Mação | O diabo anda à solta, ninguém prega olho em Cardigos

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

A caminho de Cardigos, procurando as estradas onde o fogo já passou e por onde podemos avançar, saltamos de aldeia em aldeia. Em Maxieira o aparato é notório e no cruzamento já se avistavam as chamas a ganhar força. Populares de máscara na cara, desgrenhados e marcados pelo negro do queimado, ganham fôlego junto das carrinhas com kits de primeira intervenção, uma medida de auto-defesa das aldeias mais isoladas que a Câmara Municipal  de Mação instituiu há vários anos.

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Alguns homens conferenciam sobre os aceiros que o trator azul ali ao lado ainda consegue fazer. O fim-de-semana foi passado a salvaguardar terrenos, interrompendo a sua ligação, para diminuir a probabilidade de o fogo ir ganhando sempre fôlego e ganhar mais uma batalha. Os bombeiros chegaram há pouco, e lutam para debelar as chamas que teimam em crescer, acompanhando a altura de metros e metros de eucaliptos e pinheiros.

Aqui, em território imensamente florestal, as casas parecem estar a mais. Mas quando chega a hora de salvar os bens, não se olha a meios: mangueiras estendidas, baldes, ramos verdes, e o que mais permita estancar aquele inferno na terra que parece não ter fim. O arvoredo que arda, mas a casa não. Essa não pode arder. E dos mais novos aos mais velhos, todos os habitantes andam num desassossego, a regar e rezar para que as chamas consumam o que tem de ser, mas deixem as moradias, as hortas e os pomares em paz.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Prostrado na esquina da sua casa, olhando impaciente para as traseiras, está o octogenário Fernando da Silva. “Os meus filhos lá me acudiram. Ela era para se ir embora agora, vai trabalhar amanhã… Mas diz que se ouviu que isto aqui, hoje, ficava tudo queimado! Já é a quarta vez que me arde isto tudo!”, diz, desolado, o homem de 88 anos, de máscara na cara e chapéu na cabeça.

Aos pés, as mangueiras estendidas para ir molhando o quintal mais perto da moradia. Ali ao lado, um jipe da GNR estacionado na sua propriedade. Os bombeiros das corporações de Golegã e Tomar andam nos cabeços das traseiras, enquanto o autotanque de Abrantes vem reabastecer. Mas o cenário, ainda que sempre tivessem havido incêndios por ali, tem pouco a ver com o que era.

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“Dantes não havia nada disto… Antigamente as trovoadas faziam incêndios, tocava-se o sino, iam lá três ou quatro pessoas e apagavam. Agora? Agora é um inferno! Arde tudo aí que é um ar! Seja o que está verde, ou o que está seco”, garante Fernando, gesticulando com revolta, garantindo que no sábado não viu nenhum bombeiro na aldeia.

Os bombeiros chegaram no domingo, quando a aflição já era muita, e a contagem decrescente deixava o desespero tomar conta dos habitantes da aldeia, que não cruzaram os braços e logo se juntaram para o primeiro combate.

“O meu marido andou a fazer aceiros, até ali junto à zona onde o patrão tinha madeira. Temos que nos socorrer uns aos outros”, explica Olinda Martins, de 55 anos, de olhos rasos de água, e voz trémula, enquanto chega junto do senhor Fernando, para perguntar se ele se está a aguentar.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Residente em Maxieira há 35 anos, diz que é recorrente este cenário. “Os meus filhos andaram aí toda a noite. Um não sei dele, o outro anda com a zorra não sei para onde, outro desde o meio dia que não sei dele, anda para o lado de Cardigos… Toda a gente ajuda”, diz, mostrando a boa vontade de um povo que, mesmo enquanto perde o chão e o resultado do trabalho de uma vida, não perde a preocupação com o outro.

Na manhã de domingo, Olinda teve pena de alguns militares, que saiam da aldeia para outro ponto da freguesia, e que diziam ter comido uma sandes, uma maçã e uma garrafa de água. “É complicado. Se eles não se fossem embora eu mesma ia a casa, e o que houvesse em casa eles haveriam de comer”, diz-nos, convicta, enquanto passa as mãos no rosto, muito vermelho do calor e do fumo que ali se faz notar.

“A noite passada não se chegou a ir à cama, e hoje há-de ser difícil dormir…”, constata, olhando em volta, vendo o céu pintado de negro e fogo.

Fernando comenta a inconstância do vento, que “se levanta quando o lume se acende”. Parece, diz, que “até fica pior quando chega ao lume”.

Mais à frente, a única casa em perigo na aldeia. A vivenda com propriedade nas traseiras, que inclui a horta, com árvores de fruto, e uma parte recentemente limpa que travava ligação ao eucaliptal, a poucos metros.

“Os bombeiros têm sido impecáveis… e como tenho mantido isto limpo como posso… ajudou. Mas ali para cima há muita carrasca no chão, e está a tomar uma dimensão…”, nota Odete Dinis, de mangueira grossa na mão.

O marido está numa cadeira de rodas, em casa. Ela continua a regar o quintal, mas logo muda de estratégia. “Tenho de mudar a mangueira para aquela torneira, e saltar ali para cima, para ajudar os bombeiros o máximo que posso.”

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Há dois anos, o fogo esteve meias-portas com a sua propriedade, mas do lado oposto. Agora, o malfadado destino quis desafiar a sorte dos habitantes de Maxieira.

Também aqui, e uma vez mais, se fala de falta de meios. Um outro habitante chega de carro e começa a ripostar, chamando os bombeiros para o lado de cima, e gritando que está a arder tudo junto da estrada. “Não é preciso ser proprietário destas terras. Isto é uma vergonha! O meu país está a arder!”, grita, visivelmente perturbado.

Odete diz que sim, que “há falta de meios”, mas “os bombeiros não têm culpa, coitados… quem tem culpa é quem os organiza. Eles são seres humanos como a gente. Eles são os profissionais, a gente vai tentando amansar as chamas, mas eles lá sabem fazer o seu trabalho”, conclui, seguindo caminho por entre a barreira de eucaliptos e pedindo ajuda para puxar a mangueira para chegar junto das chamas, mesmo no limite da propriedade, ciente de que não tem as mesmas armas que os bombeiros, mas não desistindo de proteger as suas terras.

Avançamos até Cardigos, passando lugares como Cimo do Vale, Vale de Vacas… chegamos à entrada da vila. Mais aparato e mais focos de incêndio a despontar entre o cinzento fresco com que os terrenos foram sendo pintados após a passagem das chamas.

Nem o cemitério se livrou de mais negrura. Uma serração ali perto ainda arde, lentamente, e as chamas condizem com o pôr-do-sol tardio, tão vermelho e alaranjado quanto as labaredas que trepam as colinas ocupadas por pinhal, mato e eucaliptal.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

No posto de combustível da vila, todos espreitam onde anda o incêndio, ali para os lados de Roda. Uma das localidades fustigadas pelos fogos de 2017, e que desta vez, voltou a ter a mesma sina.

Carros de bombeiros passam entre a antiga escola primária e o largo da Associação “Os Galitos”, por baixo do Quartel de Bombeiros de Cardigos. Vê-se um helicóptero branco a sobrevoar a zona.

No centro da vila, duas carrinhas de transporte de gado resguardam dezenas de ovelhas. Salvou-se o rebanho. E ali ao lado, na estrada, um trator com um reboque de fardos de palha, todos carregados à pressa antes que o fogo os levasse.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Ao cair da noite, toca o sino da igreja. O som mistura-se com as sirenes que gemem sem fim, enquanto o azul e laranja dos pirilampos rompem a paisagem escura. Os clarões alaranjados marcam o horizonte e veem-se das varandas. Assim adivinham os moradores em que zona anda o fogo. As janelas não são fechadas, as cadeiras ficam na rua. Entre a normal rotina de uma refeição tardia e uma insónia trazida pelo sufoco e preocupação, alguém da casa acabará por vir vigiar, não se deixando intimidar pelo fumo que assombra a vila e que queima os olhos, dificulta o respirar, fustiga a alma.

Ninguém sossega. Nem os bravos que envergam a farda, nem os mais valentes anónimos que andam atarefados com carrinhas e depósitos de água, apetrechados com mangueiras largas para qualquer eventualidade.

Enquanto o diabo andar à solta, não há quem ouse descansar a vista. Em noites como esta, ninguém vai à cama em Cardigos.

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