“Lembranças de outros tempos | As migas: O pão nosso de cada dia”, por António Matias Coelho

Na hora das migas – charneca ribatejana, anos ‘60 Foto: DR

Quando eram meninos os homens da minha idade, muitos trabalhos da terra, sobretudo os do inverno, de outubro até abril, eram feitos por ajuste, por ranchos vindos de longe. Trabalho de sol a sol, salário que se ajustasse e comida que o patrão desse. O trabalho era muito, o salário era pouco e a comida era assim:

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Para o local de trabalho, que podia ir mudando, o patrão, ou alguém por ele, mandava os ingredientes para se fazer o comer. Muito em peso, por muitas serem as bocas, mas bem pouco em variedade: farinha e couve, azeite e sal e pouco mais. Carne aqui não havia, não entrava no ajuste nem era precisa para as migas que se comiam, a bem dizer, a todas as refeições. Carne só na adiafa, no último dia de todos, se o patrão quisesse dar, de borrego ou de ovelha, guisadinha com batatas. Fora disso, migas, migas, mais migas, migas ainda, tantas migas, tantas, tantas, que tinha de haver migueiro.

Ti’Custódio, migueiro de Santa Margarida (Constância), falecido no ano passado
Foto: António Matias Coelho

O migueiro não era só cozinheiro. Era também gestor de todos os géneros que recebia e que tinham de durar para comer todo o mês. E ainda fazia o pão de milho, nas malhadas pela charneca, onde sempre havia um forno. As migas que preparava, durante uma vida inteira, eram de dois tipos apenas: umas, migas carvoeiras, feitas com azeite e pão, sem outra mistura mais; outras, migas pintassilgo, cuja riqueza maior era levarem couve e um poucochinho mais de azeite.

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Trabalhava-se ao quartel. Um dia tem quatro quartéis, sendo dois na parte da manhã e meio-dia pela tarde até à noite. E esta organização do tempo determinava a hora de se comer: ferrava-se ao sol fora e por volta das nove, dez horas, dependendo do nascer dele, estava ganho o quartel e era tempo de almoçar. Jantava-se à roda da uma, estando completo outro quartel e depois não se parava até o sol se ir embora. E, claro, não se comia.

A ceia era no quartel, a palavra é a mesma, mas aqui a querer dizer o sítio em que se dormia, e ceava-se já de noite, algures no meio da charneca. E era assim a ementa: ao almoço, migas carvoeiras; ao jantar, migas pintassilgo; a ceia como o almoço e, para o dia seguinte, não pensava muito o migueiro, era cozer pão de milho, migar couves com fartura, pôr a jeito azeite e sal – migas carvoeiras, migas pintassilgo, para não ser sempre igual… E assim se ia vivendo, num rancho de sol a sol, ao longo de sete meses.

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Migas Pintassilgo Foto: mediotejo.net

Para fazer o comer, que desse para tanta gente, havia uma caldeira enorme, para quilos e quilos de migas. O migueiro, servindo-se de uma enxada, fazia um buraco no chão que era cheio com brasas para se ir cozinhando. A esse buraco quente se chamava fervedeira, percebe-se bem porquê. Em estando pronto o comer, e sendo horas para isso, agarrava-se na enxada e tirava-se para o lado uma pouca de terra com umas brasas à mistura. Chamava-se a isto rescaldo e em cima dele se punha o enorme panelão de onde todos comiam.

Cada um tinha a sua colher, invariavelmente de pau, e não havia mais peças, era talher singular. Fazia-se roda, tudo em volta da panela, cada um metia a colher, tirava e afastava-se, ia comer mais ali enquanto outro se servia, e assim se alternava, tinha de dar para todos.

Havia regras no comer, ditadas pelo bom senso e pela necessidade de ordem e de higiene. Ao chegar-se à panela não se podia falar, muito menos mastigar, isso fazia-se ao largo, virando-se a cara ao vento para a miga arrefecer. E se alguém não cumprisse a regra do afastamento, aplicava-se-lhe a chiba, um ou mais garrafões de vinho para toda a gente beber. Isso é que calhava bem porque o patrão só dava as migas, para beber era das fontes, água pura mas água apenas.

Ninguém ficava com fome, as migas davam para todos, e tinha de ser assim porque o trabalho era duro e sem a barriga cheia, mesmo que de migas fosse, não se dava produção. E em chegando o mês de abril, tendo acabado o ajuste, voltava o rancho à sua terra, cansado de trabalhar, fartinho de comer migas.

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