“Homenagem a Manuela de Azevedo nas Pomonas deste Ano Camões”, por António Matias Coelho

Quis a natureza que Manuela de Azevedo nos deixasse neste Ano Camões que estamos a celebrar. Em 10 de fevereiro faleceu, aos 105 anos de idade, a amiga de Constância que lhe dedicou mais de meio século da sua longa vida, trabalhando entusiástica e incansavelmente pelo reforço da ligação da vila à memória de Camões.

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Neste 10 de Junho, Dia de Camões, durante as Pomonas Camonianas que ela própria criou, Constância vai homenagear Manuela de Azevedo, reconhecendo publicamente a sua dedicação, o seu esforço e o valor imenso da obra que lhe deixa.

 

Pavilhão de Macau do Jardim-Horto de Camões
onde decorrerá a homenagem da Associação Casa-Memória de Camões à sua fundadora Manuela de Azevedo

Manuela de Azevedo, uma amiga para sempre

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Veio pela primeira vez a Constância em 1954, trazida por uma nota breve, de meia dúzia de linhas, que lhe caiu em cima da mesa de trabalho na redação do Diário de Lisboa onde era jornalista – a primeira mulher jornalista em Portugal.

Dizia essa nota que a Casa do Ribatejo ia realizar, em Constância, uma visita às ruínas de uma casa à beira do Tejo que o povo dizia ter sido a casa que acolheu o poeta Luís de Camões durante o seu desterro, em meados do século XVI. Guiava a visita o médico e camonista constanciense dr. Adriano Burguete que há muito vinha recolhendo elementos e trabalhando afanosamente na tarefa de divulgar ao país a muito provável presença de Camões em Punhete – a sua Constância.

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Manuela de Azevedo não sabia bem onde Constância ficava. E quando se pôs ao caminho estava muito longe de imaginar a fortíssima relação afetiva que haveria de estabelecer com a linda vila da foz do Zêzere e com a memória de Camões que se transformariam, a partir daí, nas duas grandes paixões da sua vida.

Encantada com a convicção da tradição popular, passada no decurso das gerações e afirmada sobretudo pelos mais velhos que tinham ouvido contar aos seus avós que os avós deles diziam que Camões ali vivera – naquela casa em ruínas a que também chamavam Casa dos Arcos –, Manuela de Azevedo dedicou-se então à imensa e difícil, mas para ela entusiasmante, tarefa de procurar elementos que sustentassem documentalmente a tradição popular. Pesquisou, motivou investigadores de renome a estudar o assunto, rodeou-se de amigos das mais diversas áreas do conhecimento que a apoiavam no seu trabalho e não descansou enquanto não viu classificadas como imóvel de interesse público as ruínas da tal casa e sobre elas erguida a Casa-Memória de Camões.

Pelo caminho – longo caminho de bem mais de meio século –, Manuela de Azevedo dotou Constância com o Monumento a Camões do escultor Lagoa Henriques (que se transformaria num ícone de Constância e, sem dúvida, o lugar mais visitado e mais fotografado da vila) e com o Jardim-Horto de Camões desenhado pelo arquiteto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, o mais vivo e singular monumento erguido no mundo a um poeta. E no princípio dos anos ’90 sugeriu a realização das Pomonas Camonianas, uma exposição-venda das flores e dos frutos referidos por Camões na sua obra, como complemento ao Jardim-Horto onde se encontram, em permanência, as plantas que o poeta cantou. A Câmara Municipal de Constância deu forma a essa ideia de Manuela de Azevedo e depois as escolas do concelho e a comunidade em geral deram-lhe a dimensão e o significado que tem hoje. Já na sua 22.ª edição, as Pomonas Camonianas cumprem na perfeição o sonho da sua criadora: reforçar os laços de afeto do povo do concelho de Constância com a memória de Camões, assumindo-a como um dos traços essenciais da identidade coletiva.

A obra de Manuela de Azevedo em Constância foi, pois, um trabalho de fundo. Não se limitou aos estudos e à obra física – o que, já de si, não seria coisa pouca: contribuiu decisivamente para que os constancienses, no respeito pela funda memória que há muitas gerações transportavam, tomassem verdadeira consciência da riqueza que constitui, ímpar no nosso país, a relação de Constância com a memória de Camões.

Manuela de Azevedo foi nossa amiga. Grande amiga e amiga para sempre. Deixa-nos uma obra a todos os títulos notável e o orgulho de nos assumirmos como a terra que acolheu Camões. A homenagem que lhe vamos prestar neste 10 de Junho é um ato da mais elementar justiça.

Monumento a Camões, ícone de Constância

Uma homenagem simples mas sentida

A homenagem a Manuela de Azevedo, imediatamente a seguir à tradicional cerimónia do 10 de Junho de deposição de flores no Monumento a Camões, vai decorrer no interior do Jardim-Horto.

A escolha deste lugar é óbvia: o Jardim-Horto de Camões era a menina-dos-olhos de Manuela de Azevedo, um lugar de culto ao poeta onde gostava de passar algum tempo, à sombra da grande oliveira da entrada, conversando com as pessoas e apreciando a natureza.

Será, aliás, nesse lugar que ficará para o futuro, numa lápide, o agradecimento de Constância a Manuela de Azevedo que a presidente da Câmara descerrará no decurso da homenagem.

Antes, junto ao Pavilhão de Macau, terá lugar a homenagem da Associação Casa-Memória de Camões à sua fundadora e presidente de tantos anos, com a presença da Família e dos amigos mais chegados de Manuela de Azevedo, dos associados da Casa-Memória e de todos quantos se queiram congregar nesta manifestação de apreço e de reconhecimento coletivo.

Entre os diferentes momentos da homenagem, assumirão por certo um significado muito especial a inauguração do tabuleiro de xadrez ao ar livre em calçada à portuguesa que Manuela de Azevedo sonhara para o Jardim-Horto e que foi construído já depois da sua morte. E, sobretudo, a doação à Associação da Casa-Memória, por parte da Família, de um conjunto de objetos pessoais de Manuela de Azevedo, entre os quais as condecorações e outras distinções que recebeu ao longo da vida. Esses objetos, expostos na ocasião, serão depois transferidos para a Casa-Memória de Camões onde ficarão, em exposição permanente, numa sala dedicada a Manuela de Azevedo.

Sendo uma senhora de grande saber e imensa capacidade de trabalho, Manuela de Azevedo tinha ainda a grandeza de ser uma pessoa simples e completamente despojada. Tudo o que tinha deu. Tudo o que fez em Constância foi fruto da sua enorme generosidade. E, sendo meticulosa e rigorosa em tudo o que fazia, apreciava a beleza da simplicidade e a verdade das coisas. Por isso, a homenagem que lhe queremos fazer em Constância, neste 10 de Junho do Ano Camões e do seu falecimento, será uma homenagem simples. Mas verdadeira e muito sentida.

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