Mação | Da alabarda de silex à (r)existência de um Casal da Barba Pouca

Casal da Barba Pouca, Mação

A toponímia pode ser um lugar estranho. Degolados, Moita Recome, Aboboreira, Gargantada, Juntos, Chaveira ou Chaveirinha são topónimos de algumas aldeias do concelho de Mação. Escolhas só explicadas pelas narrativas populares ou com base em razões geográficas, de propriedade, ou históricas. O que estará na origem de um curioso nome de um local? O mediotejo.net parou no Casal da Barba Pouca, na freguesia de Penhascoso, uma pequena povoação com cerca de 40 habitantes, onde em março de 1944 foi encontrada a maior alabarda de silex da Península Ibérica, que integra a exposição permanente do Museu Arte Pré-histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, em Mação.

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Chegou o padeiro. “O pão está fresco ou é de ontem?”, interroga em gracejo Jorge Pestana, de 67 anos, natural de Cascais adotado pela terra que escolheu para viver desde 1982. A terra pertence à freguesia de Penhascoso, em Mação, e tem o curioso nome de Casal da Barba Pouca. Quase no final do mês de agosto, o dia estava de facto fresco, provavelmente o pão também. Jorge Pestana matava o tempo, e a inércia à qual se habituou depois de viver no rebuliço de Paris, no único café da pequena povoação que conta com pouco mais de 40 habitantes.

“Um por cada casa”, revela ao mediotejo.net Maria Odete Lopes, proprietária do café e indicada pelos clientes para explicar a razão da toponímia.

No século XIX, a povoação nascia de uma colina de pedras “onde vivia um senhor viúvo chamado Manuel conhecido por ‘Barba Pouca’ por ter pouca barba, com muitos filhos, e que casou com uma senhora, igualmente viúva, também com muitos filhos. Daí foi formado o casal” povoado pelos casamentos que entretanto ocorreram entre os filhos desse casal. “Enteados, não eram irmãos!”, ressalva Maria Odete. “Assim contavam no antigamente”, observa.

A explicação não foge muito da versão contada por Dora Marques Vitória no livro “À Descoberta da Freguesia de Penhascoso”, nem da “Monografia do Concelho de Mação” da autoria de António de Oliveira Matos, que atribui o topónimo a alcunha de antigo possuidor daquelas terras. No entanto, a explicação descrita por Dora Marques Vitória remonta ao século XIII.

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Consta que “um senhor natural de Coimbra tinha propriedade, onde hoje se encontra a aldeia, designada por Casal Redondo na qual empregava um feitor de Mação chamado por alcunha ou por nome (não se sabe) de Barba Pouca. Supostamente a forma da população circundante designar esta zona seria o casal onde mora o Barba Pouca, que em português abreviado resultou em Casal do Barba Pouca. Daí que, apesar das placas atualmente dizerem da Barba Pouca, muitos defendem denominar-se Casal do Barba Pouca”.

Armando Varandas e Jorge Pestana em Casal da Barba Pouca, Mação

Certo é que, Maria Odete, aos 66 anos, ainda se lembra “de um morro enorme de pedras onde estavam umas casas na ponta de uma barreira” nas traseiras do café. Agora “está tudo diferente e abandonado”, constata.

Em Casal da Barba Pouca construiu-se uma torre no centro da povoação, demoliram-se casas para fazer um largo para as festas, constituiu-se uma associação, mas as pessoas foram saindo para viver na vila de Mação ou para Lisboa, no procura de uma vida melhor.

“Este ano não temos festa porque já não há quem a organize. Não temos jovens, nem escola há mais de 30 anos”. E se era uma escola “muito bonita, com um telhado de quatro águas, janelas largas e uma sala muito grande” recorda Odete que a viu encerrar quando a filha, hoje com 41 anos, de lá saiu para a segunda classe em Penhascoso.

E faz as contas ao rejuvenescimento da aldeia: “daí para cá, julgo que tivemos três crianças”. Hoje não há petizes a correr pelas ruas e conta apenas dois jovens: Pedro, sobrinho de Odete, com 13 anos e Susana Farinha, de 24, estudante de Engenharia Química, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

Por enquanto regressa a casa aos fins-de-semana e durante as férias mas, quando chegar o momento de entrar no mercado de trabalho, o cenário de viajante regular mudará, até porque não conta residir e trabalhar no concelho de Mação. “Não há trabalho na minha área, nem nos concelhos vizinhos”, refere Susana.

Casal da Barba Pouca, Mação

Apesar da juventude, que apela a vida mais agitada, Susana não estranha conviver entre a pacatez própria dos seniores. “Toda a minha vida foi assim”.

Sem crianças no Casal da Barba Pouca, estudou nas escolas de Mação, fez amigos na vila, e na aldeia rodeava-se de muitos animais, os seus habituais parceiros de brincadeiras.

Há semelhança do que aconteceu com o namorado, engenheiro na EDP em Lisboa, e dos amigos, um deles sendo enfermeiro “até foi viver para Inglaterra”, sabe que sem empregos não há futuro no interior do País. Realidade bem distinta da existente quando Odete era jovem.

Quando andava na escola primária, para completar a quarta classe frequentada por 32 alunos – porque “naquele tempo ninguém estudava, ia tudo trabalhar” – não havia água canalizada, nem eletricidade, que chegou à aldeia há cerca de 40 anos. Era uma vida dura de trabalho no campo “a cavar, ceifar, vindimar”, conta.

Ainda assim manifesta saudades dos onze anos que trabalhou como resineira. No início trabalhava de “sol a sol, com duas horas de sesta pelo meio. Depois é que chegaram as oito horas de trabalho”, lembra Odete.

Maria Odete Lopes no seu café em Casal da Barba Pouca

Terminada a escolaridade obrigatória, aos 12 anos, esperava-a, então, o trabalho de retirar resina nos pinhais à volta da aldeia que se estendiam até Ortiga ou até Envendos à semelhança da maioria das raparigas do seu tempo. Outras optavam por ir trabalhar nas duas fábricas de lanifícios de Mação.

“Éramos 20 raparigas da minha geração e menos rapazes. Mas muitas da terra tiveram de ir viver para Mação”, explica. Nos anos de 1970 “as mulheres não tiravam a carta de condução e sem transportes públicos para irem trabalhar nas fábricas tinham obrigatoriamente de ficar a viver na vila. Há pelos menos 40 casais da terra a viver em Mação”, conta.

No Casal da Barba Pouca “os familiares vão morrendo e as pessoas deixam de vir”. Maria Odete nunca foi para os lanifícios. A mãe “muito doente” precisava do apoio da mais nova dos seus quatro filhos.

Atualmente o café é o ganha pão de Odete que se queixa de ter “sete ou oito clientes durante a semana” na aldeia, melhorando um pouco ao fim-de-semana. “Não dá nada! Não temos ninguém”, lamenta, esperando que a reforma chegue ainda este agosto, uma vez que a pensão de viuvez de 65 euros continua a ser memória de tempos difíceis, não fosse conseguir sustento na antiga taberna do avô do seu marido, que morreu novo.

Susana Farinha e a mãe Cristina Farinha no único café de Casal da Barba Pouca

Nas memórias laborais guarda os anos de resineira como os “melhores” apesar da dureza e do desconforto peganhento da resina, por todo o corpo, a colar o cabelo onde nem sequer entrava escova, mas permeável à chuva do inverno, sem galochas, ou qualquer outro tipo de calçado, e a roupa a secar na pele.

No verão,“os homens começavam mais cedo, às 5 da manhã, a golpear os pinheiros e a pulverizar com ácido, uma volta diária contava 700 ou 800 pinheiros”. As mulheres colocavam os canecos e recolhiam a resina, chamava-se a “colha” com uma lata que pesava mais de 20 quilogramas, por 20 escudos por dia, sem descontos nem Segurança Social.

A pequena povoação, que chegou a ter três tabernas e duas mercearias, acolheu também Armando Varandas, de 88 anos, natural da Ribeira das Boas Eiras, com residência em Lisboa, para onde foi trabalhar aos 21 anos na fábrica de material de guerra e de onde saiu reformado aos 57. A sua casa permanece fechada nos Olivais ao decidir “gozar a reforma” em Casal da Barba Pouca. Não se arrepende da mudança. Os idosos da aldeia contam com o apoio das instituições de solidariedade social quer de Penhascoso quer de Mação.

Além disso, praticamente “toda a gente tem transporte próprio” para se deslocar à vila que dista um par de quilómetros da aldeia, nomeadamente para as consultas médicas. Na questão da saúde, Armando sente-se duplamente seguro uma vez que a filha é médica em Santarém. Lamenta a casa fechada nos Olivais, embora não tenha perdido serventia e esteja preparada para “receber os netos” que vão estudar para o reboliço da capital, enquanto os avós descansam no campo.

O sítio das Chãs (Casal da Barba Pouca) onde foi encontrada a alabarda. Foto: Dr. João Calado Rodrigues

O mesmo campo onde pastaram cabras, ovelhas, burros, porcos e achou Boaventura Marques uma alabarda de silex da idade do Bronze, no sítio das Chãs, em março de 1944, naquela época a maior da Península Ibérica, e ainda hoje conhecida como a alabarda do Casal da Barba Pouca. Na forma, um triângulo isósceles, com base reta, faces lascadas, mas polidas e gumes laterais retocados, de silex levemente rosado.

Encontrada acidentalmente pelo dono do terreno, a uns 15 cm de profundidade, quando lavrava para a sementeira de milho, foi descrita em livro pelo padre Eugénio Jalhay, um dos mais proeminentes arqueólogos da época, que a estudou ao pormenor, como “relíquia veneranda de uma das culturas ou civilizações mais arcaicas da nossa terra, e desenterrada ao acaso duma enxada no ignorado campo de milho do Casal da Barba Pouca”.

Encontra-se hoje na exposição permanente do Museu de Arte Pré-histórica e do Sagrado do Vale do Tejo. Aliás, este achado da idade do Bronze, juntamente com o achado arqueológico de Porto do Concelho, encontrado entre o Pereiro e o Castelo, iniciou a história do Museu de Mação.

Alabarda de silex no Museu Arte Pré-histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, em Mação
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