Mação | O Monte que nasceu no vale entre fragas, nascentes de água e resineiros

Monte Penedo, Mação. Créditos: mediotejo.net

Uma pequena aldeia num vale com o nome de Monte. Segundo a Monografia do Concelho de Mação, de autoria de António Oliveira Matos, terá sido “um acidente topográfico”. Povoação onde residem cerca de 40 pessoas, que encontramos após uma descida de grande inclinação, estendida pouco além de uma rua, sempre a descer, até à ponte que passa as gentes para Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro.

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Ao entrar, Monte Penedo parece quase deserta, uma aldeia no meio do pinhal, dos que resistiram aos incêndios de 2017, para abrandar e meditar, onde a civilização não produziu tudo e mais um par de botas. Escuta-se, vindo de cima, o barulho das viaturas que atravessam a A23, uma obra que se ergueu no pico dos montes como via até à cidade, à semelhança dos moinhos de vento erigidos nos penhascos representando sinais da palpitante atualidade, enérgicos na produção eólica.

Monte Penedo, Mação. Muitas casas são construídas em cima das pedras. Créditos: mediotejo.net

O Monte também é Penedo com o topónimo facilmente explicado, uma vez que naquele local as enormes rochas e fragas são mais que muitas. Durante décadas sustentaram o povo que trabalhava na arte da cantaria. Atualmente sustentam as casas de habitação que por ali resistem ao isolamento. Há quem o procure, particularmente estrangeiros. Uma das casas em Monte Penedo foi comprada por belgas, outra em Ribeira de Boas Eiras adquirida por noruegueses e a unidade de alojamento local Casa da Forja (ou Casas Reis de Matos) de Idalina Matos, é procurada em 99% por turistas franceses.

O concelho de Mação, pelos menos a sul, era local de pedreiras, claro está, devido à abundância de matéria prima. Na pedra granítica esculpia-se as cantarias para as casas, os “maçeirões” onde comiam os porcos, as pias onde bebiam os animais, as mós de lagar que esmagavam as azeitonas e de moinhos onde moíam os cereais, as pequenas pedras para as calçadas ou ainda as altas cruzes visíveis em vários montes do concelho.

Estas últimas financiadas outrora pelo tenente Silva, “um homem muito católico de Casal de Barba Pouca, mentor também da capela de Nossa Senhora da Guia, em Monte Penedo, e financiador de outras capelas” por todo o Mação, conta Idalina Matos ao mediotejo.net.

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Monte Penedo, Mação. Idalina Matos. Créditos: mediotejo.net

Idalina Matos, quase a completar 83 anos, é a tesoureira da Associação de Melhoramentos de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro. Nascida e criada em Monte Penedo, depois de muitos anos ausente por força de ser professora do ensino primário, regressou às origens, primeiro para viver em Ortiga, onde mantém restaurada a casa dos sogros, e por fim para Monte Penedo onde, além dos seus muitos animais e flores, tem a unidade de alojamento local.

“Aos 25 anos sofri de poliomielite” por isso praticamente toda a vida lidou com problemas de locomoção, partindo as duas pernas três vezes, o que não impede que Idalina seja uma pessoa ativa. “Gosto de pedras, gosto do campo, mas tenho de circular por isso continuo a conduzir para manter a minha liberdade”, conta, dizendo que tirou a carta de condução já com 60% de incapacidade.

Monte Penedo, Mação. As pias em granito que no passado serviram para dar de beber aos animais têm hoje diferente utilidade. Créditos: mediotejo.net

No Parque das Nações, em Lisboa, também tem uma casa. “Bonita e espaçosa, no sétimo andar com uma vista maravilhosa. Na varanda tive 30 vasos, mas não chega, preciso de terra”, refere, e para reforçar esse amor pela ruralidade decidiu ir mais longe e tirar um curso de agricultura biológica.

O pai de Idalina foi “cabo de ordens” de Monte Penedo e quer o pai quer o avô “toda a vida trabalharam a pedra, um património identitário da comunidade. Naquela época em Monte Penedo não havia homem nenhum que não trabalhasse com eles” lembra, sendo certo que há 50 anos as três aldeias – Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro – tinham mais de 580 pessoas.

Em Espinheiro “hoje já não mora ninguém”. Recorda as visitas à família do lado materno. “Vivia lá muita gente… a primeira aldeia desabitada que vi foi Monte João Dias, afinal no Espinheiro aconteceu a mesma coisa”, lamenta.

Monte Penedo, Mação. Créditos: mediotejo.net

Idalina Matos frequentou a Escola Primária de Monte Penedo, depois completou os estudos em Lisboa e o curso foi tirado em Castelo Branco sempre ao lado da sua amiga Diamantina de quem guarda memórias e histórias. Diz que fez a “tropa” a trabalhar em aldeias desde Rio Maior à Lourinhã mas a estreia aconteceu nos Foros de Salvaterra de Magos onde viu pela primeira vez homens adultos descalços.

“No meio de uma vinha em terreno de areia como se fosse praia. Os sapatos eram para dias de festa. As mulheres usavam uns canos nas pernas, uma espécie de meias sem pé e os homens com as calças arregaçadas até ao joelho, tinham as pernas negras, encardidas da pisa da uva, e andavam descalços. Nunca tinha visto! Em Monte Penedo não havia gente pobre… no sentido de que todos tinham uma casa, um burro, terra para tratar, uma cabra ou uma ovelha. Não havia ricos mas todos eram donos de alguma coisa. Aquela gente não possuía nada”, conta.

Monte Penedo, Mação. A fonte que mereceu obras, bem como os respetivos acessos, recentemente. Créditos: mediotejo.net

Até a casa das professoras, em 1956, “era de telha vã e chão de terra batida, com um quarto e uma cozinha, sem ligação interior. A casa de banho era um cantinho no palheiro e íamos para a escola numa carroça de mula”, recorda.

No inverno Idalina e Diamantina dormiam de guarda-chuva aberto “caso contrário os cobertores de pelo comprido amanheciam cheios de gotas de humidade. Mas éramos felizes e não faltava na cozinha sacas de 100 quilos com favas e ervilhas”, ri.

Além de ser, atualmente, a tesoureira da Associação local, da qual já foi presidente, fundou a Academia de Cooperação e Cultura de Mação, aprendeu informática em Vila de Rei e deu aulas de português durante 11 meses “a cerca de 40 homens de cinco nacionalidades” que andavam pelo concelho na época da construção da A23. “Fiz amigos com quem mantenho contacto até hoje. Sentia-me remunerada com os cumprimentos das pessoas”, revela.

Monte Penedo, Mação. Museu Etnográfico e Biblioteca dos Povos da Aldeias de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro. Créditos: mediotejo.net

É ainda a guardiã das chaves do Museu Etnográfico e Biblioteca dos Povos das Aldeias de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro. “O que temos guardado é o triplo do que está exposto, mas tratam-se de objetos profissionais, utensílios dos resineiros, objetos pessoais, livros, mobiliário, vestuário, e uma grande recolha de fotografias antigas. Temos um grande álbum”, explicou Idalina. Infelizmente o jornal mediotejo.net, devido a uma chave teimosa, não conseguiu observar o espólio. Visita que ficará, certamente, para outra oportunidade.

Além das características rochosas do terreno, Monte Penedo “era a horta de Mação”, observa Natalina Marques Lourenço, regressada à sua aldeia natal há 15 anos após uma vida de mudanças e viagens.

Monte Penedo, Mação. Natalina Marques Lourenço. Créditos: mediotejo.net

Contava a sua avó que “antigamente as pessoas trabalhavam como resineiros, nos pinheiros. Tinham aqui uns palheiros com gado e pernoitavam aqui até que se construiu a primeira casa em cima de um penedo e a aldeia foi crescendo. Todas as mulheres iam vender os seus produtos a Mação. Havia e há muita água”, assegura. E ainda hoje são visíveis as casas construídas em cima das pedras.

Natalina, de 71 anos, frequenta a Universidade Sénior de Mação, a Academia Cooperação e Cultura, o grupo de cavaquinhos da Academia e o coro da Sociedade Filarmónica União Maçaense, grupo para o qual também arrastou o marido, Manuel Matos Pentieiro, de 75 anos.

Monte Penedo, Mação. A primeira construção em cima da pedra ainda resiste ao tempo. Créditos: mediotejo.net

Na horta ao lado de sua casa, quase junto ao caminho que leva à fonte oferecida ao povo de Monte Penedo por um lavrador “como prova de gratidão”, em 1910, e recentemente recuperada pela Câmara Municipal, “após 20 anos de pedidos e promessas”, floresce uma agricultura de subsistência de onde brotam os legumes e vegetais para a família e ainda vinho e azeite.

“Do olival já cheguei a retirar 7 mil quilos de azeitona”, sublinha Manuel, também natural de Monte Penedo, terra que no passado contava com quatro mercearias e cinco tabernas e hoje tem apenas um café “e vendedores ambulantes todas as semanas”, incluindo padaria que entrega o pão diretamente na casa do clientes, num serviço personalizado.

Monte Penedo, Mação. Natalina Marques Lourenço mostra a oliveira que poderá ser a mais antiga de Portugal. Segundo os peritos da Universidade do Minho que já a observaram, terá mais de 4 mil anos. Créditos: mediotejo.net

E é nesse olival que Natalina e Manuel têm duas oliveiras marcadas por investigadores da Universidade do Minho. “Não as podemos cortar, disseram os peritos, e assinalaram as árvores”, explica Natalina. Uma delas será porventura a mais antiga de Portugal.

“Andaram a medi-la e disseram que têm mais de 4 mil anos, o que faz dela mais antiga que a do Mouchão” em Mouriscas, no concelho vizinho de Abrantes, diz.

Devido à sua profissão de soldador, Manuel é um homem viajado por Angola, Líbia, Alemanha, Bélgica, Holanda ou Itália, viagens que fez quase sempre acompanhado da mulher Natalina. Apesar de todo esse mundo e de terem casa no Seixal, decidiram também regressar às origens.

Monte Penedo, uma aldeia onde a água brota por entre as rochas. Mação. Créditos: mediotejo.net

Pelo caminho, que nos levou a Ribeira de Boas Eiras na tentativa de falar com o casal de noruegueses, encontrámos o presidente da União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira, José Fernando Martins, literalmente com a mão na massa, nas obras de recuperação da entrada para a Capela de Nossa Senhora da Guia e para a sede da Associação de Melhoramentos.

“São obras da Junta de Freguesia para ficarem prontas antes das Festas”, explicou ao mediotejo.net.

Porque a terra é rica em tradições e festas fortemente enraizadas que compõem a história daquelas gentes, as tradicionais Festas de Verão promovidas pela Associação de Melhoramentos de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro foam palco de mais encontros e reencontros. Os festejos decorreram, como é tradição, no final do mês de julho.

Monte Penedo, Mação. O presidente da Junta de Freguesia de Mação, Penhascoso e Aboboreira, José Fernando Martins, deitou mãos à obra na requalificação da entrada da Capela de Nossa Senhora da Guia e da sede da Associação antes do início do arraial popular. Créditos: mediotejo.net
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