“Lampreia”, por Armando Fernandes

Todos os anos nesta altura escrevo sobre este fóssil com mais de 200 milhões de anos. Porquê? Porque a guerreira lampreia no período quaresmal é um manjar esquisito como lhe chamei num livro a ela dedicado que publiquei há anos.

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Nesse livro trago à colação variados e inúmeros episódios onde desde a Antiguidade «sacrificados» apreciadores andam centenas de quilómetros só porque em determinada localidade uma Mestra cozinheira a prepara de modo sublime numa das muitas versões embora por estas redondezas a supremacia vai para o arroz recebendo-a em toras e às vezes com as saborosas ovas. Na época romana os nababos podiam dar-se ao luxo de percorrer montes e vales em busca de lampreias apanhadas nos rios e lagos, não por acaso Barolomeo Scapi na sua Obra dá a conhecer receitas da lampreia fluvial.

Aprecio-a nas sete cozeduras, cozida com batatas e molho verde, em feijoada bem apurada, ao modo de Bordéus (guisada num molho espesso, servida com arroz branco, torradas e o dito molho), fumada à moda de Monção, assada no espeto, em fricassé, frita e posteriormente envolvida por um molho de escabeche, além de cozida ao vapor e servida na companhia de cogumelos, aspergida por gotas de vinagre de vinho generoso, estufada e acolitada a preceito, ou seja: puré de grão-de-bico e torradas barradas com pasta de azeitonas.

Podia acrescentar outras fórmulas culinárias, não o faço porque muito custosas duplamente – tempo e dinheiro – além disso julgo que as enunciadas são suficientes para os homens talentosos e as Mestras que sabem onde estão os condimentos, caçarolas e outros utensílios ficam de posse de sugestões capazes de preencherem vários dias até ao fim da época, o mês de Abril.

Sim, muito boa gente que não de bom gosto come lampreia durante todo o ano, existe um restaurante nas redondezas especialista nessa matéria, só que, sazonalidade é sazonalidade, aquela boa pitança requer temperaturas frias ou moderadas, chuviscos e nevoeiros, acima de tudo exímia confecção e apetite. A estação está no início. A ela. À lampreia!

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Um tinto lampreireiro

Em matéria de gostos nada está escrito afirmavam os romanos, passados milénio muito se tem escrito e vai continuar a escrever acerca do de aquele e aqueloutro, por isso o amarelo é cor tão interessante quanto outras, do mesmo modo a lampreia nas diversas preparações culinárias tem dogmáticos a defenderem o vinho xis, ao mesmo tempo os pragmáticos asseveram que a conhecida lampreia que pela quantidade existente no rio Tejo deu o nome a uma povoação ribeirinha afirmam que tanto bebem tranquilos ou intranquilos desde que sejam bons.

Sendo assim e é, permito-me sugerir aos leitores a escolha do vinho denso, granadino, elegante na sua fortaleza, MYTHOS de 2015, produzido e engarrafado no Casal da Coelheira – Tramagal, da lavra do enólogo Nuno Falcão Rodrigues. Se a lampreia requer vinhos de carácter vincado, o MYTHOS é um desses vinhos capazes de obrigarem o conviva a também ter de dedicar-lhe palavras elogiosas não as reservando apenas para o ciclóstomo.

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