Livros | Autores do Médio Tejo em destaque na Feira do Livro de Lisboa

Paulo Jorge de Sousa e Paulo Alves, com a editora Patrícia Fonseca apresentaram na Praça Verde os trabalhos premiados na categoria de Não-Ficção
Um livro de retratos em forma de poemas, um arremedilho miscenizado com poesia de intervenção; uma simbólica história ilustrada e um pedaço da História revisitado através da fotografia.​ Estas foram as quatro obras distinguidas com o Prémio Literário do Médio Tejo que este ano foram apresentadas na Feira do Livro de Lisboa, perante as muitas centenas de pessoas que escolheram a tarde do dia 10 de junho para passear no Parque Eduardo VII, trocar dois dedos de conversa com os seus escritores preferidos e comprar alguns livros.
Os eventos da Médio Tejo Edições iniciaram-se às 14h00, na Praça Verde, com os músicos Rafael Umbelino e Adolfo Mendes, o “Duo Outrora”, a criarem com os seus sons tradicionais o ambiente perfeito para o lançamento de “O homem que tirava retratos”, de Martinho Branco, vencedor do Prémio Literário do Médio Tejo em 2018, na categoria de Poesia.

Natural de Riachos, em Torres Novas, Martinho Branco reside no Entroncamento, é professor na Escola EB1 de Azinhaga, na Golegã, e faz parte do movimento internacional Poetrix desde 2001. Apesar de ter obra publicada de forma dispersa, este é o seu primeiro livro em nome individual. Perante uma praça lotada, falou da sua paixão pela escrita, que o acompanha desde criança.

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Mora em mim um desejo de escrever e de somar palavras,
uma a uma, multiplicando-as

pelos sonhos que nunca tive
Quando criança

pelos sapatos que nunca calcei
Quando criança

pelas calças que nunca me engomaram
Quando criança

pelo casaco de três botões que nunca abotoei
Quando criança

pelos bancos da escola onde nunca me sentei
Quando criança

pelo sorriso amanteigado do pão macio que nunca comi
Quando criança

pela infância alegre e confortável que nunca vivi
porque não me deixaram

não me deixaram ser criança
Quando criança

Logo depois foi a vez de Nuno Garcia Lopes lançar o seu “arremedilho aos homens minúsculos”. O “arremedilho” é um tipo de representação satírica, criada nos tempos dos bobos da corte, imitando de forma grotesca e exagerada uma figura. O poeta de Tomar inspirou-se neste tipo de teatro medieval para construir um brilhante trabalho crítico daqueles que mais poder têm no mundo, e de como nos querem manter ordeiros e previsíveis.

Nuno Garcia Lopes foi distinguido com uma Menção Honrosa na categoria de Poesia nas duas edições já realizadas do Prémio Literário do Médio Tejo (2017 e 2018). A editora entendeu, também por isso, que o autor merecia ter a sua obra publicada, tal como os primeiros classificados.

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O livro, seguindo o espírito do texto, foge à norma. Tem um formato mais pequeno (“minúsculo”), e as folhas não são coladas ou cosidas a uma lombada mas presas por um parafuso. A percorrer as páginas, formigas.

aos homens minúsculos pede-se que sigam a direito o trilho das formigas e eles cumprem como se lhes fora ordenado que o fizessem.
acreditam, os homens minúsculos, que irão perder
o sentido da vida se não se imiscuírem no rebanho,
tosquiados por igual e se amansarem no mesmo pasto deglutindo por igual a janta de ervas. 

A música tradicional do Duo Outrora marcou a apresentação dos livros de poesia de Martinho Branco e de Nuno Garcia Lopes, na 89ª Feira do Livro de Lisboa

A outra obra vencedora em 2018, desta feita na categoria de Não-Ficção, foi o trabalho de ilustração “A árvore cantante”, de Paulo Alves, lançado na mesma Praça Verde, às 20h00. O ilustrador científico e consultor ambiental de Abrantes ensina crianças a desenhar num atelier de arte privado, mas passa grande parte do ano a viajar pelo mundo, envolvido em projetos de conservação de aves na Indonésia, Egipto e Djibuti.

Em Lisboa falou de como uma árvore velha e retorcida no centro histórico de Abrantes o levou a criar uma história que, apesar da sua simplicidade, contém uma profunda mensagem sobre o sentido da vida.

“A Árvore Cantante”, de Paulo Alves

O fotógrafo Paulo Jorge de Sousa, de Sardoal, distinguido em 2017 no Prémio Literário do Médio Tejo com o ensaio fotográfico “O Arneiro – 100 anos depois da I Guerra”, partilhou também alguns “segredos” da concepção da sua obra, explicando por exemplo que apenas fotografou em dias cinzentos e nublados, para que todas as fotos pudessem ter como que o mesmo filtro de tristeza, e que usou apenas uma objetiva de 50 mm, por ser a que mais se aproxima do olho humano.

“O Arneiro” foi editado em novembro de 2018, por ocasião do centenário do final da I Guerra Mundial, tendo sido lançada em dezembro, na Casa-Memória de Camões em Constância, uma edição limitada a 100 exemplares, numerados e assinados pelo autor.

Uma das imagens de “O Arneiro”, de Paulo Jorge de Sousa

O Prémio Literário do Médio Tejo, uma iniciativa da Médio Tejo Edições com o apoio do TorreShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, já havia marcado presença na Feira do Livro de Lisboa em 2018, lançando as obras “20 poemas de dores e amores”, de António Lúcio Vieira (Poesia), e “na massa do sangue”, de Evelina Gaspar (Romance).

As candidaturas para a 3ª edição do Prémio abriram no início de maio e decorrem até 28 de junho de 2019. Os vencedores recebem 500 euros e veem a sua obra publicada e divulgada a nível nacional. O regulamento pode ser consultado aqui.
Cerimónia de entrega dos prémios da 2ª edição, em 2018. Foto: Paulo Jorge de Sousa
O júri do Prémio Literário do Médio Tejo é formado por PATRÍCIA REIS, escritora premiada com 13 romances publicados na D. Quixote, CEO do Atelier 004 e editora da revista Egoísta; ANTÓNIO MATIAS COELHO, historiador, consultor cultural e presidente da Associação Casa-Memória de Camões, em Constância; MARGARIDA TEODORA, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, de Torres Novas; e PATRÍCIA FONSECA, diretora editorial da Médio Tejo Edições e jornalista da revista Visão.
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