Investigação | Herdade de Cadouços desvaloriza três milhões nas mãos do Novo Banco

A Herdade de Cadouços permanece fechada desde 2013. Foto: Paulo Jorge de Sousa

*Com fotografias de Paulo Jorge de Sousa

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Foi um dos empreendimentos turísticos mais badalados da região mas hoje a Herdade de Cadouços, em Abrantes, está irreconhecível. Depois da insolvência da empresa que detinha a propriedade, caiu nas mãos do Banco Espírito Santo, sendo depois integrada no Fungere, Fundo do Novo Banco para a gestão de imobiliário. A vinha deixou de ser cuidada, dezenas de sobreiros do extenso montado foram abatidos, os famosos “ninhos de amor”, bungalows erguidos no meio de lagos, transformaram-se num amontoado de madeira podre, ferrugem e más memórias. Ao mediotejo.net os responsáveis negam “qualquer abandono”, mas a propriedade desvalorizou mais de três milhões de euros em cinco anos, estando agora à venda por menos de metade do seu valor inicial.

No passado foi um empreendimento de enoturismo com quatro estrelas, implementado em cerca de 600 hectares de terra, enfeitado por palmeiras, árvores de fruto, oliveiras e sobreiros, um casario em tons de branco, amarelo e azul, capela, restaurante preparado para receber 300 pessoas sentadas, hotel, três ilhas onde foram construídos bungalows de madeira aos quais chamaram “ninhos de amor”, lugar de feiras medievais, uma herdade com 52 hectares de uma vinha considerada “magnífica”, produtora de vinhos premiados.

A propriedade recebia feiras medievais muito apreciadas pelo público. Fotos: DR

A Herdade de Cadouços, em Água Travessa, Abrantes, uma propriedade que em tempos pertenceu à família Soares Mendes, era o projeto de vida de Juvenal Ferreira da Silva e da mulher, Ana Cristina Ventura. Juvenal foi proprietário da Herdade e da empresa Granotec – Importação e Exportação de Granulados Técnicos de Cortiça S. A. que deu lugar em 2007 à Juvenal Ferreira da Silva S.A., uma empresa de cortiça em processo de liquidação por insolvência. O Novo Banco recebeu esta herança, atualmente incapaz de espelhar o dinamismo de há uma década.

Herdade de Cadouços, 2019. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Na realidade, quem estiver interessado na compra da propriedade do Novo Banco Imóveis, à venda por 5.772.500,00 euros, e a visite como potencial comprador, encontra um território que parece habitado por fantasmas, parado no tempo. Como um cenário de uma história de desencantar, sem belas adormecidas, que cristalizou.

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A casa da Herdade ficou suspensa no tempo, a aguardar novos hóspedes. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Quem ali entra encontra ainda vestígios da azáfama de um empreendimento que recebia milionários e celebridades. O amplo salão, onde funcionou um lagar de azeite, mantém nas paredes as fotografias de eventos e recortes de notícias publicadas na comunicação social. As grinaldas de uvas, agora apodrecidas, ainda ornamentam o auditório onde eram apresentados os vinhos. Não fossem as flores secas, o pó e as teias de aranha, diríamos que na véspera a Herdade ainda teria recebido hóspedes. Há casacos que ficaram pendurados no restaurante, garrafas meio cheias abandonadas à sua sorte, copos que nunca foram recolhidos. Em cima de uma mesa, um jogo de xadrez que ficou a meio.

Não fossem as flores secas, o pó e as teias de aranha, diríamos que na véspera a Herdade ainda teria recebido hóspedes. Há casacos que ficaram pendurados no restaurante, garrafas meio cheias abandonadas à sua sorte, copos que nunca foram recolhidos.

Do lado de fora, a grandeza da Herdade não se vê. Um extenso muro esconde a propriedade. Atravessando o portão, a vasta alameda debruada com palmeiras continua aparentemente igual. As casas, antigos lagares de azeite e cavalarias reconvertidas há mais de uma década, estendem-se em redor dessa avenida. 
A receção ainda permanece no primeiro edifício à esquerda do portão.

Mais acima, a vinha é uma sombra do que foi. Ali se plantaram 52 hectares com 11 castas exclusivamente tintas, em modo de produção biológica, “por serem mais aromáticos e com sabores mais naturais”, como explicava Ana Cristina Ventura a vários órgãos de comunicação social, em 2009, quando o complexo turístico estava no seu auge. Barack Obama era presidente dos Estados Unidos da América, servindo de inspiração ao vinho “Yes We Can”, com a marca Cadouços.

A vinha como era em 2015 e quando foi notícia pela sua qualidade excepcional. Fotos: DR

O mediotejo.net tentou obter declarações da antiga proprietária mas esta recusou prestar esclarecimentos, reencaminhando o pedido de qualquer informação para os atuais proprietários. E quem são eles?

A Herdade de Cadouços pertence hoje ao Novo Banco, especificamente ao Fungere – Fundo de Gestão de Património Imobiliário, um fundo que se destina à aquisição de bens imóveis com vista à concretização de projetos de investimento de reestruturação, racionalização ou conversão financeira. Por sua vez, a administração, gestão e representação do Fundo cabem à GNB – Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Imobiliário, S.A.. A entidade gestora encontra-se integrada na Holding GNB – Gestão de Ativos, SGPS, S.A. Ora, a GNB – Gestão de Ativos, SGPS, S.A., é detida a 100% pelo Novo Banco S.A., o “banco bom” que resultou da estrondosa queda do Banco Espírito Santo (BES), de Ricardo Salgado.

Apesar do Fungere se afirmar “empenhado em maximizar o valor da propriedade, restituindo-lhe a dignidade e o potencial que já teve”, dizendo ser vontade do Fundo “criar um ativo sólido, de grande interesse agrícola e turístico, capaz de captar os melhores investidores”, e acreditando estar no caminho mais adequado para que tal aconteça, a verdade é que desde que o Novo Banco adquiriu a Herdade de Cadouços, em 2013, a propriedade não parou de desvalorizar.

No momento da aquisição, segundo os números apresentados no relatório de contas do Fungere, a herdade, que chegou a valer oito milhões de euros, apresentava um valor (contabilístico) de 6.815.079,00 euros, a 31 de dezembro de 2013, e dois anos depois apresentava um valor (venal) de 5.347.001,00 euros. Atualmente, segundo o último relatório de contas do Fungere disponível, de dezembro de 2018, a Herdade de Cadouços apresenta um valor (contabilístico) de 3.013.330,00 euros.

A herdade de Cadouços começou por estar à venda por 8 milhões de euros e hoje está avaliada em apenas 3 milhões

Tal como se pode ler nos anúncios de venda, esta herdade, situada a 160 quilómetros de Lisboa e a 30 quilómetros da cidade de Abrantes, tem uma área de terreno rústico de 487,9 hectares e 4.080 m2 de área bruta de construção. Possui 8 albufeiras emolduradas por montados de sobro e, no ponto mais alto da propriedade, localiza-se a Capela em honra da Senhora dos Caminhantes.

A Herdade possui uma bonita capela. Foto: Paulo Jorge de Sousa

“O ambiente distinto de um antigo lagar de azeite com uma prensa é a porta de entrada para a Herdade de Cadouços. Decorado com elementos de cariz cultural dos costumes e tradições da região. Dispõe de um court de ténis, duas piscinas, circuito de manutenção, parque infantil, um campo de futebol e adega. A Herdade é composta por: ‘Casa-Mãe’, ‘Casa do Monte I’, ‘Casa do Monte II’, ‘Casa dos Arcos’, ‘Casa dos Caseiros’, receção e espaço multifuncional, lavandaria, auditório e restaurante, com um total 42 quartos”. E fica-se informado sobre a componente rústica da propriedade “como ocupação cultural predominante o montado de sobro (189 hectares), olival (18 hectares) e pomar misto (15 hectares). A restante área é ocupada por pastagem natural (143,9 hectares) e área urbana (70 hectares). A atual ocupação cultural da Herdade de Cadouços passa por 31 hectares de pinhal bravo, 3 hectares de olival, 227 hectares de sobreiral adulto e 72 hectares de plantação de sobreiros novos. Terreno nu, 36 hectares que já teve plantação de eucaliptos, barragens, charcos, e lagos”.

O potencial interessado é ainda informado sobre a tiragem de cortiça em 2017: “2.991 arrobas de cortiça amadia, 295 arrobas de cortiça em bocados, 205 arrobas de cortiça virgem” e de 2018: “245 arrobas de cortiça amadia, 76 arrobas de cortiça em bocados, 42 arrobas de cortiça virgem”. Segundo anunciam a expectativa de produção para 2020 situa-se entre “as 6 a 7 mil arrobas de cortiça amadia do sobreiral adulto e 400 arrobas de cortiça virgem do sobreiral novo”. Em 2017, a cortiça amadia foi vendida a 38,25 euros a arroba à Amorim Florestal, SA.

A propriedade tem vários lagos artificiais. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Do auge à decadência

“Quando a propriedade entrou na posse do Fungere, o estado de degradação era já bastante elevado, o que obrigou a intervenções profundas que, pela sua natureza, se tornaram morosas”, justificam ao nosso jornal os responsáveis do Fundo, negando ter deixado a propriedade propositadamente ao abandono.

“Não podendo o Fungere fazer exploração comercial da propriedade, por força da legislação, o objetivo prioritário nestes últimos anos tem sido o de potenciar ao máximo o imóvel, restituindo assim o seu verdadeiro valor. Nesse sentido, o Fungere tem feito diversas intervenções, o que se tem consubstanciado em várias reparações imprescindíveis de estruturas existentes, adequação e reequilíbrio da flora existente e obtenção de licenciamentos específicos. Neste momento, com as licenças adequadas já obtidas da parte das entidades competentes, acreditamos que estamos no caminho certo para a máxima valorização deste ativo”, garante a entidade gestora.

Que tipo de licenciamentos? Não é especificado mas o mediotejo.net sabe que foi de novo solicitada a emissão de licença turística à Câmara Municipal de Abrantes, e que a empresa Navigator esteve na herdade a recolher amostras de terreno no sentido de avaliar a sua potencialidade para a plantação de eucaliptos, designadamente nos 52 hectares de vinha.

Neste momento os silvados reinam nesse terreno, e as videiras outrora verdejantes estão agora completamente secas, ao abandono.

Os 52 hectares de vinha em modo de produção biológico secaram, apesar do sistema de rega gota a gota de última geração que a Herdade tinha instalado. Fotos: mediotejo.net

No entanto, Manuel Leal da Costa, engenheiro agrónomo, e responsável agrícola da Herdade garantiu ao nosso jornal que a vinha não é um ativo viável. “Em 2013, quando chegou às nossas mãos, a vinha já estava morta. Não biologicamente, mas do ponto de vista produtivo”, garante.

Sem querer comentar o processo, remetendo as devidas explicações para o Fungere, insistiu apenas não haver nada a esconder. “Não há nada de ilegal, nunca praticámos nenhuma incorreção, temos tudo registado, e as instruções que recebo são do Novo Banco”.

Alguns dos vinhos com a marca Cadouços. Foto: DR

É difícil para quem percorre hoje a Herdade de Cadouços perceber o movimento turístico de outrora, a rentabilidade do montado de sobro no passado e da vinha que produziu vinhos classificados entre os seis melhores do mundo. Sobre a possibilidade de recuperar o investimento turístico anteriormente implementado na Herdade, o Fungere assegura que “está a ser equacionado tudo o que possa potenciar ao máximo o potencial e o valor da herdade. Para isso, requereu todas as licenças necessárias para exploração comercial futura, licenças essas que foram já obtidas recentemente. As licenças requeridas são abrangentes e, como tal, abrem um leque de possibilidades”, atesta.

Em março de 2017, a Herdade de Cadouços, que funcionou até 2013 como unidade de turismo rural de 4 estrelas, foi alvo de cassação e apreensão dos Alvarás de Utilização para fins turísticos e como espaço dedicado a restauração e bebidas pela Câmara Municipal de Abrantes, após o Turismo de Portugal notificar a autarquia sobre a caducidade do título de abertura do empreendimento turístico.

Os principais clientes chegavam à Herdade provenientes do grande Porto e da grande Lisboa mas também de Espanha, França, Inglaterra, sendo a Herdade reconhecida no Guia Michelin como espaço de turismo de qualidade.

A Herdade foi ainda exemplo de biodiversidade, a única empresa portuguesa selecionada como parceiro preferencial pela “International Union of Conservation of Nature”, no âmbito do Ano Internacional da Biodiversidade.

Antes e depois: os espaços de lazer na Herdade estão bastante deteriorados. Foto: DR e Paulo Jorge de Sousa

A compra da Herdade e o sonho do enoturismo

O que levou Juvenal Silva a adquirir a propriedade em 1997 foi a cortiça. Na altura, os 600 hectares de terra “estavam completamente abandonados e em ruínas”. A recuperação começou pela zona dos montados, depois das albufeiras até chegar ao casario e à ideia de construir um hotel rural. A ideia de plantar vinha, disse em 2009 Ana Cristina Ventura à comunicação social, foi do marido, grande apreciador de vinhos.

“O funcionamento da Herdade obedecia a preocupações ecológicas e a produção de vinhos feita com recurso à agricultura biológica” como foi explicado anteriormente. A apanha era manual e, durante a vindima, as uvas selecionadas. Não eram utilizados quaisquer aditivos nem estimulantes, havendo apenas o controlo da temperatura. Os vinhos estagiavam em barricas novas de carvalho francês e americano durante seis, nove ou doze meses consoante os vinhos e ainda mais seis meses em garrafa ao som de cânticos gregorianos”, referiu à revista da especialidade BestWine.

O selo de vinho biológico chegou em 2007. O enólogo era o australiano David Baverstock, que foi responsável pelo Cadouços Natur (7 euros a garrafa), Harmony Natur (15 euros), Memorium Natur Reserva (22,50 euros) e Yes We Can. As primeiras cinco mil garrafas esgotaram com rapidez pelo que, na época, nova remessa de Yes We Can e Yes We Can Reserve foi preparada, tendo como destino a restauração e garrafeiras, no mercado nacional e nos Estados Unidos, Brasil, Angola e Itália.

Os vinhos estagiavam em barricas de carvalho francês e americano, ao som de cânticos gregorianos

Apesar de o vinho dar lucros avultados, a Herdade de Cadouços produzia “por opção”, garantia à época Ana Cristina Ventura à comunicação social, entre 4 mil a 6 mil quilos de uva por hectare. Em 2007 fizeram 90 mil garrafas, sendo que o objetivo era a produção de 20 mil garrafas. A vinha da Herdade de Cadouços contava com oito pessoas em permanência e 40% da produção destinava-se à exportação.

Em 2009, a Herdade de Cadouços obteve em Londres um lugar entre os seis melhores produtores de vinho do mundo, “pela qualidade dos vinhos apresentados e pela inovação do projeto apresentado”, disse na época à comunicação social fonte da empresa Juvenal S.A.

O “importante reconhecimento internacional” foi obtido na capital de Inglaterra, nos ‘The Wine Inovation Awards’, um concurso mundial que distingue os projetos mais inovadores em todo o mundo, tendo a Herdade de Cadouços sido o único produtor nacional a conquistar duas medalhas de bronze, com os vinhos tintos ‘Memorium’ e ‘Yes We Can’, e uma menção honrosa, com o vinho tinto ‘Harmony’, na categoria ‘Product Awards’.

Na época, na Herdade de Cadouços produziam-se quatro marcas de vinho tinto certificadas pela CVRR, onde o ‘Memorium Natur Reserva Selecção 2007’ pontificava como topo de gama.

A Herdade levou pela primeira vez os seus vinhos a um concurso internacional no mês de outubro de 2009, na Alemanha, tendo conquistado uma medalha de prata no ‘MUNDUSVINI’, “o maior evento de degustação de vinhos em todo o mundo”, onde concorreram mais de 5700 vinhos oriundos de 44 diferentes países.

Os bungalows rodeados por lagos ficaram ainda mais isolados do mundo. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Segundo disse à agência Lusa a então proprietária do empreendimento, Ana Cristina Ventura, o reconhecimento internacional do projeto enoturístico implementado desde 1999 em Bemposta era “muito importante pelas repercussões positivas na imagem e na consolidação do produto”.

A principal característica dos vinhos ali produzidos, segundo acrescentou a responsável, assentavam no facto de “não haver qualquer manipulação química” e trabalharem “com uma filosofia de preservação exclusiva dos aromas naturais, utilizando rolhas de cortiça natural, proveniente de agricultura em modo biológico, e utilizando rótulos de papel ecológico e tintas vegetais”.

Todo esse projeto caiu por terra mas o Fungere recusa qualquer acusação de abandono. “Embora impedido por lei de fazer exploração comercial da propriedade, tem feito tudo o que está ao seu alcance para a reestruturação da vinha, em ações suportadas, inclusive, pelos pareceres técnicos mais adequados. Tendo em conta o estado de degradação avançada em que as culturas ali existentes se encontravam, o processo tem sido moroso, comportando bastantes dificuldades. Mas mantemos o interesse na maior valorização possível de todos os recursos existentes na propriedade”, afirma o Fundo.

Antes e depois: muitos edifícios da Herdade precisam de intervenção. Fotos: DR e Paulo Jorge de Sousa

António Costa Oliveira, caseiro da Herdade de Cadouços, contradiz por completo tais afirmações. “Em 2013 ainda se vendeu uva, e a vinha, em 2015, estava toda tratada. Há seis anos, quando viemos para cá, o dr. Camilo Martins era o responsável pelo Fundo e a seguir veio o eng. Leite Braga. Preocupavam-se com a situação da propriedade, ou seja, foi feito investimento na vinha, mantendo-a em produção – por ano 55 a 60 mil euros de investimento –, foram feitas pinturas na propriedade, trocas de janelas e reparações em telhados que precisavam, havia manutenção. Nessa altura a Herdade estava bem, abriram-se caminhos, arranjou-se estrada, fez-se corta fogos. O engenheiro Leal da Costa quando chegou disse-me: ‘Nem mais um tostão se gasta na vinha. Quem vier atrás que feche a porta.’ Entretanto ficou no estado em que está. Fiquei abismado quando me disse que iam arrancá-la para plantar eucaliptos”.

“O engenheiro Leal da Costa quando chegou disse-me: ‘Nem mais um tostão se gasta na vinha. Quem vier atrás que feche a porta’.”

Rui Pereira Coutinho, engenheiro agrónomo da empresa Agroretorno, foi outra das pessoas envolvidas na administração daquela propriedade. Pegou na gestão agrícola da Herdade de Cadouços em 2016 quando encontrou a vinha “muito abandonada”, como conta ao nosso jornal. “Uma vinha sem acompanhamento durante dois anos, é complicado, não é como um olival, começa a ter problemas de desenvolvimento e de vigor. Pensou-se em fazer um projeto de remodelação da vinha, ou arrancar a vinha para outra cultura, mas a decisão andou para trás e para a frente, depois houve alterações do BES para o Novo Banco e dentro do Novo Banco para o Fungere, e nunca mais decidiram nada”, conta ao mediotejo.net.

Em cerca de ano e meio, Rui Pereira Coutinho levou a cabo uma desmatagem. “Limpou-se o mato e ficou-se à espera que a administração do Fungere decidisse o que fazer da propriedade. Depois recebemos uma carta a dizer que já não precisavam dos serviços, que tinham autonomia suficiente para tomar conta da Herdade. Pedi licenças de plantações de eucaliptos, de plantações de vinha e depois caiu tudo, nunca mais se fez nada”. Em 2017, a Agroretorno abandonou a Herdade.

Foto: Paulo Jorge de Sousa

Sobre a rentabilidade da vinha diz que 90% da uva era vendida para a marca Guarda Rios, “uma marca que o Monte da Ravasqueira comprou”. A vinha “produzia no mínimo 8 mil quilos de uva por hectare”, recorda, e faz a contas: “8 mil quilos hectare a 50 cêntimos que era o preço da época, estamos a falar de 4000 euros por hectare”.

Com a vinha, o caseiro Costa Oliveira calcula uma faturação acima dos 500 mil euros por ano, um número bastante longe daquele que pode ser a rentabilidade de um eucaliptal.

“Não fazia sentido substituir a vinha, que tinha uma rentabilidade superior e era uma mais valia da Herdade. Hoje não é um ativo, é um desativo”, reforça Rui Pereira Coutinho. “Qualquer comprador interessado na Herdade vê a vinha naquele estado e… é um pesadelo”, considera.

O arquiteto Henrique Pereira dos Santos, especialista em ordenamento de território, explica que “o eucalipto tem uma rentabilidade bastante baixa. O rendimento por ano de eucaliptal, em boa zona, é de 750 euros por hectare por ano, no máximo essa área daria uns 10 mil euros. O eucaliptal é um investimento de elevado risco. A razão pela qual se planta é apenas porque as alternativas dão ainda menor rentabilidade. Agora quando existem alternativas, nomeadamente uma vinha instalada, em boas condições de produção… não faz sentido nenhum!”, afirma.

Situação oposta é a realidade de uma vinha improdutiva. “Substituir eucalipto por vinha poderá ser uma opção racional para quem olha para a propriedade como um ativo financeiro com o qual não quer ter muita complicação e faz um acordo com uma celulose ou com alguém que faça uma exploração. Mas as celuloses não se metem em situações dúbias do ponto de vista legal. Têm as plantações todas certificadas e a condição de certificação é o cumprimento da lei”, notou o especialista.

Questionado pelo mediotejo.net, o Fungere informa que “tem vindo a avaliar todas as possibilidades em relação às culturas viáveis na propriedade, onde já existiram eucaliptos para exploração comercial antes de o imóvel pertencer ao Fundo. No entanto, a área viável para eucalipto não chega a 14% da propriedade”, não havendo, por isso, “qualquer decisão tomada quanto a este tema”. Também a Navigator, questionada sobre o interesse na Herdade de Cadouços para a plantação de eucaliptos, recusou “comentar” o assunto.

Plantar eucaliptos à luz da nova lei

Da tragédia iniciada com os incêndios em Pedrogão Grande em 2017 retirou-se a lição da necessidade de alterar a legislação, nomeadamente no que diz respeito à plantação de eucaliptos tidas como árvores ‘amigas do fogo’.

À luz da atual legislação “não é possível substituir área de montado ou de sobreiral ou vinha por eucalipto. Mesmo que os sobreiros estejam decrépitos. Só é possível substituir eucalipto em áreas que sejam de eucalipto”, explica ao nosso jornal Susana Brígido, especialista no sector florestal.

A diretora geral da empresa 2B Forest explicou que “até em áreas de mato que não têm rentabilidade nenhuma não é possível substituir”. A atual legislação não permite de todo. “Nas áreas de montado não é possível qualquer tipo de reconversão para eucalipto”, reforça.

A única exceção não está sequer legislada e passa por “poder recorrer a um banco de áreas, uma espécie de permuta, áreas em que o eucalipto está mal adequado e em que os proprietários resolvem tirar e ficam com créditos para poder implementar noutro sitio”. Uma situação “inviável”, uma vez que não está regulamentada, até porque “não sabemos em que locais é que poderão ser plantados, tudo depende dos Planos Gerais de Ordenamento e dos Planos Municipais”.

Susana Brígido acrescenta que “qualquer ação existente não estará legalizada, a não ser que os projetos que tenham sido aprovados antes da nova legislação”, mas também nesse caso as dificuldades existem, uma vez que estão “a terminar o prazo de execução”.

A especialista admite que o chão de vinha “é potencialmente uma boa área para eucalipto, mas com a legislação atual é impossível. “Estamos com problemas graves de manutenção do montado, quanto à sanidade do sobreiro, e os proprietário não conseguem fazer lá mais nada, e portanto também não têm rentabilidade. Sendo que os sobreiros novos, que plantam, também morrem, é um problema do solo”.

A Herdade de Cadouços tem uma extensa área de montado. Foto: Paulo Jorge de Sousa

As alterações climáticas são a grande causa desta adversidade. “O sobreiro não está a conseguir adaptar-se e temos muitas áreas a morrer. Podem aplicar-se tratamentos no solo mas isso implica mais custos e mesmo assim não está completamente provado que essas aplicações sejam eficazes. Provavelmente o sobreiro vai deixar de existir a médio prazo, porque não aguenta a seca e a doença e vai-se deslocalizar-se de algumas zonas para outras. Temos o grande desafio de arranjar alternativas para áreas onde algumas espécies tenderão a desaparecer”.

Também Susana Brígido menciona a fraca rentabilidade do eucalipto. “A média nacional anda à volta dos 7 a 10 metros cúbicos por hectare/ano. Há zonas em que consegue 20, como no Oeste. Em euros, a única coisa que sabemos é à porta da fábrica, e os preços podem variar entre os 40 e os 50 euros o metro cúbico. Portanto, depende da exploração, dos custos de exploração e de transporte”.

O nosso jornal também questionou o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) no sentido de perceber, à luz da nova legislação, se é possível plantar eucalipto no lugar de vinha e se as licenças, válidas por dois anos, teriam sido obtidas com essa finalidade antes da entrada em vigor da nova legislação, mas não obtivemos qualquer resposta.

Nas áreas de montado não é possível qualquer tipo de reconversão para eucalipto desde 2017

Em janeiro de 2019, a Associação Ambientalista Quercus foi alertada para o corte de cerca de 80 sobreiros verdes, sem autorização do ICNF, na Herdade de Cadouços.

Em comunicado, a Associação Nacional de Conservação da Natureza deu conta de existir autorização do ICNF para abate de 34 sobreiros decrépitos, mas por indicações de um responsável da empresa foram cortados cerca de 80 sobreiros verdes, sem que o abate tenha sido autorizado pela autoridade competente. A Associação classificou a situação de “alguma gravidade” dado o corte ter sido efetuado num povoamento de sobreiros protegido e também “por existir pretensão de novas plantações de eucaliptos em áreas de vinha e pinhal na mesma propriedade”.

Entretanto, a Quercus alertou o Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA) da Guarda Nacional Republicana (GNR) e os serviços do ICNF no sentido de serem apuradas responsabilidades sobre o corte ilegal dos sobreiros e também no sentido de evitar novas situações que contribuam para a degradação do montado.

Foram abatidos cerca de 80 sobreiros na propriedade, muitos de forma ilegal. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Domingos Patacho, da Quercus, confirmou ao mediotejo.net o abate ilegal, tendo a Associação Ambientalista recebido uma comunicação do SEPNA. “O SEPNA da GNR foi ao local, confirmou que não havia autorização para o abate dos sobreiros e levantou um auto de notícia para iniciar um processo de contraordenação”, disse, acrescentando que na prática tal ação implica “a aplicação de uma coima, por se tratar de desbaste e não de corte raso para qualquer outra atividade”.

O abate de sobreiros sem autorizações do ICNF é algo que o Fungere desmente categoricamente. “O montado de sobreiros mereceu da parte do Fungere o maior cuidado. Após acompanhamento técnico adequado e pareceres do ICNF, os quais foram sempre respeitados, foi feita uma limpeza que implicou a retirada de sobreiros identificados como não saudáveis que comportavam riscos para o montado e que poderiam comprometer seriamente os restantes sobreiros existentes”, justifica o Fundo do Novo Banco.

À espera da próxima jogada

Mas porque não foi ainda vendida a Herdade de Cadouços? Parece natural o interesse que o Novo Banco deveria ter na venda de ativos, de forma a recuperar liquidez (ver contexto, no final do artigo), mas há dezenas de imóveis semelhantes, por todo o país, a perderem valor de dia para dia. Alguns começaram a ser vendidos recentemente “ao desbarato”, como acusaram alguns deputados na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, aquando da audição de Mário Centeno sobre a necessidade de novas injecções de capitais públicos no Novo Banco.

O mediotejo.net sabe que visitaram a propriedade potenciais compradores que ofereceram montantes superiores ao seu valor atual. Porque não se concretizaram esses negócios? A questão não teve resposta da parte do Fungere.

Atualmente a Herdade encontra-se “permanentemente encerrada”, pertencendo a concessão da zona de caça turística de Cadouços à empresa SPNCC – Serviços de Proteção da Natureza e Controlo Cinegético, até 2021. Não há indicação de que essa concessão possa ser renovada.

Salão principal da Herdade de Cadouços, onde o tempo parece ter parado depois de uma saída apressada dos últimos hóspedes. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Por agora, é o silêncio que permanece, enquanto as aranhas vão rendilhando novas teias – até entre o cavalo e a rainha que ficaram abandonados no tabuleiro de xadrez do salão principal. Um dia veremos quem chegará para fazer “cheque-mate”.


 

CONTEXTO | As perdas do Novo Banco e os impostos dos contribuintes 

Cinco anos após a queda do Grupo Espírito Santo, o ‘banco bom’ que saiu do BES é já reconhecido pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, como sendo também “mau”. A venda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star e os milhões que o Fundo de Resolução continua a injetar anualmente no Novo Banco tem feito correr muita tinta. Recentemente, o ministro das Finanças indicou que os contribuintes portugueses vão emprestar mais 2,15 mil milhões de euros ao Novo Banco, de 2019 a 2023, através do Fundo de Resolução.

Em maio de 2019, o Novo Banco recebeu mais uma injeção de capital pelo Fundo de Resolução de 1149 milhões de euros, isto depois de em 2018 ter tido prejuízos de 1412,6 milhões de euros. O novo Programa de Estabilidade (até 2023) prevê outra injeção de capital de 600 milhões de euros em 2020 e outra de 400 milhões de euros em 2021. Contudo, o Novo Banco prevê pedir mais 541 milhões de euros ao Fundo de Resolução, uma estimativa decorrente dos prejuízos de 400,1 milhões de euros no primeiro semestre de 2019, valor pedido ao Fundo de Resolução apenas contabilizado em 2020, quando estiverem fechadas as contas de 2019.

Uma ação que ocorre no âmbito do mecanismo de capital contingente que foi acordado aquando da venda de 75% do banco ao Lone Star e que obriga aquele Fundo a injetar dinheiro no Novo Banco sempre que há perdas na venda de um conjunto de ativos com impacto na estabilidade financeira do banco, ou seja, por trás da desvalorização há injeções de capital público. Na verdade o Estado empresta o dinheiro ao Fundo de Resolução sendo reembolsado, em 30 anos, pelos bancos, mas como lembrou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, os contribuintes pagam “diretamente, através da Caixa Geral de Depósitos, e indiretamente, através de financiamentos que vão aumentar a dívida pública do Estado”.

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1 COMENTÁRIO

  1. Uma bela reportagem, um bom trabalho. Quem conheceu aquela herdade e quem a vê…
    Apenas falta uma referência ao que levou a que a propriedade tivesse sido entregue aos bancos

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