“Ladrão de memórias”, por Berta Silva Lopes

Avô Tomás (Tomás da Silva) | Foto: Berta Silva Lopes

Abraços espontâneos, beijos desirmanados, cafunés ou demonstrações de carinho avulso sem grande razão de ser: nada disso fazia parte da linguagem dos afetos dos meus avós, ambos criados em tempos de parcos recursos e mimo doseado. Todavia, havia tempo.

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Em casa dos meus avós nunca havia pressa. Eram longos os serões à lareira, ao redor do fogo de chão, tal como eram, então, infinitos os invernos na aldeia e infinitas as memórias do avô Tomás. A ceifa no Alentejo, a safra da azeitona, a tropa, tudo parecia épico no colo dele.

O meu avô não dava beijos, mas dava colo e abraços, e contava-nos, aos netos, histórias reais e inventadas, das suas memórias e imaginação, entoava adivinhas e lengalengas, cantorias e desgarradas.

Enquanto a minha avó fritava pequenos bolos farinheiros e os netos puxavam do espeto as febrinhas temperadas em vinha d’alhos acabadas de grelhar, o meu avô desfiava histórias de encantar, fábulas, lembranças antigas. E escutava-nos, ouvia os relatos das brincadeiras, queria saber como corria a escola, como estavam as aprendizagens, se respeitávamos a professora.

Era um colo exigente, o do meu avô, mas sem o peso da crítica. Disciplinador, mas também repleto de ternura e compreensão. No seu colo dissipavam-se todas as disputas entre primos, todas as brigas entre irmãos, todas as angústias do mundo.

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Foi com ele que aprendemos a escutar as palavras que não precisam ser ditas, a ler o vigor de um olhar, a reconhecer a força do exemplo. O colo do meu avô foi porto seguro, refúgio e aconchego até há pouco tempo, mesmo sem beijos. Depois, passou a família a dar-lhe colo, filhos e netos-soldados a lutar contra o ladrão de memórias, a resgatar histórias que lhe devolvessem um sorriso, o brilho no olhar, a alma.

Nessa altura, porém, o meu avô Tomás já era apenas corpo. A doença de Alzheimer levara-lhe tudo o resto, num assalto violento e desolador, erguendo entre ele e o mundo uma barreira intransponível.

Quando o meu avô partiu definitivamente, no velório e no funeral, eu quis dizer-lhe que essa parede tinha sido finalmente derrubada. Acreditei que naquela altura ele já estaria de novo a ouvir-nos e que mais uma vez tinha tempo para me escutar. Aprisionámos o ladrão, avô. A partir de agora, prometo-lhe, só as boas lembranças voarão livremente.

Nós a brincar no pátio, a alimentar os porcos, as cabras e a mula, a correr atrás das galinhas no quintal, a dar milho às rolas. Nós a raspar a massa do alguidar e a lamber a colher, a fazer bolos e tigeladas, a cozer pão, a apanhar morangos na horta, a descascar romãs, a apanhar pinhas.

Na despedida, quis fazer ao meu avô a homenagem merecida, recordar as suas histórias, revisitar o seu passado, dizer-lhe que as memórias de família são como as paredes de pedra que ele ergueu toda a vida: fortes, retas, impossíveis de mover. Fiz um rascunho na cabeça, não falar da doença, nem da morte, só da vida, mas da boca não me saiu uma palavra, faltou-me a coragem. Até hoje.

Estamos sempre a tempo de emendar o passado.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada , Berta! Não conheci os meus avós homens, mas a minha avó materna , que foi quem me ensinou a ler e escrever, coser botões e fazer bainhas, fazer tricot e tantas outras coisas, merecia que eu soubesse escrever-lhe uma homenagem assim. Infelizmente não tenho o seu dom, mas espero que ela saiba o que sinto.

    • Saberá sim, não tenho dúvidas. Os avós sabem coisas fantásticas, deve ser porque têm um dedo que adivinha. É também por isso que são tão especiais. Um grande beijinho para si, avó Margarida. <3 E obrigada por continuar desse lado.

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