“Jogo do Quartão: o Entrudo à solta nas ruas da Chamusca”, por António Matias Coelho

Foto: Município da Chamusca

Este texto foi escrito há mais de trinta anos, em 1986. Integrava uma publicação com o título Carnaval (algumas notas) que então produzi e a Câmara Municipal editou (e depois reeditou em 1990), no contexto da revitalização das velhas manifestações carnavalescas chamusquenses: o Almoço do Grelo, o Jogo do Quartão e o Enterro do Galo.

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Um terço de século passado, o mundo mudou muito e o Carnaval também: já (quase) não há tascas nem tabernas e os quartões, que então iam às costas, são agora transportados numa carrinha. Mas a tradição mantém-se, mais viva do que nunca, e o espírito é o mesmo de sempre: virar a vila do avesso em Quarta-feira de Cinzas, antes de definitivamente se enterrar o Entrudo.

Trata-se de uma antiga tradição da Chamusca, cujas origens a memória coletiva já não alcança mas que todos os anos se repete, cumprindo um ritual que os mais novos vão aprendendo com os mais velhos e que a vila presencia com curiosidade e agrado.

O Jogo do Quartão é um jogo exclusivamente masculino, que envolve um grupo de uns quinze homens, constituído sobretudo por operários mas que integra também funcionários e trabalhadores rurais. Todos os anos, em Quarta-feira de Cinzas, quando o Carnaval já passou para todos os outros, eles juntam-se para um almoço de confraternização. O Almoço do Grelo, como é designado o repasto, é apenas o ponto de partida para uma longa jornada de animação que durará enquanto as pernas suportarem o peso dos corpos cansados e conseguirem manter a verticalidade várias vezes posta à prova ao longo do dia.

A designação Almoço do Grelo deriva da ementa que é invariavelmente a mesma: grelos com batatas, bacalhau e ovos cozidos, com vinho a acompanhar. A refeição, cujos custos são divididos em partes iguais pelos elementos do grupo, decorre na sede de uma das coletividades da vila e é confecionada por dois ou três homens do grupo que mais se ajeitam para as coisas da cozinha.

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À roda da mesa, enquanto se comem os grelos, as conversas giram em torno do Carnaval que oficialmente terminou na véspera, das partidas que se pregaram, dos figurões que se fizeram, dos castiços mais notados. Entre o bacalhau e os ovos, entre os grelos e as batatas, vai-se bebericando dos garrafões de que o grupo se muniu. Quando são duas da tarde, já toda a gente tem o estômago aconchegado, deu largas ao prazer de estar com os amigos, pôs em ordem os assuntos de conversa e regou-se quanto baste para garantir a animação de uma tarde que está apenas no princípio.

Acabado o Almoço do Grelo, o grupo sai então para a rua para o Jogo do Quartão. Dois rapazes, de quinze a dezoito anos, transportam dezenas de cântaros de barro enfiados em canas. São moços que ainda não jogam mas que desempenham um papel importante: são eles os responsáveis por manter intactos os cântaros que vão fornecendo aos restantes elementos do grupo, enquanto se desenrola o jogo. São eles também que, cumprindo um rito iniciático, representam o sangue novo que garantirá a continuação da tradição nos carnavais do futuro.

Os quartões para o jogo | Foto: Município da Chamusca

O grupo sai à rua para uma volta quase completa à vila através das principais artérias e tendo como ponto de paragem as tabernas, as adegas e outros estabelecimentos afins. Na primeira tasca que encontram, os homens param e dispõem-se em roda larga. Um deles lança o cântaro na direção de um qualquer dos outros que tudo faz para o não deixar cair. Se o conseguir, atira-o para que outro tente igual façanha. O cântaro gira no ar, cruzando a roda do grupo. Até que acaba por cair no chão, transformando-se num monte de cacos. O responsável pelo estrago, aquele que deixou cair o quartão, tem então de cumprir o que estabelece o regulamento: pagar uma rodada de copos de vinho, na tasca em frente, a todos os restantes. Cumprida a penitência, o grupo segue então para a tasca seguinte, onde o jogo continua.

O dono da taberna entra também na brincadeira. É claro que não consegue escapar-se a assumir a responsabilidade pelo escaqueirar de um cântaro e a pagar a correspondente rodada – o que faz naturalmente com agrado. Do mesmo modo, nas malhas do jogo caem também outros homens estranhos ao grupo que calhem a passar perto do local onde se joga o quartão. Incitado a entrar na roda, é certo e sabido que um cântaro voará desajeitadamente na sua direção e que, no minuto seguinte, toda a gente bebe mais um copo à custa do convidado. Estão neste caso as figuras mais conhecidas da terra, não escapando, por exemplo, o presidente da Câmara, quando não mesmo o prior.

O jogo toma conta da vila. Há como que uma apropriação do espaço urbano por um grupo que é portador de uma legislação muito própria e que reina durante umas horas, cirandando de taberna em taberna – que ainda são, afinal, os principais pontos de encontro de boa parte da população masculina da vila.

De rua em rua, o percurso leva os jogadores do quartão à sede da coletividade onde o jogo tinha tido início horas antes. Há um percurso circular, envolvendo a vila, que acaba onde começou, como que fechando um ciclo. Pelo caminho, a roda faz-se e desfaz-se umas doze ou quinze vezes, à frente de outros tantos sítios onde há vinho para encher os copos. Épocas houve em que as paragens eram mais de trinta, antes de muitas tascas terem fechado as suas portas, vergadas às mudanças do tempo.

Hoje o jogo, apesar de contar com alguns jovens, é sobretudo obra de homens feitos, que recordam com prazer os tempos em que, ainda frescos e namoradeiros, armavam também a roda em frente da janela de uma moça bonita que agradasse aos olhos de algum dos rapazes do grupo. Aí, o pretendente transformava-se durante uns instantes na figura principal, exibindo à cachopa, que acorria à janela, os seus dotes de valentão. Casamentos houve que partiram de namoricos engendrados nesta dança dos cântaros de barro.

Agora as mulheres já não entram no jogo. Mas há quem admita, numa versão não confirmada mas perfeitamente verosímil, que foram elas que começaram a tradição, sabe-se lá há quanto tempo… Diz-se que há muitos anos era costume as mulheres irem reunindo, ao longo de todo o ano, os cântaros e os vasos rachados ou com defeitos que descobriam no quintal e que, em Quarta-feira de Cinzas, atiravam umas às outras, desfazendo tudo em mil pedacinhos de barro. Parece ser uma hipótese plausível, se se considerar que o Carnaval é uma época de fim de ciclo e de começo de um outro, na qual se procura uma nova ordem para as coisas e se desfaz tudo o que é considerado velho, defeituoso e desprezível. É um gesto simbólico que tem o significado de limpar a vida do indesejável, de deitar fora os restos de um tempo ido e de dar início a uma nova etapa da existência.

Valeu a pena o esforço de revitalização dos anos ’80! | Foto: Município da Chamusca

Na sua versão atual, exclusivamente masculina e desenrolada em plena rua, o Jogo do Quartão vem de tão longe quanto a memória consegue recordar. E vai certamente perdurar, porque se trata de uma manifestação cultural cheia de significado e que contribui para consolidar os laços de amizade e de solidariedade que unem os homens que o jogam e a terra onde nasceram e vivem.

Apesar de se esvaziarem muitos copos, tudo se desenrola na maior ordem e civismo, dentro da desordem que uma manifestação deste tipo naturalmente envolve. O Jogo do Quartão é sempre um acontecimento divertido que a vila aceita e assume.

Ao pôr-do-sol, impreterivelmente, o jogo está terminado, toda a gente bem-disposta e bem regada – e as ruas cheias de cacos… Mas o grupo não se desfaz com o anoitecer: pela frente tem ainda a responsabilidade de garantir a organização e a realização do Enterro do Galo, lá para a meia-noite, numa ansiada paragem do baile que decorre numa ou mais das coletividades da vila.

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