“Grécia, os contrastes de um país encantador”, por António Matias Coelho

Há 60 anos que andava para ir à Grécia… Não se pode ir lá no verão por ser muito quente. Nem com pressa por ser muito bela. Calhou agora, no final da primavera e com razoáveis vagares.

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Encontrei um país encantador, lindíssimo e luminoso, com gente afável e espantosamente parecida connosco, mergulhado na mais profunda crise de toda a Europa comunitária.

Entre a riqueza da História que a cada passo nos retém e nos maravilha e a incerteza do futuro, dependente de uma shymphonia que nunca é suficiente, a Grécia é uma deusa que padece: eterna como os do Olimpo, humana nas agruras de uma realidade terrena e terrível.

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Cheguei à Grécia ao amanhecer, ao cais de Igoumenitsa, trazido do porto italiano de Brindisi numa noturna viagem de sete intermináveis horas de mar. A primeira impressão é a de estarmos num país cheio de sol. E mar azul. E uma luz inigualável. Tirando um dia ou outro no norte, já no final da visita, em que esteve de chuva e trovoada, todo o tempo que passei na Grécia foi assim, de uma luminosidade impressionante.

O país – sabemo-lo das aulas de História – é montanhoso, profundamente recortado pelo mar e constituído por milhares de ilhas, das quais mais de 200 são habitadas. Tirando os montes Pindo, no centro do território continental, e o lendário Olimpo, que passam bem dos 2500 metros de altitude, tudo o mais são elevações pequenas. E pobres, muito pobres: o solo é pedregoso e quase estéril e dele pouco se pode tirar. Apenas um quarto do território grego pode ser cultivado, tudo o mais são giestas e estevas cobrindo um chão seco onde cantam as cigarras. É por isso, por tão pobre ser a terra, que toda a vida os gregos a deixaram para procurar melhores condições noutros lugares. Não foi pelo gosto de viajar ou pelo prazer da descoberta que sucessivas gerações da Grécia Antiga abandonaram a Elláda – como chamam à sua pátria – e se espalharam por todo o mediterrâneo, de Chipre à Península Ibérica. Foi porque a escassez de recursos e a luta pela sobrevivência a isso os obrigaram. Mas, mesmo longe da sua pólis de origem, sempre a terra da mãe-Grécia, terra sagrada, os encantava e lhes servia de referência.

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Cabo Sounion, no sul da Ática – a pobreza da terra, o esplendor do património e o azul imenso do mar e do céu

O que falta em riqueza do chão sobra em beleza do céu. O azul do céu da Grécia não tem igual. Só há lá. Intenso, profundo, marcante. Mais belo do que o azul do céu só talvez o azul do mar. Um e outro juntos, como quase sempre andam, enchem-nos os olhos de espanto. Falando de natureza, de cor, de luz, de encanto, o paraíso é inquestionavelmente ali.

Por incrível que pareça, os gregos são muito parecidos connosco. Muito mais do que se pensa. Gostam muito de falar e falam uma língua da qual só aqui ou ali julgamos entender uma palavra mas que soa como a nossa – ou a nossa como a deles porque é da deles que a nossa em parte veio. Gente afável e acolhedora, gosta de receber, de conversar (num inglês que, em especial no sul, muitos mais ou menos conhecem), de ajudar. De visita ao Peloponeso, a península do sul e da História, quase nos sentimos como se estivéssemos no Alentejo ou no barrocal algarvio. É muito semelhante à nossa a organização dos gregos. E a falta dela também… Surpreendi-me com as parecenças entre o modo como eles e nós organizamos o espaço rural, as hortas e os quintais. Vai-se do litoral a caminho de Olímpia para apreciar o espaço onde decorriam os antigos jogos e dá a impressão de atravessarmos os Foros de Salvaterra ou outra qualquer aldeia de pequena propriedade e casinhas dispersas por pedaços de terra onde crescem alfaces e batateiras.

Com exceção das duas maiores cidades – Atenas e Tessalónica, em especial a capital que é um verdadeiro cacho humano onde se acotovelam mais de três milhões de pessoas, cerca de um terço dos gregos – o ambiente geral é de campo, de liberdade e de um confortável sentimento de segurança. A vida flui sem pressas. Vai-se fazendo, se não puder ser agora, mais logo será, ou amanhã. Como aqui.

O Philippeion, em Olímpia – Na Grécia tropeçamos em património a cada passo

Os turistas vão à Grécia em busca de História e de mar. Foi mais a primeira que me levou lá. E devo confessar que, ao cabo de oito ou dez dias, já estava a ficar cansado de tanta arqueologia, de tanta cidade desentranhada da terra, de tanto templo, de tanto coluna lisa ou canelada, de tanto capitel dórico, jónico e coríntio. Depois de Olímpia, por onde fiz questão de começar, Esparta, Micenas, Epidauro, Corinto, Atenas, Maratona, Tebas, Delfos, entre muitas outras, foram desfilando na frente dos meus olhos, revelando maravilhas antigas que sabia de trinta e tal anos de professor de História mas que só agora, finalmente, podia apreciar no seu universo próprio. É verdadeiramente impressionante a densidade de património histórico e artístico de que a Grécia dispõe. É tanto, tanto que, por muito que se veja, muito mais ficará ainda por ver. E, por tanto e tão rico ser, óbvio se torna que não pode o estado grego, para mais com as imensas dificuldades financeiras que o país há muito vive, acorrer a todo ele e tudo tratar e conservar. À Humanidade compete, digo eu, olhar por um património imenso que lhe pertence e ali a História concentrou como em nenhuma outra parte do mundo.

À pobreza do solo, à beleza da paisagem e à riqueza do património junta a Grécia uma profunda crise económica. Não se sente ela tanto no sul, no Peloponeso e na Ática, por ser essa a parte mais turística do país, a par de algumas ilhas, onde o dinheiro fresco de quem chega ajuda a disfarçar a situação. Mas deixando Atenas para trás e viajando para norte nada consegue esconder a doença de que padecem este país e este povo. À medida que avançamos estrada fora vamos dando com estabelecimentos fechados, empresas, lojas, armazéns, bombas de gasolina. Primeiro é só um ou outro, depois vários e, a certa altura, já são mais os fechados do que os que se mantêm abertos. Como se aqui tivesse passado um tornado que não destruiu nada mas faliu tudo. E damos connosco a questionar do que é que esta gente vive.

As muitas casas fechadas, com ervas que as invadem a toda a volta, dizem que muitas destas pessoas partiram daqui. Para o formigueiro de Atenas ou para a Alemanha e outros países ricos do norte. Partir sempre foi o destino do povo grego. Só que desta vez as razões são outras, mais complexas e difíceis de tornear do que a pobreza da terra e a escassez de recursos. O problema agora chama-se dívida, uma espécie de hidra gigante, insaciável e, como é próprio da hidra, praticamente eterna. Já vai em mais de 300 mil milhões de euros, coisa que a Grécia nunca conseguirá pagar, nem que venha a ter tantos séculos de História para o futuro como os que já conta no passado.

Render da guardar frente ao parlamento. Não é fácil para os gregos encontrar o passo certo…

Durante o tempo que estive na Grécia, a palavra, aparentemente familiar, que mais vezes ouvi nos telejornais foi symphonia. A princípio julgava tratar-se de algum espetáculo musical, mas depressa percebi que não poderia ser porque havia symphonia a toda a hora. Ou andava-se em busca dela… Symphonia significa acordo. O que os gregos andaram procurando, durante todo o mês de maio, foi a ambicionada symphonia que desesperadamente procuravam: o acordo dos outros países da zona euro para lhes emprestarem mais 7 mil milhões de euros para pagarem dívidas que estavam a vencer e juros devidos. E tudo seguir adiante, com uma dívida maior, uma hidra ainda mais voraz e duradoura, a precisar, não tarda nada, de mais e mais symphonia. São muito estranhos os arranjos financeiros do mundo de hoje. Os gregos, mesmo que saibam pouco de economia, sabem como ninguém o que isso quer dizer.

É muito difícil antever o que irá acontecer à Grécia e como será a vida dos gregos no tempo que há de vir. Apenas é certo que o mar manterá o seu tom azul intenso. E, em geral, o céu também.

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