Mação | O Museu saiu à rua para celebrar a Arte rupestre entre gravuras e viagens no tempo (C/FOTOS)

Foto: mediotejo.net

O Dia Europeu de Arte Rupestre comemorou-se pela primeira vez e Mação não ficou de fora. Concelho rico nesta área, com registos e provas dadas e com personalidades e escavações que fazem parte da história e identidade daquele território, Mação integrou as comemorações, aliando-se aos seis países da Europa para evocar a arte rupestre e a sua importância. Neste concelho são relativamente conhecidos os sítios rupestres do Vale do Ocreza, do sítio de Cobragança, perto da aldeia de Caratão, e o abrigo do Pego da Rainha, na aldeia de Zimbreira. Mas muito ainda há por descobrir.

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O dia começa com uma caminhada iniciada junto da capela do Sr. dos Aflitos, à entrada de Casas da Ribeira de Mação. O autocarro trouxe as dezenas de participantes desde a porta do Museu até ali, mas o desejo era de caminhar em busca do sítio rupestre de Cobragança.

Saímos em direção à ponte junto da aldeia, que Sara Cura, a guia do Museu de Mação, explicou ser do século XVI, altura em que foi construída por iniciativa da população para “facilitar a passagem da aldeia para a vila de Mação”. Nela apenas caberiam apenas carroças ou carros de bois. A ponte foi reabilitada recentemente.

Atravessa-se a aldeia e sobe-se pela estrada, passando o cruzamento. Logo ali a indicação do Circuito Rupestre, onde esperavam as restantes responsáveis do Museu para mais uma atividade guiada. Ali, do alto do monte, a cerca de 340 metros de altitude, avista-se a aldeia de Caratão, a cerca de 1 km de distância deste conglomerado.

As gravuras de Cobragança, topónimo que já era dado àquele sítio no passado, segundo consta, foram conhecidas cerca dos anos 40. Trata-se de duas bancadas de arenito com gravações feitas em picotado.

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As gravuras têm sido fustigadas pelos fogos florestais, tendo ali lavrado os grandes incêndios de 2003, de 2017 e de 2019. O fogo representa uma ameaça a este património, uma vez que o aquecimento e o arrefecimento muito rápido da rocha provocam o destacamento de segmentos da superfície, levando à perda de partes das gravuras.

A primeira bancada apresenta várias covas, muito definidas, duas delas inseridas em dois círculos concêntricos muito similares; consta ainda uma figura oval com uma linha central e um ponto na extremidade.

Os círculos concêntricos não são estranhos na região, uma vez que se sabe existirem outras gravuras deste tipo no Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo, sendo que estas figuras se encontram submersas pelas águas da barragem de Fratel.

Quanto à interpretação, não é de fácil consenso. Alguns pensam que possa estar relacionado com escudos em bronze, outros, plantas de castros e assentamentos.

Uma das bancadas de Cobragança depois dos incêndios de 2003. Hoje, as gravuras não estão já tão percetíveis devido aos vários elementos culpados pela erosão e segmentação da rocha, entre eles os incêndios florestais. Foto: Museu de Mação

Sara Garcês, investigadora do Instituto Terra e Memória e coordenadora do Laboratório de Arte Rupestre do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, ambos em Mação, foi a responsável pela visita orientada na manhã desta quarta-feira, dia 9 de outubro. O primeiro Dia Europeu da Arte Rupestre.

“Estão seis países da Europa com mais de 30 sítios de arte rupestre a festejar este dia. Hoje, em todos esses sítios estão pessoas a contemplar a arte rupestre. É uma iniciativa dos Caminhos da Arte Rupestre Pré-histórica (CARP), rota cultural da arte rupestre europeia, que tem mais de 40 sítios e instituições ligadas ao mundo rupestre, espalhadas desde Portugal até ao Azerbaijão, que lidam com gestão, proteção, salvaguarda e divulgação de sítios de arte rupestre”, começou por contextualizar.

“Por incrível que pareça as rochas são resistentes. Mas precisam um bocadinho da nossa ajuda para se manterem, para se divulgarem bem, e acima de tudo para as pessoas perceberem que é um património muito, muito frágil, e que é preciso muito trabalho para o salvaguardar”, alertou.

“Às vezes perguntam-me qual é a melhor maneira de se manter a arte rupestre. Eu digo que é deixá-la em paz”, disse Sara Garcês, com um sorriso.

Cobragança é “um sítio muito pequeno”, sendo que tem duas rochas apenas. “O contexto é estranho. Para quem já viu as gravuras do Ocreza, ou de Foz Côa, ou uma gruta com pinturas, há mais, são muitas rochas e há uma paisagem num contexto monumental aliado às gravuras. E Cobragança parece fugir um pouco desse contexto, visto estar aqui, parece que no meio do nada… Na realidade estamos muito perto de um sítio arqueológico, onde as pessoas viviam (um assentamento) do final da Idade de Bronze, tem cerca de 3000 anos, o Castelo Velho do Caratão. Há quem acredite que estas gravuras possam estar associadas a esse assentamento”, enunciou.

Sara Garcês referiu que, durante toda a sua formação em arte rupestre, nunca viu nada assim e continua sem encontrar explicação sobre as gravuras da rocha. “Provavelmente esta rocha não será pré-histórica, pode ser da era medieval ou do tempo dos romanos, apesar de ser mais raro fazer arte rupestre, mas fazia-se.”

Já a segunda rocha, com os círculos concêntricos, acredita que “sejam mais recentes, cerca de 1000 anos a.C. ou até menos, diferente da arte bem mais antiga como o Cavalo do Ocreza de cerca de 10 000 a 15 000 anos a.C.”

Foto: mediotejo.net

“A partir de 7000 anos a.C. há uma mudança do paradigma na sociedade europeia, as pessoas tornam-se sedentárias, fazem agricultura, fazem pastorícia e tornam-se domesticadores. E a arte rupestre acompanha esta mudança, é aí que se vê a diferença entre o antes e o depois: quando seriam caçadores recoletores e a arte rupestre é muito focada na representação de animais, na caça e na subsistência; aqui a arte rupestre muda para o abstrato, para o simbólico. Surge uma quantidade de figuras que não conseguimos chegar ao seu significado. Sabemos que há ali um mundo de ideias e de conceitos que para eles era extremamente importante, mas que nós não conseguimos perceber”, referiu.

Círculos, círculos concêntricos, espirais, linhas, pontos, e a figura humana em torna representação de si próprio, são os elementos que surgem nesta era mais abstrata das gravuras.

Daí Sara Garcês interpretar como tendo sido feitas estas gravuras mais tarde, após a Idade do Ferro, num sentido de representação de “escudos”, lembrando as sociedades mais viradas para a defesa do seu território onde já seriam usadas armas em ferro.

“Esta rocha tem um retângulo com linhas no meio. Há uma figura em laço, que está sobreposta. Era comum a civilização romana desenhar em rocha tabuleiros de jogo, e há estudos sobre isso. É uma hipótese, mas faz lembrar”, disse, apontando para a bancada.

De seguida, “uma figura muito estranha, que faz lembrar uma flor, com três pétalas” e Sara disse não conhecer “nenhuma figura como esta na arte rupestre portuguesa”.

Por outro lado, consta uma figura que “parece ser um corpo, com três linhas que podem ter sido duas patas e uma cauda ou três patas, talvez tenha sido uma representação de um animal. Mas esta zona da rocha já está bastante estragada e fica difícil percebermos que figura aqui estaria”, interpretou.

Em 2003, o Museu fez réplicas destas rochas por uma questão de conservação, detendo os moldes. O ideal, seria que resistissem ali mais 10 mil anos. E é aí que o trabalho técnico ganha força. A conservação passa por “evitar que certas partes da rocha se partam”, e que a rocha permaneça como está e com o mínimo de intervenção possível.

Por outro lado, o digital assume importância enquanto ferramenta do estudo e interpretação da arte rupestre. “Digitalmente conseguimos ver gravuras que a olho nu não vemos. Conseguimos ver círculos concêntricos, com uma covinha no meio. A arte rupestre está sempre disponível para interpretações e depois cada pessoa faz a sua interpretação do sítio”, afirmou a investigadora.

Dos registos iniciais consta que havia representações naquela bancada, de homens a cavalo/cavaleiros, mas perdeu-se a rocha e as gravuras. “Pelos registos e o que sobra, é uma hipótese a ser considerada”, disse Sara.

Foto: mediotejo.net

Ali, frisou também a importância das visitas orientadas e guiadas a estes sítios, evitando “o toque, o mexer e sensibilizar para a manutenção do sítio e também da paisagem em que se encontra inserido”, o que nem sempre é fácil, estando no caso inserido entre terrenos florestais privados. Aquele fora adquirido pela autarquia no sentido de resgatar e preservar o conjunto de arte rupestre de Cobragança que em tempos fora descoberto pelo Dr. João Calado Rodrigues nos anos 40, responsável por muito legado da arte pré-histórica deixado a Mação.

“Antigamente os arqueólogo gostavam de guardar tudo na cabeça, e não escreviam. As rochas perderam-se. Mas a Dra. Maria Amélia Horta Pereira voltou a encontrá-las, cerca dos anos 80, e voltou a perder-se no meio da floresta densa. Após o incêndio de 2003, conseguiu saber-se o local exato e fez-se trabalho arqueológico sério, de escavação e registo, com réplicas, e também de manutenção e conservação para a estabilização da rocha”, lembrou.

Finda a visita, hora do regresso de autocarro até ao ponto de partida, na vila. Ali continuaram as atividades e celebrações, mas junto da população jovem.

Junto das escolas, vários especialistas do Museu e do ITM promoveram atividades, além da visita a Cobragança com as turmas de 3º ano da EB1 de Mação. Na Escola Secundária houve tempo para atividades conjuntas, em sala de aula, e no recreio, havendo ainda atividades de experimentação e outras alusivas à temática e aliadas à dança.

Foto: Museu de Mação

A Comemoração do Dia Europeu de Arte Rupestre assinalou-se esta quarta-feira, 9 de outubro, e sendo o Município de Mação fundador da rede CARP e membro da Rede UNESCO de Cidades da Aprendizagem, promoveu durante o dia várias atividades através do  Museu de Arte Pré-Histórica, em parceria com o Agrupamento de Escolas Verde Horizonte.
Além da caminhada a Cobragança com os alunos de 3º ano da EB1 de Mação, houve ainda a dinamização da atividade “5 minutos e 500 frases pela Arte Rupestre”.

Esta atividade levou as turmas a pararem durante 5 minutos e a totalidade dos alunos, do 5º ao 12º ano, elaboraram individualmente uma frase alusiva à importância da arte rupestre e da ciência para Mação.  Sorteadas as frases, o aluno vencedor recebeu um livro alusivo à arte rupestre, do projeto HandPas – Hands from the Past – Mãos do Passado”. Esta atividade terá uma segunda volta, posteriormente, em que o aluno que escreveu a frase apurada, após eleição por um júri, receberá uma biblioteca.

A fechar este dia de celebração, o grupo de dança da Escola Secundária brindou todos os presentes com uma coreografia dedicada à arte rupestre, onde não faltaram as roupas e pinturas que faziam viajar no tempo, até à longínqua Pré-História.

Fotogaleria com momentos do Dia Europeu de Arte Rupestre em Mação:

 

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