrar, mas vamos empurrando o elefante. Se algum dia tivermos que andar com o elefante para trás, também andamos. Mas o nosso objetivo é, claramente, um Geopark, não tenho a mínima dúvida. Eu acho que é possível, mas podemos ter azar…”, disse, ciente de que são necessários esforços conjuntos e o cumprimento de algumas diretrizes cruciais para o efeito.

Em Portugal existem atualmente três Geoparques Mundiais da UNESCO: o Arouca Geopark, o Geopark Naturtejo (que abrange os concelhos de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Nisa, Oleiros, Proença-a-Nova e Vila Velha de Rodão), o Geopark Açores e o Geopark Terras de Cavaleiros (Macedo de Cavaleiros). O Geopark Estrela, na Serra da Estrela, encontra-se em fase de candidatura à UNESCO.

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1 COMENTÁRIO

  1. Cara Joana,

    Quero agradecer-te pela tua presença e do MedioTejo em Cardigos (Mação).
    Já fazes parte da família das ROTAS DE MAÇÃO.

    Irás caminhar muito, por estes territórios. Irás percorrer locais incriveis.

    Como tu dizes:
    Sozinho chega-se mais depressa, mas juntos chega-se mais longe

    Ou como eu digo:
    Muito mais que um movimento, um grupo ou um plano…
    É um espirito!

    Cptos
    Leonel Mourato.

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