“Grão-de-bico”, por Armando Fernandes

Sempre que contemplo um rosto, feminino ou masculino, ornamentado com uma excrescência semelhante a um grão-de-bico, penso no filósofo, jurista e grande orador romano Cícero, que os leitores interessados poderão verificar na Internet quão importante foi em vida na sociedade romana e quanto ainda é, pelo menos, nos círculos judiciais. Ganhou o nome de Cícero por possuir uma verruga no rosto parecida com a leguminosa tão importante na alimentação até ao aparecimento da batata, dos feijões e do milho vindos do Novo Mundo.

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Introduzido na Península Ibérica pelos navegadores e exímios negociantes fenícios, depressa se estendeu a todo o espaço da Europa do sul não só pelo seu valor alimentar, mas também porque é produto polivalente, salvando as donas de casa e cozinheiras de um inesperado aumento de parceiros no almoço do quotidiano ou emergência em período de carestia.

Dos espanhóis, sempre atreitos à glorificação das suas matérias-primas afirmando ser no termo de Zamora que nascem e crescem os melhores grãos-de-bico da Península, quando ouvi tal «gabanço» retorqui dizendo que os gerados nos campos de Miranda do Douro, Viimioso e Bragança seriam de igual qualidade dada a vizinhança territorial, talvez melhores, porque servem (serviam) de arma de ataque colocando um desses grãos na boca e soprando com força atingia o adversário conforme a boa pontaria do atirador.

O meu interlocutor mudou de tema, não de objecto, pois lembrou episódios de nódoas e escorregadelas em virtude dos gravanços ou ervanços serem traiçoeiros quando queremos colocar no garfo três ou quatro ao mesmo tempo.

Ao referir a sua polivalência aludo a poder comer-se cru previamente cozido (vale a pena ler o magistral estudo de Lévi-Strauss, «O cru e o cozido»), moído a fim de ajudar a elaborar uma mistela que na tropa apodavam de café. A farinha de grão-de-bico, a par da farinha de favas, davam azo à confecção de um simulacro de pão nas épocas de grande carência, muitas papas se fizeram e continuam a fazer de modo a suavizarem a fome das crianças pequenas.

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A economia doméstica baseada no aproveitamento de sobras leva as Mestras cozinheiras a nada desperdiçarem, por isso mesmo quando sobram os grãos rubicundos, os mesmo, frios, são colocados num prato, recebem um fio de azeite, gotas de limão e salsa picada redundando numa agradável salada a qual pode ser companhia de peixe frito, conservas e tudo quanto houver e apeteça a quem concebe um modo de alegrar a dieta quotidiana.

No tocante a pratos de substância os receituários adnumeram múltiplas receitas onde o grão-de-bico surge garbosamente emprestando o seu valor energético e sapidez a tais comeres, pensemos nos ensopados, nos ditos caldos do lavrador, no bacalhau cozido «com todos», nos recheios de carnes, nos pastelões e tortilhas. Não prossigo com a adnumeração, o exposto chega e sobra para todos quantos concedem pouca atenção aos rolam pelo chão fora e teimam em pousar na nossa roupa a serem melhor considerados na nossa alimentação. Para os acompanhar com vinhos lembro os da chancela TEJO.

PS. Não tenho interesses na área da alimentação e dos vinhos. Note-se.

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