Mação | Picaretos do Ti Fontes dão mote para Núcleo Museológico em Ortiga

A Câmara de Mação está a desenvolver um investimento de cerca de 200 mil euros na musealização das artes da pesca da freguesia de Ortiga, um Núcleo Museológico que retrate artes e ofícios da pesca no concelho, em particular em Ortiga, onde vão ser perpetuados os picaretos (embarcações típicas de Ortiga) construídos por Manuel Fontes (Ti Fontes), calafate e pescador, que faleceu em 2017, aos 90 anos, com mais de 300 barcos construídos e uma vida inteira dedicada ao Tejo.

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A iniciativa é organizada em conjunto pela Câmara de Mação, associação “Os Amigos da Estação de Ortiga” e pela Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga e visa envolver todas as forças vivas do concelho e da freguesia para que este seja um museu “vivido, sentido, usado e partilhado por todos”, destacou ao mediotejo.net o presidente da autarquia, Vasco Estrela.

Segundo o autarca, compete ao município e toda a comunidade “saber honrar a sua memória e tudo aquilo que ele gostava e defendia, sendo que este Museu vai também preservar a memória e os saberes das artes da pesca de Ti Fontes, enquanto personalidade que faz parte da história do concelho de Mação, da freguesia de Ortiga e do rio Tejo”.

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Bairro dos pescadores em Ortiga. Foto: DR

A empreitada foi adjudicada pelo preço de 148.695,95 euros à empresa Damião & Belo, Lda, num contrato celebrado a 30 de julho e cujos trabalhos arrancaram em setembro de 2018. O prazo de execução da obra é de 240 dias e a abertura deverá acontecer entre março e abril deste ano 2019.

O Núcleo Museológico de Ortiga representa um investimento de cerca de 200 mil euros, e pretende converter a antiga Escola Primária de Ortiga, freguesia ribeirinha com o rio Tejo aos pés, num museu das Artes da Pesca Tradicional, algo que está “intimamente ligado à história daquela localidade e às suas gentes”, sendo que fora esta arte que alimentara muitas famílias, que toda a vida se dedicaram à pesca.

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A fachada da antiga escola primária onde nascerá o Núcleo Museológico local. Foto: Vasco Dias

Segundo a autarquia, o edifício da escola primária irá manter-se em termos da sua estrutura principal, sendo o interior adaptado a várias zonas. Prevê-se a criação de uma zona de receção, e o museu terá duas salas: uma servirá uma exposição permanente sobre as artes da pesca e a tradição e cultura locais, enquanto a segunda albergará outras atividades ligadas à temática do núcleo.

Também um espaço a norte da estrutura principal se prevê reaproveitar, no sentido de albergar instalações sanitárias de apoio bem como um espaço de anfiteatro para usufruto da comunidade ortiguense.

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Museu recupera memórias e tradições ribeirinhas de Ortiga. Foto: DR

O Centro Etnográfico de Ortiga – Núcleo Autónomo do Museu de Mação funcionará na antiga escola primária de Ortiga. Será uma estrutura dependente da Câmara Municipal de Mação e tem por objetivos promover a cultura e artes da pesca; a cultura e trabalhos rurais; a defesa da paisagem cultural do rio Tejo; recuperar e dignificar a função dos mestres das artes e ofícios tradicionais e valorizar e promover a identidade cultural e social das comunidades taganas.

O equipamento, que tem João Filipe, natural de Ortiga e estudioso e defensor da tradições ribeirinhas, como coordenador da Comissão para a Operacionalização do Museu, irá cooperar, também, com os estabelecimentos de ensino do concelho e da região, assim como com demais entidades que perfilhem idênticos objetivos.

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Os ‘picaretos’, barcos típicos de pesca no rio Tejo, e em que as técnicas e os segredos seculares na sua construção são passados de geração em geração e dentro da mesma família.

A requalificação do exterior está também prevista no projeto, onde surgirá uma cobertura onde estará instalado um barco picareto, tradicional de Ortiga, obra do falecido e último mestre calafate de Ortiga, Ti’ Manuel Fontes, cujo espólio integrará certamente a exposição permanente do museu.

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Ti Fontes construiu mais de 300 barcos de pesca ao longo da sua vida, sendo reconhecida e elogiada a criação dos barcos ‘picaretos’. Foto: DR

A este propósito, o concelho de Mação estudou, preparou, e esteve representado no 5.º Encontro da Rede Braspor, que decorreu em 2016, uma iniciativa que decorreu em Mértola tendo como temática geral as abordagens holísticas que contemplem enquanto conjunto o Meio e o Homem, que o explora e modifica. Nesta ação a temática específica foi “Entre Rios e Mares: um Património de Ambientes, História e Saberes”.

Neste contexto, recordamos, João Filipe, pelo Centro Etnográfico de Ortiga (CEOGA) do Museu Municipal de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, apresentou a sua comunicação sobre “As artes da pesca da Freguesia da Ortiga – Mação (Médio Tejo): a musealização como contributo para o enriquecimento das paisagens culturais”.

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No 5.º Encontro da Rede Braspor, João Filipe contou com a presença de Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação e de uma das técnicas do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo

A sua reflexão incidiu sobre a importância do rio para a comunidade ortiguense e como a mesma se irá rever num espaço museológico que lhe é dedicado. “O rio é um elemento da comunidade” e esse espaço de memória reforça a ligação das pessoas ao rio, assim como aquilo que ele significava e continua a significar para a população. “Os tempos mudam, mas o rio fica. O rio faz parte da família”.

Sendo que os rios sofrem com o desenvolvimento e as próprias alterações climáticas são condicionantes do futuro, João Filipe defendeu que se lute pelos recursos hídricos, tendo em conta que o território se desenvolve “através das pessoas e das suas capacidades (sob sistemas organizacionais tais como instituições públicas, empresas privadas e associações das mais variadas temáticas)”.

João Filipe mencionou, neste contexto, a educação cívica, ambiental e patrimonial, bem como a criação e divulgação de conhecimento. “As populações locais precisam e anseiam por abordagens de apoio em linguagem tácita. A comunicação eficaz, económica, eficiente ao criar-se localmente e ao objetivar-se na produção de conhecimento sobre a realidade local, sustenta tanto o dever de memória quanto a ética da participação. Partilhar informação, em interação, entre produtores e consumidores é muito relevante nas zonas economicamente mais desfavorecidas.

Como tal, João Filipe defendeu que os “museus de iniciativa local promovem o desenvolvimento de base comunitária, salvaguardam e enriquecem paisagens culturais únicas requalificando, com as suas atividades, os modos de estar culturais e que, fomentando a interação que caracteriza os museus comunitários, desencadeiam e cimentam relações permanentes, criam compromissos de futuro, animam economias locais”.

“A musealização das artes da pesca e da etnografia do rio Tejo, na Freguesia de Ortiga segue uma estratégia em que a triangulação Território – Pessoas – Organizações se enquadra na sustentabilidade ambiental, social e económica.”, notou.

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Manuel Fontes (à direita na foto) e Joaquim Mariquitos dois dos grandes pescadores de Ortiga, o primeiro para além de pescador é o grande mestre calafate na construção do famoso ‘picareto’. O segundo foi considerado o maior pescador na pesca de amarração, ou seja pesca de arrasto onde eram utilizados dois ‘picaretos’ que arrastavam em lanços com aproximadamente 300 metros a uma velocidade estonteante Tejo abaixo. Ti Mariquitos coordenava a sua equipa que era de quatro homens, dois em cada ‘picareto’.

Ao longo da sua apresentação, João Filipe mostrou várias fotografias do rio Tejo, assim como das pesqueiras (existem atualmente 22 pesqueiras em Ortiga), da varela, do picareto e de toda ligação entre o rio e a população ao longo das décadas, o que suscitou a curiosidade da plateia.

Foram também apresentados os desenhos/projetos de construção dos picaretos, com base nos dados fornecidos pelo calafate Manuel Pires Fontes, de Ortiga, numa perfeita demonstração daquilo que deve ser a transformação do conhecimento tácito (o saber de experiência feito) em conhecimento explícito (tecnicamente sustentado nos desenhos do picareto a construir, nas medições e nas descrições explicativas).

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Imagem do futuro Museu de Ortiga. Foto: CMM

Nesta sua participação enquanto orador no 5.º Encontro da Rede Braspor, João Filipe contou com a presença de Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação e de uma das técnicas do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo.

 

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