Mação | Ortiga, um topónimo pouco pacífico em terra de gente determinada e consciente que a união faz a força

Ortiga, Mação. Foto: Arlindo Marques

Segundo a ‘Monografia do Concelho de Mação’, de António de Oliveira Matos, a etimologia da palavra Ortiga está ligada à planta urtiga, bastante comum na região. De acordo com Joaquim Silveira, distinto toponimista, o nome da Ortiga deriva da tal planta, mas outras hipóteses são levantadas envolvendo a passagem de gregos e de romanos pelo território. O nosso jornal conversou com João Filipe, um homem da terra, formado em História, que nos falou sobre uma aldeia construída no alto, com o Tejo aos pés, das tradições antigas e do ‘objetivo comum’ inscrito na alma das gentes. 

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Alguém já opinou, ao que se sabe sem consistência, que o nome da Ortiga provém do termo antigo ‘Ortiga – tiro de peloiro de pedra; canhão de 19 palmos que atirava peloiros de pedra’. “De facto há muitos rebôlos na terra… mas não é crível isto. O nome de Ortiga deriva da planta que abunda na região – planta nada amável nem hospitaleira, em perfeito contraste com a índole da população, acentua-se, porque é verdade. De resto, nalgumas fontes bibliográficas, como por exemplo, a Enciclopédia Portuguesa Ilustrada lê-se o seguinte. ‘Ortigas – povoação da freguesia de Penhascoso, concelho de Mação’”, logo o plural pode significar plantas e não tiros de calhaus, conforme atesta a revista “A Freguesia de Ortiga”, publicada em setembro de 1948 e cujo diretor foi Joaquim Rosendo.

Contudo, há quem analise o topónimo de forma diferente como é o caso de Leonel Mourato, um filho da terra e um investigador local, que defende que a palavra deriva de Asteria, deusa da mitologia grega. Conta a lenda que Asteria, desejada por Zeus, para fugir dele transformou-se em codorniz. Perseguida mesmo assim pelo pai dos deuses e dos homens, lançou-se ao mar, onde se tornou uma ilha, com o nome de Ortígia, a ilha das codornizes. Podendo ser essa a ligação a uma terra onde abundavam as codornizes. Mas terão os gregos passado por Ortiga? Provavelmente sim!

A afirmação é do historiador João de Matos Filipe, também ele filho da terra, que leu, pela primeira vez, algo sobre a etimologia da palavra Ortiga precisamente na revista publicada em 1948 para comemorar o vigésimo aniversário da elevação daquela terra do concelho de Mação a freguesia.

A revista, número único. para celebrar 20º aniversário de elevação de Ortiga a freguesia. Créditos: mediotejo.net

“Por todo o nosso território passaram fenícios, gregos, cartagineses, tal como por aqui, devido ao rio Tejo nos seus processos de negócios. Temos algumas palavras que derivam do grego, isto porque esta língua, na Península Ibérica e em todo o sul mediterrânico, foi muito misturada com o latim. Uma grande confusão no que diz respeito à etimologia. Quanto à permanência dos gregos no território, é desconhecida!”, afirma João Filipe.

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No entanto, sugere-se uma terceira hipótese. Dá conta que as primeira referências que encontra sobre Ortiga são da época medieval e depois da época moderna. Lembra uma escritura que observou, do início do século XVII, falando “na Cova do Rei [perto da Estação de Alvega/Ortiga], nos campos de Ortiga”, documentação que já referia Ortiga, não como um lugar mas como um território.

Segundo João Filipe, tal “achado” reforça a teoria quanto à etimologia da palavra poder ter derivado do latim devido à proximidade de Aritium Vetos e do balneário romano de Ortiga, sendo “Ortivo” o verbo nascer. “Mas não é pacífica a etimologia da palavra”, observa.

E do povoamento disperso, dos diversos casais espalhados pelos “campos de Ortiga”, um território abrangente, derivou o povoamento concentrado. Ou seja, o território situado entre a Ribeira Fria e a Ribeira d’Eiras, mais a nascente – apesar da ambição da Ordem do Hospital em estender o seu poder de donatário para cá da mesma – estava povoado por inúmeros casais os quais funcionavam como unidades sócio/económicas familiares.

João de Matos Filipe na praia fluvial de Ortiga. Créditos: mediotejo.net

Um espaço territorial correspondente à atual freguesia de Ortiga que pertenceu até 1928 numa parte à freguesia de Penhascoso e noutra parte à freguesia de Mação. Até ao primeiro quartel do século XVIII, esse território conheceu tal estrutura de povoamento: “nasciam, casavam e morriam pessoas residentes no Casal da Chalouca, no Casal da Foz, no Casal Janeiro, no Casal da Cabeça da Uje, no Vale de Junco, no Casal da Ortiga e no Casal das Cabeças, e outros”, explica.

Por volta de 1725, “as referências a esses casais mantêm-se como simples unidades de produção agrícola, situação que perdurou no tempo até aos dias de hoje. Ainda não encontrámos explicação substantiva para esta tendência de concentração habitacional. Motivos terão existido. De segurança ou outros ligados a mais fáceis acessos às necessidades básicas das atividades económicas a que se dedicavam ou, ainda, a fatores de ordem espiritual – não esquecer que em 1787 já eram celebrados casamentos na capela do Senhor de S. José, de Ortiga”, acrescenta.

Foi dessa dinâmica de concentração habitacional que nasceu o ainda atualmente reconhecido “poder do coletivo” do povo de Ortiga.  João Filipe nota que “irá no tempo, criar as necessárias condições para que, no seio da comunidade, venham a ser praticados e desenvolvidos processos de entre ajuda quer no plano individual de vizinhança, quer no plano global e mais elevado de luta pelos interesses da população, como entidade coletiva. A tendência para o associativismo naquilo que respeita à solução de questões de interesse comum é notória. O espírito de que sozinho faço menos do que acompanhado”, nota.

Pesqueira no rio Tejo, em Ortiga. Créditos: mediotejo.net

Como exemplo de projetos de índole associativa destaque para as pesqueiras, na sua construção. “Com vários donos desde há séculos. Por se tratar de projetos de execução financeira elevada, são bons exemplos de trabalhos e de investimentos efetuados e explorados, em conjunto há centenas de anos”.

Também “a partilha das águas do Vale da Ortiga, registada em escritura datada de 1876 e como esta, por certo também a do Vale Grande, a do Vale da Palha, a que desde a Feteira servia a área da Galhoufa, da Horta das Barreiras, da Caliça e do Curralinho, para falarmos nas mais extensas, são bons exemplos de tal espírito. Estamos a falar de Valas, daí a designação de ‘Água da Vala’, com muitas centenas de metros, senão mesmo com quilómetros de extensão”, refere o historiador.

Em Ortiga, nasceu uma comunidade com elevada abertura ao exterior – pelo rio Tejo navegável e pelo caminho-de-ferro, a partir de 06 de setembro de 1891 – natural era também a sua adesão a novas ideias e à discussão e participação na gestão da “coisa pública”, algo que se apresentava como incómodo aos detentores do poder local.

Para João de Matos Filipe a ligação ao rio “é uma ligação ao exterior. Abriu mentes. Todos os habitantes de Ortiga viram no rio uma janela para o exterior” mesmo depois do caminho-de-ferro chegar. “A prova da importância do rio enquanto ‘estrada movente’, como escreveu Armando de Castro sobre os rios navegáveis, o facto de ainda existir e a família ter guardada a carteira de mareante /arrais de barco de Evaristo Parente que até aos anos quarenta do século XX, com seu irmão, Joaquim Parente, formava equipa na fragata transportando diversos produtos, via Tejo, já com o transporte ferroviário a funcionar em pleno”.

Fonte no centro de Ortiga. Créditos: DR

Uma Ortiga “tenazmente republicana”

Imbuídos desse espírito de discussão e participação no gerir da “coisa pública”, decorreu o processo natural dos ortiguenses “se envolverem, de forma ativa, na vida política numa constante atitude de trabalho, visando a melhoria das condições de vida” da população conta.

E foi assim que em 1909 é criada a Comissão Política Republicana de Ortiga, naturalmente com objetivos políticos mas visando lutar pela criação da freguesia de Ortiga e pelo progresso da terra. José António Branco, Joaquim Fernandes Martins e Joaquim Dias Frade foram os promotores da reunião.

Alguns anos antes, nas lutas eleitorais de 1886, especialmente renhidas no concelho de Mação, Ortiga em peso já se havia mostrado “tenazmente republicana” como escrevem Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues em “Portugal: diccionário histórico” de 1904.

Na sequência do Congresso do Partido Republicano Português que reuniu em outubro de 1911, dá-se a cisão do Partido. Em 1912, António José de Almeida funda o Partido Republicano Evolucionista, por outro lado Brito Camacho forma o Partido da União Republicana. Por sua vez, Afonso Costa herda a estrutura do Partido Republicano Português e funda o Partido Republicano Democrático Português, ao qual vem a aderir a Comissão Política Republicana de Ortiga. Interessa verificar que a proposta de adesão foi aprovada por unanimidade.

Lutar pela criação da freguesia de Ortiga implicava trabalhar-se no sentido de criar as condições legais exigidas, “algo que quer as novas condições políticas, quer os interesses administrativos já instalados em nada ajudavam para que se viessem a concretizar”, nota o historiador.

Manifestação nos anos 1980 contra o facto da estação designar-se Alvega/Ortiga situando-se no território de Ortiga. Créditos: DR

A comunidade ortiguense realizou “um importante trabalho” sob a liderança da Comissão Política Republicana e a partir de 1920, pela Comissão Promotora de Melhoramentos Locais de Ortiga, criada pela Câmara Municipal perante a qual respondia diretamente sem dar satisfações à Junta de Freguesia de Penhascoso.

Assim, nasceu a escola. “Desde Abril de 1911, vinham lutando pela criação de uma Escola para o sexo feminino que servisse Ortiga e Monte Novo, pertencente à freguesia de Mação. A escola para o sexo masculino havia sido criada em 1873. Só em Ortiga identificavam-se 45 crianças do sexo feminino, em idade escolar. Quanto às de Monte Novo desconhecia-se o respectivo número, dado tal povoado pertencer à freguesia de Mação”, conta Filipe.

Nesse sentido, remeteram petição ao Ministro do Interior informando já disporem do necessário terreno para a construção do edifício. Tratava-se do terreno onde atualmente está implantado o edifício da antiga escola primária e que será adaptado a espaço museológico dedicado à preservação da cultura e artes ortiguenses, com especial incidência na pesca tradicional no rio Tejo.

Ortiga ao fundo com o rio Tejo a seus pés. Créditos. João Filipe

Construiu-se o cemitério. Que defendem deve servir Ortiga e toda a população do Monte Novo. “Sem apoios financeiros oficiais, avançou-se com processo de subscrição junto de todos os ortiguenses e estes corresponderam em dinheiro. Das listas de donativos a que tivemos acesso constam para cima de 125 cidadãos, sendo que a primeira pessoa a constar das listas é o Dr. João de Oliveira Casquilho, com 50 mil réis”.

É, assim, fruto da tenacidade da Comissão Política Republicana que a construção do cemitério tem início em 1912 e fica concluída em 1913.

No ano da sua inauguração, mais precisamente no dia 26 de dezembro de 1914, faleceu José Augusto Mesquita, cidadão que liderou o processo de construção do cemitério, na qualidade de tesoureiro da Comissão Política Republicana.

“Rezam os relatos da época que ‘o povo em peso’ se opôs a que o corpo de um dos maiores, senão mesmo o maior obreiro do cemitério, fosse sepultado no de Penhascoso, estando o de Ortiga concluído”, refere. Dando-se corpo a essa vontade popular, José Augusto Mesquita foi a primeira pessoa que, falecida, veio a ser sepultada no Cemitério de Ortiga onde hoje ainda repousa, na sepultura Nº1.

A primeira sepultura no cemitério de Ortiga, de José Augusto Mesquita. Créditos: DR

Ainda a fonte. Entre os beneméritos João Filipe aponta João de Oliveira Casquilho “como expoente máximo desse amor à sua terra, o qual de entre os apoios financeiros concedidos consta, em 1923, o integral financiamento da construção da primeira fonte pública, no centro da Ortiga e da rede de canalização da água potável desde a Corga das Figueiras, bem junto do Vale Grande, até à referida fonte, numa distância a rondar, senão mesmo superior a 2,5 quilómetros”.

E por fim o Posto do Registo Civil de Ortiga. Logo após a promulgação da Lei do Registo Civil foi criado, em 1914. A tal não terá sido estranha a forte influência republicana local.

A Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga

A partir de 16 de maio de 1920, a missão de trabalhar em nome do bem estar da população, foi assumida pela Comissão Promotora de Melhoramentos Locais de Ortiga, criada pela Câmara Municipal de Mação. As informações oficiais do Governador Civil eram favoráveis à pretensão dos habitantes de Ortiga. A 31 de março de 1928, contrariando vozes da política local, Ortiga elevou-se a freguesia. Fazia-se assim a vontade do povo.

Contudo, tanta oposição à criação da freguesia iria associar-se à débil capacidade financeira das autarquias de então e reflectir-se negativamente no bem estar da população, devida à incapacidade material de realização de melhoramentos pela Junta de Freguesia.

É neste contexto que nasce a Liga Regional de Melhoramentos e Defesa da Freguesia de Ortiga, em 1929. Nove anos mais tarde, a Liga Regional de Melhoramentos e Defesa da Freguesia de Ortiga, transferiu a sua sede para Lisboa, mantendo uma Delegação em Ortiga.

“Problemas relacionados com a dificuldade de alguns adeptos locais do regime da ditadura – Estado Novo – aceitarem a independência política e religiosa da Liga, conduziu a dificuldades de gestão diretiva só ultrapassadas com a estratégia então adotada. Quem não estava próximo do regime tinha muitas dificuldades e os elementos das direções eram perseguidos. Assim, procede-se à alteração dos estatutos e transfere-se a sede para Lisboa ficando uma delegação em Ortiga”. Passa a designar-se por Liga Regional de Ortiga, mantendo os mesmos objetivos de trabalho.

A população de Ortiga, no concelho de Mação, continua a honrar a tradição: enfeitar com flores as fontes da freguesia no dia 1 de maio. Estátua com o busto de João d’Oliveira Casquilho, benemérito que trouxe a água até Ortiga. Créditos: mediotejo.net

A Liga inaugura o posto médico em 1939, com a presença da Banda Filarmónica da Casa do Povo de Alvega, possibilitando a ação clínica dos médicos João de Matos, de Alvega, de António Patrício, de Mação, e de Manuel Tropa, de Belver, sem qualquer encargo destes pela utilização do espaço.

Assumiu integralmente os encargos financeiros referentes à aquisição do terreno, construção do edifício e respetivo equipamento, contando sempre com as doações dos ortiguenses residentes e daqueles que, espalhados pelo Mundo, não esqueciam as suas raízes. Trabalhou ainda na construções de pontões e na construção do Largo em frente à Fonte Pública oferecida por João d’Oliveira Casquilho,

Na angariação de fundos para projeto de eletrificação pública, foram preparadas duas peças de teatro – Romeu e Julieta e Flor da Aldeia.

Em 1950 teve início o processo de aquisição e construção do novo edifício sede e o seu regresso a Ortiga que, com nova alteração de estatutos, passa a designar-se por Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga, uma importante coletividade que ainda hoje atesta de forma inequívoca o espírito associativo dos ortiguenses, base da sua força enquanto comunidade independente e consciente de que juntos conseguem atingir objetivos que de forma individual nunca atingiriam.

O barqueiro Vitorino. Ortiga. Créditos: DR

O ‘hercúleo’ ti’Vitorino que conhecia o Tejo como ninguém

Como prova de que Ortiga não era tida em grande consideração pelos responsáveis políticos da época atente-se no nome da Barragem – Barragem de Belver – quanto está toda localizada na freguesia de Ortiga. “Apesar dos protestos escritos levados a efeito pela Liga junto dos responsáveis, as respostas escritas destes são pouco menos que ofensivas”, considera João Filipe. Do mesmo modo, a estação ferroviária de Alvega/Ortiga. Toda ela em território ortiguense.

No pós 25 de Abril houve mesmo uma manifestação junto da Estação no sentido de se corrigir a designação. A liderar o processo “a bandeira que acompanha o grupo de manifestantes, naturalmente e sem surpresas trata-se da bandeira da Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga”, observa.

O local de passagem para a outra margem era precisamente junto à Estação de Alvega/Ortiga onde aguardava a barca do ti’Vitorino que durante décadas atravessou quem ali chegava e queria passar o rio Tejo até Alvega, incluindo os estudante do Colégio de Santo António, hoje Escola Dr. Fernando Loureiro.

“As pessoas andavam a pé”, recorda João Filipe, que, “de sacola às costas e bucha na mão, com 10 anos”, fazia três quilómetros entre Ortiga e a Estação.“Passávamos a barca” do ti’Vitorino “um homem com um coração maior que uma casa”, garante.

É por isso que no começo do cais de Alvega encontramos uma placa, uma homenagem da comunidade educativa, datada de 2014, ao barqueiro Vitorino Fernandes que reza assim: “Homem de inexcedível perícia e força hercúlea, a cada um sempre acudiu ao chamamento da passagem para a outra margem e com a sua bonomia os estudantes foi passando”.

Durante muitos anos, quer o Tejo fosse grande quer fosse pequeno, “todos respeitávamos o ti’Vitorino de uma forma séria. Também é verdade que nos aturava muitas patifarias e ria-se de garotos. E se a esta distância alguma coisa me fica do ti’Vitorino é que respeitava tanto o Tejo como o Tejo o respeitava a ele. Acho que falavam um com o outro. Esse respeito que tinha pelo rio soube transmiti-lo a todos nós”, conta.

João Filipe. Foto: mediotejo.net

Recorda até um dia de tejada em que o barqueiro mandou-os sentar no barco e sossegar. “O Tejo metia medo, chega no largo da Estação e consequentemente não havia aulas no colégio em Alvega. Moemos-lhe tanto o juízo para ir lá que nos levou. Subimos ao longo da ribeira, fomos dentro do colégio, na altura não havia rede, as portas da entrada do colégio estavam todas abertas e fomos com o barco até às escadas, demos uma volta e viemos embora todos contentes. Já não há homens desses! Disponível a qualquer hora do dia ou da noite”, recorda, com saudade.

Vitorino tinha duas barcas, “uma estilo picareto mas maior, para passar as pessoas, e outra onde passavam os carros de bois, por exemplo. Normalmente fazia a travessia do rio sozinho. Nunca teve um acidente!”, assevera.

A barca passava ainda as sacas com azeitona das casas agrícolas de Alvega até à Ortiga. “Adorávamos ir em cima daquilo tudo. Ainda me estou a ver hoje a entrar para cima da barca cheia de sacos de azeitona para ir lá deitado com a sacola… eu e os outros”. João de Matos Filipe nasceu no dia de natal de 1947.

Naquela época não existia casa alguma em Ortiga onde não houvesse uma tarrafa – rede redonda manual -, “não havia frigoríficos e não havia família que não pescasse uma saboga para comer. Aprendi com o meu pai e com os outros a apanhar o suficiente para a minha casa e para a casa dos meus avós. Mais nada porque não valia a pena, no dia seguinte voltávamos. Esse respeito pela natureza, pelo rio, vem da prática do dia a dia e o ti’Vitorino assim era!”.

Ortiga, ao longe a Estação Alvega/Ortiga. Créditos: mediotejo.net

Tradições e uma gastronomia ligada ao rio

Foi dessa dualidade de comunidade rural piscatória que se desenvolveu a gastronomia de Ortiga. João Filipe também já escreveu sobre essa culinária no livro ‘Cultura e artes da pesca tradicional no rio Tejo em Ortiga’.

E são pratos ligados ao rio: as couves com feijões, acompanhadas com peixe frito ou assado; as migas fervidas com peixe assado ou frito; a caldeirada de peixe; a sopa de peixe (espécie de massada de peixe, feita com massa “cotovelinhos” ); o sável ou saboga assada no forno de lenha, com batata assada, também no forno, acompanhado por salada de alface cortada bem miudinha, ou salada de tomate; o peixe assado ou frito acompanhado por açorda e salada; e o famoso arroz de lampreia.

Falando sobre o património cultural imaterial, as tradições ainda resistentes em Ortiga, João de Matos Filipe refere a serração das velhas e o enfeitar das fontes.

A primeira festividade tradicional é dedicada às mulheres que foram avós durante o período anual anterior à quarta 4ª feira da Quaresma e que recebem um hino à vida, ou seja, uma homenagem à mulher que deu continuidade à espécie humana.

A tradição da serração das velhas, em Ortiga. Créditos: DR

“No exterior da residência procede-se ao choro e às lamúrias em alta voz por todo o grupo, choro esse acompanhado pelo som do serrote sobre um cortiço, imitando o corte de uma árvore”, explica João Filipe. Terminada a ladainha, a casa ilumina-se e a ‘velha’ permite a entrada do grupo que se dirige à mesa posta para celebrar com a família o nascimento do último neto. “Por tão antiga, perde-se no tempo esta tradição”.

A segunda ocorre no dia primeiro de maio. “Para lá das fontes, atualmente também não é esquecido o busto de João de Oliveira Casquilho”, lembra.

A tarefa de embelezamento é realizada de forma natural e autónoma, com o envolvimento da comunidade de cada bairro no enfeitar da sua fonte, sob lideranças informais geradas no seio do grupo e sem interferência de outras quaisquer pessoas ou organizações.

Importa referir “o forte empenho e esforço das mulheres no envolvimento de todos, jovens e menos jovens de ambos os sexos. Deste modo, envolvendo todos no presente, estão a trabalhar no assegurar do futuro de uma sociedade” dotada do tal forte espírito coletivo.

A população de Ortiga, no concelho de Mação, continua a honrar a tradição: enfeitar com flores as fontes da freguesia no dia 1 de maio. Fonte do Monte Novo. Créditos: mediotejo.net
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