“Julen”, por Vasco Damas

Foto: DR

A página está em branco e não tenho vontade de começar a escrever. Com emoção, recordo o pequeno Julen e imagino a dor dos seus pais. Não sei se a minha sensibilidade aumenta pelo facto de ter uma filha quase da mesma idade mas sei que nunca entenderei a morte e que não a entenderei de todo quando se trata de crianças. Ainda por cima uma morte assim, estúpida e sem explicação nem justificação.

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Obviamente que não o conhecia, mas esta tragédia mexeu comigo desde o primeiro dia. Confesso que cheguei a acreditar num milagre. Acreditei mesmo que quando chegassem ao fundo do buraco onde o pequeno Julen tinha caído, concluíssem com estupefação que afinal ele não estava lá e que fossem depois surpreendidos com a sua correria sorridente típica de menino de dois anos que apareceria sem se saber bem de onde. Agora que penso nisto percebo que foi o meu subconsciente a querer transformar esta tragédia numa espécie de conto de fadas com os seus habituais finais felizes.

Mas a vida está longe de ser um conto de fadas e a curta vida do pequeno Julen não teve um final feliz e ele acabou por ser vítima dos adultos que viviam à sua volta e que, negligentemente, o “empurraram” para um poço sem regresso.

Apesar do dramatismo e da tragédia, é o mediatismo que torna este caso, um caso diferente de tantos outros iguais que ocorrem diariamente porque, em bom rigor, todos os dias “tombam” noutros buracos da vida em várias latitudes deste mundo mais “Julen’s” do que seria suposto e definitivamente muitos mais do que devíamos aceitar.

O anonimato destas crianças ajuda a diminuir o peso da nossa consciência coletiva, mas apesar de as desconhecermos, elas têm rosto e nome. E certamente também têm sentimentos, e à semelhança dos primeiros pensamentos do pequeno Julen depois de ter caído no buraco que acabou por lhe ceifar a vida, deverão sentir-se abandonadas por quem as devia proteger, mas ao contrário de Julen que foi “condenado” pela negligência daqueles que lhe eram mais próximos, a maioria destas “outras crianças” tem sido condenada pelo dolo anónimo em forma de egoísmo e de maldade de uma humanidade cada vez mais desumana.

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É legítimo chorarmos pelo pequeno Julen mas não podemos usar essas lágrimas para “lavar” a nossa consciência e apagar todos os nomes das outras crianças que “deixamos” morrer todos os dias. A bem da coerência, pela defesa da vida e pelo resgate da nossa humanidade.

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