Leiria | Candidatura a Capital Europeia da Cultura ganha força com apoio de municípios do Médio Tejo (entrevista)

Paulo Lameiro é o coordenador da Rede Cultura 2027 Foto: mediotejo.net

Existem atualmente 10 candidaturas em desenvolvimento para o título de Capital Europeia da Cultura 2027. A data engana, a verdade é que já estamos em contra-relógio: os projetos têm de ser entregues até final de 2021. Leiria foi uma das primeira cidades a demonstrar interesse em concorrer. Quis marcar pela diferença e decidiu convidar outros municípios da sua envolvente. Hoje, sob o nome Rede Cultura 2017, a candidatura agrega 26 concelhos, entre eles quatro do Médio Tejo: Alcanena, Ourém, Tomar e Torres Novas. O mediotejo.net foi tentar perceber em que medida a região pode contribuir para o sucesso desta iniciativa, conversando com o coordenador da candidatura, Paulo Lameiro. Em Leiria encontrou um entusiasmo e dedicação contagiantes, com uma equipa a querer não só apostar na diferença mas também na convergência da riqueza das diferentes manifestações culturais que marcam o Centro de Portugal. 

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A Câmara Municipal de Leiria é um edifício elegante do início do século XX, no estilo Arte Nova, projetado pelo arquiteto Ernesto Korrodi, técnico e artista que deixou um traço característico na cidade. Leiria tem vindo a disputar com Coimbra o estatuto de centro intelectual e cultural da região Centro, o que elevou o debate, criou massa crítica e permitiu sonhar com novos projetos, como este de vir a ser “Capital Europeia da Cultura”. Subindo a escadaria dos Paços do Concelho, percebe-se que o município está apostado no sucesso assim se vê um gabinete especificamente dedicado ao projeto: “Candidatura da Rede Cultura 2027”.

Paulo Lameiro, coordenador do “Leiria Capital da Cultura” explica que, após uma análise do território, entendeu-se que teriam de incluir-se na candidatura os concelhos em redor. Foto: mediotejo.net

É ali que encontramos Paulo Lameiro, coordenador da candidatura, musicólogo que reconhecemos dos tempos em que dirigia a Schola Cantorum do Santuário de Fátima, no concelho de Ourém. Bem-disposto e grande entusiasta do projeto, possui um pensamento amplo e não se quer limitar a perspetivas que constranjam as potencialidades de uma iniciativa que quer dar a conhecer o que de melhor se cria na região à Europa, seja ou não da dita cultura erudita ou de natureza popular.

O desafio que abraçou tomou, porém, proporções gigantescas: são 26 municípios, cada um com a sua tradição, a sua história e as suas próprios concepções culturais, tão díspares quanto a faina da Beira ou a lavoura ribatejana. Há neste todo um conceito, claro, uma lógica, que segue essencialmente as rotas turísticas tradicionais em torno da cidade de Fátima e das vilas e cidades mais emblemáticas da tradição portuguesa na região, como Óbidos e Alcobaça.

Na corrida a Capital da Cultura de 2027 os dados estão lançados, e agora trabalha-se a todo o vapor para concluir a candidatura. Se ganhar, a região vai viver um período de intensa dinâmica e projeção cultural que, espera-se, poderá trazer impactos de longo prazo na economia e na vivência das próprias populações.

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Para os mais distraídos, a designação “Capital Europeia da Cultura” é um projeto da União Europeia que pretende estimular a promoção cultural numa determinada cidade europeia ao longo de um ano, dando-se assim a conhecer ao mundo. A última cidade portuguesa a ter esta distinção foi Guimarães, em 2012, que, no âmbito do projeto, avançou com um largo conjunto de obras públicas, além de ter criado uma intensa programação cultural, desde workshops, debates, teatro, cinema e espetáculos. A mesma dinâmica, com tudo o que esta envolve, vai atingir o Médio Tejo, se Leiria conseguir concretizar o seu ambicioso projeto.

Mediotejo.net: Antes de falarmos no Médio Tejo, explique um pouco o conceito da candidatura “Leiria Capital da Cultura 2027”. Ainda falta um bocadinho…

Paulo Lameiro: Na verdade, parece faltar ainda um pedacinho para 2027, mas esta ideia já está a ser trabalhada há quase três anos. Foi a 22 de maio de 2015 que o nosso presidente da Câmara, Raul Castro, colocou em cima da mesa esta ideia. Todos os anos a Europa elege uma cidade Capital Europeia da Cultura, sendo que atualmente já são duas cidades europeias. Em 2027, Portugal voltará a ter uma Capital Europeia. Já tivemos três: Lisboa em 1994, Porto em 2001 e Guimarães em 2012. Sabemos que vai ser a Letónia o país parceiro de Portugal nessa aventura e pareceu importante a esta cidade, que tem um conjunto de desafios em mãos, colocar a cultura como um primado. A candidatura a Capital Europeia é, na verdade, um motor para ativar a cultura neste território. Depois de dois anos de trabalho de um grupo de missão, que estudou a viabilidade e fez um pequeno diagnóstico do que acontece na cidade, percebeu-se que seria mais aliciante e mais eficaz – ainda que do ponto de vista formal tenha de concorrer uma cidade – fazer uma candidatura em rede.

Há um eixo entre Alcobaça – Batalha – Fátima – Tomar que naturalmente já traz pessoas à região.  E Esta diversidade parece-nos poder ser um espelho do que é hoje a Europa e um bom teste de como a cultura pode promover esta região ampla mas também compreender as dicotomias entre o que é hoje o mundo urbano e o mundo rural, cada vez mais fragmentado.

Nesta candidatura de Rede percebeu-se que provavelmente aquilo que a Europa mais tem a receber deste território é ver a forma como a cultura pode conferir coesão, desenvolver-se num espaço que é tão diverso. O território [da Rede] é amplo, à escala nacional. O nosso país é pequeno mas grande pela sua diversidade – política, administrativa -, tem regiões de turismo diferentes, dioceses diferentes, Comunidades Intermunicipais (CIMs) diferentes. Esta diversidade parece-nos poder ser um espelho do que é hoje a Europa e um bom teste de como a cultura pode promover esta região ampla, e as diferentes comunidades, mas também compreender as dicotomias entre o que é hoje o mundo urbano e o mundo rural, cada vez mais fragmentado. Ainda que pareça que tudo isto é Litoral, na verdade temos muito o Interior neste Litoral. Por isso, passou-se então para uma fase em que Leiria partilha com 26 municípios um projeto que passou a designar-se “Rede Cultura 2027”. Este projeto tem uma agenda, ainda antes da candidatura propriamente dita ser formalizada.

Conseguimos perceber a integração de Ourém/Fátima no projeto – dada a proximidade geográfica e as relações socioeconómicas e administrativas. Mas como se introduziram municípios como Torres Novas e Alcanena?

Nos primeiros anos deste processo, mas em particular em 2018, o primeiro desígnio foi definir o território. A cidade de Leiria está na CIM da Região de Leiria, um conjunto de municípios que chega a Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos. Mas percebeu-se que, para a cultura deste território, os laços, a história que existe neste momento, estabelece Leiria com cidades mais a sul e a norte. Alcobaça, Caldas da Rainha… Além do mais, o Instituto Politécnico de Leiria (IPL), que é fundamental numa candidatura que tem que juntar cultura mas também conhecimento, estende-se a sul, até Peniche. Nós tínhamos que ir a sul. A questão que se colocava era até onde. Depois de um tempo de maturação, percebeu-se que a CIM Oeste e a CIM Região de Leiria estavam juntas. Porque é que vamos para o interior? – é a pergunta central. Quem é que traz mais pessoas de fora de Portugal a este território? É Fátima. Nós até sabemos mais ou menos estimar, em função dos dias que eles permanecem desde que saem do aeroporto, quantos dias é que estão em Fátima, na Batalha, em Alcobaça, quantas horas estão em Óbidos e até quanto tempo vão até Tomar.

É uma rota…

Há um eixo entre Alcobaça – Batalha – Fátima – Tomar (as Berlengas também são património da UNESCO) que naturalmente já traz pessoas à região. Do ponto de vista do turismo e da cultura este é um eixo que existe. Até sabemos depois que há Óbidos como um pólo, há a Nazaré como outro pólo. É um eixo claramente identificado como um anzol que traz pessoas a este território. Uma candidatura que quer ter uma relação com a Europa não pode esquecer isto. E ainda que Ourém/Fátima não pertença a nenhuma destas CIMs, desde o início ficou muito claro que Ourém tinha que estar. Era muito difícil, olhando à cultura e ao património, que não se fosse até ao Convento de Cristo, e a Tomar, que de resto também tem muito contacto com a região de Leiria. Neste eixo, havia aí um enclave, que ficava de fora se não incluíssemos Alcanena e Torres Novas. Foi natural que estes quatro municípios do Médio Tejo se associassem à candidatura. Porque geograficamente estão na rota, mas não é só geograficamente. Há um conjunto de práticas: por exemplo, há escolas de música em Tomar, em Minde, em Torres Novas, em Ourém e em Leiria e os professores circulam neste território, dão aulas nestas escolas todas (risos).

A nível cultural já existe aqui uma rede montada.

Já. Eu não diria uma rede, mas já há práticas de trabalho em rede. Por isso pareceu-nos natural. Equacionaram-se outras soluções e muitas outras vontades, mas pareceu-nos que ter 26 municípios, quase um milhão de pessoas, já é um desafio suficientemente grande para nos motivar a estabelecer estas redes. Esta é a história do porquê destes quatro municípios do Médio Tejo estarem envolvidos na Rede.

Era muito difícil, olhando à cultura e ao património, que não se fosse até ao Convento de Cristo, e a Tomar, que de resto tem também muito contacto com a região de Leiria. Neste eixo, havia aí um enclave, que ficava de fora se não incluíssemos Alcanena e Torres Novas. Foi natural que estes quatro municípios do Médio Tejo se associassem à candidatura.

Chegou-se a falar da possível integração de outros municípios, como a Golegã, e questiono-o também sobre Ferreira do Zêzere e o seu ZêzereArts, por exemplo. O núcleo da Rede já está fechado ou há possibilidade de entrarem mais municípios?

Este é um projeto que está em crescimento, mas há requisitos a cumprir, uma candidatura a formalizar, uma agenda. Entendeu-se que até final de 2018 fechávamos nos 26 municípios. Nós sabemos que há outros municípios além destes, e não só do Médio Tejo, que manifestaram vontade de se juntar. Neste momento o que existe é a vontade de incluir todos os agentes culturais que pertençam ou não a estes 26 municípios. Já somos quase 10% dos municípios portugueses, para ter uma ideia. Temos que ter o bom senso de perceber que a cada novo município que vem estamos a trazer um conjunto de ruído para a candidatura, que é o que nos move. Paralelamente com a candidatura e parte dela, numa perspetiva mais ampla, haverá seguramente os exemplos que referiu mas também outros que vão ser envolvidos nesta rede de agentes que vai ser criada.

Um dos princípios da adesão à Rede é a criação de um Conselho Municipal de Cultura, que, pelo que sei, já tem reunido nos vários municípios. Consegue dar algum feedback sobre os resultados destas primeiras reuniões no Médio Tejo?

Já fomos aos quatro municípios do Médio Tejo, ao encontro dos agentes culturais. Não há a necessidade de constituir um Conselho Municipal de Cultura propriamente, não é obrigatório, mas é o órgão que melhor permite o diálogo entre os agentes culturais e a inter-relação entre municípios. A fórmula que cada município encontrou para constituir o seu Conselho Municipal de Cultura tem sido distinta. Mas estamos a tentar que este Conselho seja mesmo um órgão operacional.

Quando falamos em “Cultura”, falamos exatamente em quê? Cultura erudita ou cultura popular? Essa questão tem-se colocado?

Para ajudar a esta reflexão, nós próprios promovemos um ciclo de encontros, a que chamámos “Prelúdios de Ideias em Nove Andamentos”, que está a decorrer em todo o território. Nestes encontros estamos a refletir sobre questões como essa. A “Cultura” é uma palavra e um conceito tão amplo que permite que interpretações muito diversas e sentires muito diversos – especialmente esta oposição entre cultura erudita e cultura popular, como formulou. Na verdade, a sociedade hoje é tão mais rica que já não faz sentido qualquer dicotomia, como por exemplo cultura de esquerda e cultura de direita. Num encontro em Torres Vedras, onde se discutiram políticas culturais, alguém falava bastante de hoje termos ainda esta escola da cultura de direita e da cultura de esquerda. Alguém dizia que nos tempos que correm já não existe essa separação, porque havia quase a ideia que quem defendia a cultura contemporânea era a esquerda e a cultura popular quem a defende é a direita. Estes conceitos são muito comuns na História. Mas na verdade hoje podemos falar em culturas mais cosmopolitas, mas amplas, e culturas mais elitistas, mais restritas.

as pessoas continuam ainda com uma ideia de cultura que é a de ter espetáculos de dança, de teatro, ter companhias profissionais. Isso é uma dimensão importante de cultura. Mas se falar em património imaterial, de histórias, de património natural, de tudo o que é pensamento, de tudo o que são práticas ao nível da gastronomia, ao nível do que são as formas de espiritualidade de todo este território, tudo isso são elementos e eixos culturais.

Hoje, a separação entre popular e erudito já não é como era há 5, 10 ou 50 anos. Para essa reflexão estamos a promover estes encontros, que servem para que todos nós, quando falamos de “Cultura”, pelo menos saibamos do que cada um está a falar. As pessoas continuam ainda com uma ideia de cultura que é a de ter espetáculos de dança, de teatro. Cultura é ter companhias profissionais. Isso é uma dimensão importante de cultura. Mas se falar em património imaterial, de histórias, de património natural, de tudo o que é pensamento, de tudo o que são práticas ao nível da gastronomia, ao nível do que são as formas de espiritualidade, de todo este território, tudo isso são elementos e eixos culturais. Nós dividimos em nove capítulos esses temas, o que é cultura. É tudo o que é tradição, memória, pedra, museu, biblioteca, pensamento, vida noturna, criadores individuais, o público e o privado. E as empresas? E a indústria cultural? Uma livraria é um agente cultural, sim ou não? Há pessoas que colocam esta questão. Para nós, neste momento, todos os agentes, individuais ou coletivos, públicos ou privados, que têm atividade em torno da cultura com um “C” grande, que são todas as práticas que definem a nossa identidade, integram este painel. Aquilo que virá a ser a candidatura em si, ou a programação da Rede, vai ser o que este painel definir. Esta rede de 1.500 agentes, estes encontros que começámos a ter este ano e que vão continuar, vai decidir o que deve ou não fazer parte. Nós temos é de oferecer a oportunidade a todas estas pessoas de refletirem sobre esta dinâmica, refletirem sobre o que somos, o que fazemos, onde é que estamos, como é que nos consideramos, para criar estas fronteiras, que nunca serão consensuais. O que distingue a “Cultura” é este lado que é simultaneamente coletivo, social, mas é também artístico, subjetivo e individual. A partir do momento em que temos olhares únicos, cada um de nós, sobre a realidade, o que é “Cultura” é sempre algo de compromisso entre estes agentes todos. Por exemplo, ponderámos bastante: a comunicação social, é um agente cultural ou não?

(risos) Depende do ponto de vista…

A comunicação social, na sua multiplicidade, é um elemento central ao pensamento crítico do cidadão. Se não é, do meu ponto de vista, deveria ser. Um elemento essencial à consciência coletiva do que somos. A comunicação social é, do meu ponto de vista, um elemento tão importante para a cultura que eu, desde os primeiros dias de trabalho neste grupo executivo, procurei juntar pessoas da comunicação social. Não só para os sensibilizar para a importância de haver jornalistas culturais – que é algo que tem vindo a desaparecer por completo a nível nacional e a nível europeu – mas para lhes dizer que até este momento consideramos a comunicação social um agente da cultura, integrado no capítulo do pensamento. As pessoas não lêem muitos livros, mas apesar de tudo lêem revistas, lêem jornais. Há pessoas que não vão à biblioteca, mas vão ao café ler. É a sua forma de contactar com o mundo. Nós descodificamos o mundo pela maneira como a comunicação social o descreve. Apesar das fake news todas e das redes sociais.

Isto é uma resposta longa à sua pergunta sobre o que é a “Cultura”. São todas as pessoas, individuais e coletivas, públicas e privadas, institucionais ou não institucionais, que contribuem pela sua atividade para a identidade do homem e da comunidade. É isto. Nuns casos muito próximo do conhecimento, noutros casos mais próximo da arte, noutros casos mais próximo da memória, noutros da natureza, da materialidade. Mas é toda esta plataforma. Temos esta interpretação mais ampla.

Falou que toda esta região é bastante diversa. O que é que estes concelhos do Médio Tejo podem trazer à programação da Rede Cultura 2027? Fátima por si, com toda a componente cultural religiosa, pode dominar facilmente o programa.

Fátima tem uma dimensão religiosa muito importante, mas também tem uma dimensão económica e turística muito mais importante que religiosa.

Como assim?

Porque Fátima tem meia dúzia de dias. Na história deste território, as práticas de espiritualidade e de religiosidade são muito anteriores à existência de Fátima. Santuários como o da Nazaré, dos Milagres ou da Senhora da Ortiga, são espaços de peregrinação e de circuitos de círios [romarias], de encontro e de relação que são muito anteriores a Fátima. Neste território todo, mesmo incluindo Médio Tejo, Oeste e Leiria, já existiam muito antes de Fátima circuitos de peregrinação, festividades e cultos, uns mais profanizados, outros mais religiosos. Fátima é um fenómeno bastante recente e integra uma rede mais ampla.

“Cultura” São todas as pessoas, individuais e coletivas, públicas e privadas, institucionais ou não institucionais, que contribuem pela sua atividade para a identidade do homem e da comunidade. Nuns casos muito próximo do conhecimento, noutros casos mais próximo da arte, noutros da memória, Da natureza, da materialidade.

Já nesse nível da diversidade, há um conjunto de temas que são recorrentes a todo este território de Leiria, Oeste e Médio Tejo. Se há uma temática que nos une é a floresta, a pedra e a água. Temáticas que não estão indexadas à história recente, em que as cidades são muito diferentes das aldeias, a população está assimetricamente distribuída e economicamente somos um território diferente. Se olharmos aos tempos pré-históricos vamos encontrar na pedra, só para dar o exemplo de ligação das três zonas, os dinossáurios, pedra e pegadas na Lourinhã, Lapedo e pré-história em Leiria e dinossáurios e pedras em Ourém e Torres Novas. Se andarmos historicamente e não olharmos para uma grelha temporal humana e muito estanque, vamos encontrar elementos comuns. Muita da água que bebemos em Leiria é filtrada do polje, vem da serra e chega aqui. Nós somos alimentados pela água filtrada pelo território do Médio Tejo, que é bebida por Leiria e o Oeste e alimenta o rio Lis. Não é importante que existam coisas em comum. Mas é importante que tenhamos consciência que se olharmos para a História com uma escala temporal de outra natureza vamos encontrar elementos mais fecundos e relações mais estreitas do que aquelas que vemos a olho nu. Há mais afinidades entre estes territórios do que possa parecer. Muitíssimo mais. As invasões francesas, por exemplo, são um marco de todo este território, nomeadamente do Médio Tejo. Não são apenas as linhas de Torres. Mas não queremos catalogar. Queremos propor novas formas de habitar este território e de nos encontrarmos uns com os outros.

Conhece bem o território e soube olhar para várias frentes: o lado social, económico, histórico, patrimonial, etc. Foi intuitivo ou é assim que se trabalha?

Eu diria que é assim que se trabalha (risos).

A minha questão prende-se ao facto de que poderia facilmente ter-se mantido naquela ideia estanque de que falávamos há pouco, da cultura erudita, e que era, suponho, o que muitos estariam à espera. Mas está a apresentar uma candidatura abrangente, que vai até muito além da dita cultura popular, com a qual, confesso, não estava a contar.

É essa reflexão que todos temos que fazer. Aqueles de nós que habitamos mais frequentemente o território, por exemplo, da tradição, temos de ousar dar uns passos para a criatividade mais contemporânea. Isto é tão difícil quanto aqueles de nós que habitamos os territórios da contemporaneidade darem passos no sentido do que é memória, história, tradição. Um dos eixos de trabalho desta candidatura é profissionalizar as áreas culturais. Isso não quer dizer que os agentes culturais não possam ser amadores, não é isso. Ter um olhar profissional sobre a cultura é poder ser amador na sua atividade cultural, mas ter em conta que há estas dimensões todas que está a referir. Que eu, ainda que seja um músico filarmónico – e portanto faço música tradicional, dita maioritariamente popular – contribuo para o PIB da minha freguesia. Eu sou um agente económico.

Esta caminhada vai produzir, acreditamos nós, um projeto que pode ser uma referência para a Europa

Por exemplo: no nosso país existem 800 bandas filarmónicas. Destas, pelo facto de ser considerada uma atividade amadora, não monetária, 95% não têm contas organizadas e a contabilidade é toda paralela. Mas nestas 800 bandas há seguramente 3 mil profissionais a tempo inteiro, há cerca de 250 mil pessoas que estão a promover o “FIB” deste país – a Felicidade Interna Bruta. Que cada vez vale mais dinheiro. E estes agentes amadores estão a contribuir para o bem-estar e para a economia deste território. Incluir a dimensão económica não é só pensar que se vendem quadros a milhões de euros. Falar da economia da cultura é perceber quanto é que se produz por cada um destes agentes económicos na globalidade deste território. Por isso é que é rica esta diversidade. Ganhamos todos.

Há 10 candidaturas nacionais a Capital Europeia da Cultura 2027. Como é que Leiria se vai distinguir?

Essa é a pergunta para um milhão de dólares. Até ao momento já se distingue numa coisa: é a primeira candidatura que não é só de uma cidade, é de uma rede de 26 cidades. Temos um manifesto assinado por 26 presidentes de Câmara, de cores políticas distintas, de tradições históricas distintas. Isto já em si é distintivo. Há outras candidaturas que têm parcerias com municípios ao lado, mas nenhuma como esta. Leiria foi também a primeira cidade a manifestar publicamente a vontade de concorrer e isso também conta. Esta caminhada vai produzir, acreditamos nós, um projeto que pode ser uma referência para a Europa.

Para a população ter alguma noção do que está aqui em causa: se a candidatura vencer, o que acontecerá exatamente na região daqui a oito anos?

O que vai acontecer é que neste ano em particular haverá um aumento muito significativo de atividades culturais. O que as pessoas individualmente vão sentir, na pele, no dia a dia, é que vai haver muita cultura na rua, muito mais do que houve até aqui. Este é o primeiro sinal. O segundo sinal, que vão sentir um pouco antes, é que vai haver algum investimento naquilo que são os espaços públicos onde a cultura pode acontecer. Se calhar os Museus vão renovar muitos dos seus espaços, e é possível que se vão construir alguns espaços. Mas o mais extraordinário não vai ocorrer em 2027. No caso concreto desta candidatura – que se chama Rede Cultura 2027 – é que vão iniciar-se, já este ano, e crescer imenso, as práticas culturais que promovem cruzamentos, intercâmbios e co-produções entre os agentes do território, que apesar de estar muito próximo não trabalha um com o outro. Na nossa fórmula de candidatura haverá uma experiência de pertencer a um território em que vamos ter na minha rua, na minha casa, no meu dia a dia, no meu adro, atividades culturais de pessoas que eu normalmente não vejo lá. Não são somente convidados que vêm da Europa, são pessoas que eu não conhecia até então.

se queremos ser uma referência para a Europa, não é fazendo neste território aquilo que a Europa fez há 50 anos. Isso eles já viveram. Nós temos é de nos reinventar, inventar novas formas de estarmos e criarmos uns com os outros

O que esperamos todos que aconteça é que na vida quotidiana de cada uma destas 800 mil pessoas as práticas culturais possam representar uma percentagem muito maior do que até aí. E o que são as práticas culturais? É a quantidade de livros que eu leio por ano, é a quantidade de tempo que eu passo a conversar e a ler com outras pessoas. A quantidade de exposições, de espetáculos, de passeios que eu faço, mas também de poemas que eu escrevo, de coisas que eu desenho. Essa experiência que eu faço vai ter em 2027 um ano de celebração. O que nós queremos não é o que na maior parte dos casos acontece, que é: há muita pouca coisa até 2027, depois há um aumento exponencial de produção e depois há uma perda abrupta de produção. Hoje discutimos muito aquilo que será o pós-2027. Ao olhar outras candidaturas, já percebemos que se não cuidarmos desde a génese o síndrome da ausência, esta abstinência de um ano muito intensivo, podemos ter uma congestão cultural. O que vai acontecer em 2027 é a celebração do que vai crescer em cada ano até chegarmos lá.

E terá retorno económico?

Isto tem muito retorno económico e não me refiro só a retorno financeiro. Há retorno financeiro porque há circulação de pessoas, há consumo, hotelaria, restauração, bilhetes, transportes. Há muito consumo. Mas não é esse o maior income económico. O que vai ter impacto económico é que as pessoas, por estarem melhores com elas, vão produzir mais e melhor. Esta abertura ao mundo, o facto de ser Capital Europeia, obriga-nos, disciplina-nos a sair do nosso universo pequeno. Muitos dos problemas que temos, ao nível da política e da economia, para dar um exemplo, têm origem num certo olhar pequeno, de merceeiro. A cultura é seguramente a forma mais imediata e mais fácil de nos dar elementos para discriminar questões básicas da vida, geradoras de melhor economia. Falamos muito neste FIB versus PIB. Se eu me sentir motivado, produzo de forma diferente. É essencialmente por aí que se muda a economia, não é só pelos turistas e pelas camas que se vendem.

Existe um pouco o preconceito que o público do Interior não é tão culto, ou que não se interessa por cultura. Teme esta questão ou ela não existe?

Essa é uma questão muitas vezes colocada por agentes culturais. Nós não podemos dizer que o público do Interior é menos culto que o público do litoral. Quando olhamos para as localidades de municípios mais do Interior, é normal que percebamos que os agentes culturais não são da mesma natureza que os agentes culturais duma cidade. Também é verdade que quando fazem a sua autodefinição – por erro nosso, do sistema educativo, por erro nosso, da sociedade que ajudámos a criar – existe um preconceito que a arte é um indicador majorativo em relação à arte popular. Portanto, numa sociedade que tenha mais agentes e consumidores de arte erudita tem nisto um indicador de evolução. Esta é uma questão que se discute hoje. Os municípios do interior não são só os do Médio Tejo ou de Leiria. Não, também temos o Interior a sul, no Oeste. O que acontece é que as práticas culturais das pessoas que habitam os territórios do Interior são distintas das práticas culturais das pessoas que habitam um território mais urbano e mais de Litoral. Não devemos com isto esconder ou desculpar de alguma forma alguma assimetria de desinvestimento num ou outro território. Isso existe. Mas a grande diferença entre o Interior e o Litoral, vamos agora definir assim, não é na cultura que se nota. O grande indicador que na verdade distingue Interior de Litoral são os municípios onde nascem menos pessoas, onde menos pessoas querem viver e onde menos pessoas procuram trabalho. Esta é a discriminação. Não é verdade que as experiências culturais da cidade de Leiria ofereçam mais que as experiências populares de uma freguesia como Caxarias (Ourém). Estamos é a falar de olhares diferentes perante o que é cultura. Isto é uma revelação para muitos agentes culturais, infelizmente, que sabem que fazem cultura mas não a sua real importância. Temos que investir mais em contemporaneidade, mas isso é um défice rural e urbano. Se queremos ser uma referência para a Europa, não é fazendo neste território aquilo que a Europa fez há 50 anos. Isso eles já viveram. Nós temos é de nos reinventar, inventar novas formas de estarmos e criarmos uns com os outros, que não precisem de ter uma orquestra sinfónica, ou um teatro de ópera, ou uma biblioteca com 300 mil volumes. Devemos pensar no que queremos. Queremos que se possa refletir sobre o que é importante para cada um de nós.

O que se está aqui a desenvolver é, afinal, também um trabalho de pedagogia.

É um trabalho de cidadania, de crescimento. E é esse o papel da cultura.

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