Legislativas | Santarém em ‘crise de identidade’ procura lugar no mapa das regiões

O Tejo visto das Portas do Sol, em Santarém.

*Por Maria de Lurdes Lopes, da Agência Lusa

O distrito de Santarém prepara-se para eleger os seus representantes na Assembleia da República, em 06 de outubro, em plena ‘crise de identidade’ e sem uma posição política clara quanto à sua futura forma administrativa.

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‘Encravado’ entre Lisboa, o Alentejo e o Centro (é o único distrito do país sem ligação ao mar nem a Espanha), e a divisão para obtenção dos fundos comunitários – primeiro com a criação das sub-regiões do Médio Tejo e da Lezíria do Tejo, em 1986, e depois, em 2003, com a integração da primeira na região Centro e da segunda no Alentejo (retirando ambas da região de Lisboa e Vale do Tejo para fins estatísticos) –, Santarém foi escavando uma clivagem acentuada com o fim dos governos civis, em 2011.

O reconhecimento de que a viragem do Médio Tejo para o Centro e da Lezíria para o Alentejo os colocou ‘de costas voltadas’, deixando de haver uma visão integrada para o distrito, tem trazido ciclicamente à discussão a proposta de criação de uma região Ribatejo e Oeste, juntando as três NUTS (Nomenclatura de Unidades Territoriais para fins estatísticos) de nível 3 numa única de nível 2.

O processo daria origem a uma nova comissão de coordenação e desenvolvimento regional (CCDR), que se juntaria às cinco já existentes no continente (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve).

A criação da nova NUTS II do Ribatejo e Oeste foi sugerida pela primeira vez em 1998, num memorando elaborado pelos investigadores João Ferrão, Nuno Vitorino e Raul Lopes, e, mais recentemente, no contributo conjunto das distritais do PSD e do PS para a Comissão Independente para a Descentralização.

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A ideia chegou a ser assumida pelo atual Governo, mas a proposta não foi feita a Bruxelas, com os responsáveis das três comunidades intermunicipais da Lezíria (CIMLT), Médio Tejo (CIMT) e Oeste (OesteCIM) a aceitarem que o assunto passe para o executivo que sair das eleições de outubro.

Ouvidos pela Lusa, Pedro Ribeiro (presidente da CIMLT), Anabela Freitas (CIMT) e Pedro Folgado (OesteCIM) admitiram que, a avançar a regionalização, possa existir uma solução diferente, não descartando a integração em definitivo do Oeste e do Médio Tejo na CCDR Centro e da Lezíria na CCDR Alentejo, com os concelhos nas fronteiras a poderem escolher a qual pertencer.

A condição é que, de uma vez por todas, acabe a “balbúrdia” atual, em que a ligação se faz a Lisboa em matéria de planeamento, a Coimbra ou a Évora para obtenção de fundos comunitários, mantendo-se ainda a figura administrativa do distrito na definição dos círculos eleitorais ou para áreas da competência da administração central, como saúde, educação e justiça, salientaram.

A ideia de consolidação da separação desagrada aos dinamizadores do Fórum Ribatejo, um grupo de reflexão que tem vindo a insistir na necessidade de preservar a identidade da região, defendendo, no limite, que, seja onde for, o que é ainda o distrito de Santarém se mantenha junto.

António Matias Coelho, historiador e um dos dinamizadores do Fórum Ribatejo, referiu à Lusa as especificidades de uma região “feita de migrantes” – que foram chegando de outros pontos do país para trabalhar nos campos ou no rio – e ela própria “migrante” – dada a história da formação do que ainda hoje é designado por Ribatejo, com origens no século XIII na margem esquerda do Tejo, a sul, deslocando-se para norte até procurar afirmar Santarém como capital no século XIX.

Neste território, “um vale aberto, de comunicação fácil”, que é “de chegar e partir mais do que de ficar”, os ícones criados pela propaganda do Estado Novo (toiros, cavalos, campinos e fandango), para dar expressão à região criada em 1936, enraizaram-se, originando um “sentimento de ser ribatejano”, que o historiador reconhece não ser igual nos 21 concelhos do distrito.

Matias Coelho usa uma imagem simbólica, a do marco que existe junto ao portão da Quinta da Cardiga, na Golegã, separando este concelho do de Vila Nova da Barquinha, uma extrema que a necessidade de manter o acesso aos fundos comunitários transformou numa “fronteira”.

“Os senhores que mandam nisto resolveram transformar aquilo numa fronteira entre a Lezíria do Tejo e o Médio Tejo, ou melhor, entre o Alentejo e o Centro, [mas] nem a Golegã é Alentejo, nem a Barquinha é Centro nenhum. Ambas são ribatejanas”, salientou.

Porém, reconheceu, na prática, no dia a dia, a Barquinha tem de se virar para Coimbra e a Golegã tem de se virar para Évora.

“Isto é muito mau, porque é assim que o que ainda existe de sentimento ribatejano se vai esboroando. As pessoas estão de costas umas para as outras, não se concertam, não procuram estratégias em comum e, a pouco e pouco, tudo começa a funcionar numa outra lógica, com uma outra centralidade e no meio disto tudo Santarém desapareceu completamente”, disse.

Segundo o historiador, “o que os ribatejanos do século XIX sonharam, fazer de Santarém a centralidade de uma grande região, desapareceu”.

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