Abrantes | Isabel Cavalheiro, uma abrantina na crise académica de 69

Isabel Cavalheiro

Movimento estudantil, greve aos exames, agitação contra a Guerra Colonial, armas dos estudantes que abalaram a ditadura em Coimbra, cinco anos antes do 25 de Abril. A abrantina Isabel Cavalheiro participou nessa luta e acabou detida pela PIDE.

PUB

Num ambiente marcado pelo Maio de 68, ocorrido em França, por cá ainda faltavam cinco anos para o regime cair, quando cai António de Oliveira Salazar, o suficiente para o Estado Novo avaliar um ligeira abertura. A contestação estudantil planava sobre os ventos de mudança e bastou um incidente na inauguração do departamento das Matemáticas em Coimbra, a 17 de abril de 1969, aquando da visita do então presidente da República, Américo Tomás, para a repressão galopar até à Universidade.

O movimento estudantil decretou o luto académico, os estudantes decidiram em assembleia magna uma greve aos exames e por causa disso muitos foram presos pela PIDE. Isabel Cavalheiro tinha 19 anos, estudava História em Coimbra, uma das ativistas detidas durante a crise académica desse ano.

Isabel nasceu em Abrantes e até ir estudar para fora não viveu noutra cidade que não fosse a florida. O avô, a figura que influenciou Isabel nas suas posições políticas, um pequeno empresário de Abrantes “era um homem de esquerda”. Recorda que começou a ter contacto com o que se passava no País através do ‘República’ que o avô assinava e recebida diariamente pelo correio.

“Era o jornal, o Benfica, e um ódio mortal ao Salazar” lembra. Depois de jantar, no seu ritual diário de ouvir rádio, quando falava o chefe de Governo, “dizia para a minha avó: olha o teu amigo está a falar portanto vou-me embora”.

PUB

Essas e outras recordações, como o assalto ao Santa Maria e o início da Guerra Colonial, constroem um memorial de tempos ditatoriais que envolvem angústia e sofrimento muito pela partida de amigos para o Ultramar mas também coragem, ativismo e resistência. “Felizmente voltaram todos”, diz.

Isabel vai estudar para Coimbra aos 17 anos. Estabelece residência num lar de freiras depois de ter frequentado em Abrantes o Colégio de Fátima. Apesar do regime, em Coimbra “havia alguma liberdade. As freiras permitiam que saíssemos desde que cumpríssemos os horários”. Foi por essa altura que Isabel desenvolveu a sua primeira campanha política para umas legislativas, já com Marcello Caetano.

“A política fazia parte de mim” gostava de debater ideias, sempre com a Guerra muito presente.

Nesse dia 17 de abril, no final do discurso de Américo Tomás com a maioria dos estudantes fora da sala, o presidente da Associação Académica de Coimbra – Alberto Martins que em democracia acabou por ser ministro da Justiça do PS – abrindo alas ente os apoiantes do regime, no alto de uma cadeira pede a palavra “em nome dos estudantes de Coimbra”. Palavra negada. “Foi o rastear do fósforo”, garante Isabel.

Os apupos que acompanharam a saída da comitiva presidencial onde estava também o ministro da Educação, Hermano Saraiva, a recusa estudantil de cumprir a tradição de estender no chão as capas na Porta Férrea e uma multidão de capas negras com cartazes em protesto na rua, anunciaram o início da crise académica. Nessa noite Alberto Martins e Celso Cruzeiro foram presos pela PIDE.

Os estudantes de Coimbra dividiram-se assim entre grevistas e fura-greves. A 2 de junho, o primeiro dia de greve, no lar onde vivia Isabel Cavalheiro, outras 29 raparigas aderiram à ação, só duas furaram a greve.

“Os exames normalmente começavam no dia 2 de junho e o governo teve medo. Naquele dia Coimbra acordou sitiada. Policia de choque, guarda republicana a cavalo e a pé, tropas por todos os sítios”, recorda.

Presente na memória outras imagens mirabolantes como leite entornado pelas ruas, das “leiteiras que de madrugada vendiam o leite de porta em porta, assustadas pelos cavalos da GNR”.

As entradas da Universidade estavam fechadas só abertas para aqueles que mostravam uma espécie de passe de acesso aos exames. Na tentativa de evitar ‘ajuntamentos’ os estudantes receberam em casa uns cartões que lhes davam acesso à faculdade apenas nas datas marcadas.

Nas escadas monumentais, com 125 degraus e cinco patamares, cada um deles tinha um cordão policial.

“A primeira semana de greve foi muito intensa. Andávamos por ali na Praça da República com a polícia a dizer que eram proibidos ajuntamentos de mais de dois” e os estudantes a inventarem ações de protesto e estratagemas para os fura-greves não passarem.

“Esgotámos as tachas nos sapateiros de Coimbra e na Sá da Bandeira furávamos os pneus aos níveas (os carros de polícia azuis)”, conta. Num outro dia de protesto distribuíram flores por todos que encontravam na rua, incluído polícias e “alguns, pais de estudantes, compreendiam a luta”.

A jovem ativista acabou por ser denunciada por uma freira, por uma colega do lar e outra da faculdade.

“No dia em que fui presa as minhas amigas do lar tentaram esconder os panfletos mas as freiras apanharam-nos e rasgaram-nos”. Foi chamada a comparecer no Palácio de Justiça para prestar declarações, interrogada desde as 09h00 e esteve presa pela PIDE até às 05h00, “depois de uma série de peripécias, de ter andado de gabinete em gabinete e de ser interrogada por vários inspetores de Lisboa” nas celas do Palácio da Justiça, uma vez que as instalações da PIDE na rua Antero de Quental estavam lotadas.

Isabel não sofreu maus tratos físicos mas nunca esquecerá o medo e a pressão psicológica. Viu “o caso muito mal parado quando, após um comentário de um inspetor da PIDE sobre um tirinho num gato preto que daria cá um petisco, respondeu: os ossos do Zé Manel são bem melhores”.

Isabel referia-se à iguaria típica de Coimbra mas foi “mal interpretada pelos inspetores de Lisboa que pensaram estar a chamar-lhe cães”. A detenção acaba com o processo suspenso, apenas arquivado depois do 25 de Abril. No dia seguinte voltou para Abrantes no mesmo comboio que um dos homens que a interrogara.

Em 1972 começou a dar aulas no Liceu, hoje Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes. “Tive a sorte de ter um reitor que era também era um homem de esquerda, o Dr. Pequito, que fazia do Liceu uma autêntica família, embora um dos professores fosse o chefe da PIDE em Abrantes, o Dr. Estrela que tinha sido secretário na Câmara Municipal, cargo que por inerência de funções fazia dele o chefe local da PIDE”, explica.

Créditos: Direitos Reservados

Curiosamente, o dia 25 de Abril apanha-a em dia de exames, desta vez no Liceu que na época funcionava no edifício Carneiro ao pé do Castelo de Abrantes. Os estudantes eram militares do Regimento de Infantaria 2, uma das unidades de mobilização para o Ultramar. Isabel vigiava os exames com o Dr. Estrela que lhe perguntou se sabia o que se passava, mostrando-lhe as balas guardadas no bolso do colete, indicando que estava armado.

O funcionário da escola, António, foi mandado comprar os jornais em vão, embora em Lisboa tivessem saído para as bancas sem censura. “Entretanto chegou o reitor que o levou. Foi a última vez que vi o Dr. Estrela”, revela.

Na noite do ‘Depois do Adeus’ de Paulo de Carvalho, lembra-se que se deitou tarde a ler o ‘Portugal e o Futuro’, de António de Spínola, e a ouvir rádio. De repente ouve o ‘Grândola, Vila Morena’ e pensou que o locutor dificilmente iria dormir a casa nessa noite.

“Pois, porque o Zeca Afonso era censurado”. De manhã quando acordou ouviu marchas militares, “não liguei até porque já estava atrasada para os exames e queria despachar-me”.

Mas no dia da Revolução não houve aulas, “tínhamos o rádio sempre ligado para tentar perceber”. Só à noite, quando a Junta de Salvação Nacional se apresentou na televisão “é que as nossas dúvidas se esclareceram e o espírito aliviou: era um golpe de esquerda”. Durante todo o dia Isabel temeu que fosse um golpe de “Kaúlza de Arriaga, um general de ultradireita”.

Depois, em Abrantes, o período entre o 25 de Abril e o 1 de Maio “foi difícil, porque as pessoas aproveitaram para perseguir e, em vingançazinha, denunciar os ódios pessoais como sendo da PIDE”.

Ainda assim, as imagens que permanecem na memória de Isabel “são de alegria, de exuberância, toda a gente feliz, fala-se muito com os militares” conta.

O sentimento de festa pela Revolução dos Cravos culminou a 1 de Maio com “a única grande manifestação que esta cidade já viu.

Muita gente, a concentração foi no Largo da Feira, fomos até à Câmara Municipal, demos a volta pela cidade e seguimos até ao Quartel. Muito bem recebidos, entramos, confraternizamos” e depois a vida entrou na normalidade. Uma normalidade “diferente, brilhante, porque as pessoas já não tinham medo”.

Em democracia Isabel Cavalheiro foi vereadora da Câmara Municipal de Abrantes, eleita pelo Partido Comunista Português e deputada municipal. Hoje está afastada da política. Considera que, independentemente do quadrante político, “Abrantes trata muito mal as pessoas, é uma coisa intrínseca da terra”.

E confessa-se sem coragem suficiente para enfrentar esse passado, como deslocar-ser à Torre do Tombo na procura do seu arquivo, receia encontrar nos ficheiros da PIDE cartas que escreveu e que os destinatários nunca receberam.

Num Portugal livre, e reconhecendo Isabel uma transformação profunda na sociedade portuguesa, perguntamos se 44 anos depois, cumpriu-se Abril?

“O verdadeiro objetivo era acabar com a ditadura e esse está cumprido”.

*Entrevista publicada em 2018, republicada em abril de 2019

PUB
PUB

2 COMENTÁRIOS

  1. Relato impressionante e de alguém que viveu o 25 de Abril que eu respeito, mas com algumas imprecisões. A primeira emmaia notória é fazer referência ao 25 de Abril como uma revolução de esquerda, o que é completamente falso, foi sim um movimento exclusivamente feito por militares. Os partidos políticos entram no pós 25 de Abril no MFA, que leva a uma factura da sociedade portuguesa e ao 11 de Março e ao 25 de Novembro de 1975. Depois, Kaulza de Arriaga não era, nem.nunca foi da ultra extrema direita, nem existe essa denominação, era assim um militar conotado com o poder do antes 25 de Abril e depois dessa data, não se conhece acções deste militar em qualquer movimento. Para finalizar, o Dr. Estrela era sim um homem, um político do Estado novo, mas nunca foi agente da PIDE, poderia ter sido um coordenador.politico, mas nunca da PIDE. É necessário denominar correctamente o que foram e quem eram as entidades envolvidas e não fazer revisionismos imprecisos e falsos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here