Gavião | Quando o pão e o vinho são peças de Museu em Domingos da Vinha

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Inaugurado em 2005, o Museu presta homenagem aos viticultores e vinicultores da pequena aldeia de Domingos da Vinha, no concelho de Gavião. Instalado num antigo lagar comunitário recuperado, tem expostos diversos utensílios ligados à produção vinícola, ao fabrico do pão e ao mundo rural. O Museu do Pão e do Vinho pretende documentar as tradições e a cultura dos habitantes de Domingos da Vinha desde os seus tempos mais remotos. O jornal mediotejo.net esteve lá e conheceu o espaço com visita guiada por João Ramos, presidente do Centro de Cultura e Convívio local.

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Em Domingos da Vinha vivem cerca de 40 pessoas todas com idade avançada, porventura, acima dos 60 anos. Mas naquele local, onde começa o Alentejo na margem Norte do Rio Tejo, depois de sair de Belver em direção ao concelho vizinho de Mação – a A23 passa mesmo ao lado – arquitetou-se um Museu para explicar as tradições e cultura dos habitantes daquela povoação.

Contam os mais antigos que a pequena aldeia da freguesia de Belver nasceu das vinhas ali existentes. Em tempos remotos eram propriedade de uma só pessoa, Domingos, agricultor que deu origem ao topónimo. Falamos de uma aldeia com vários séculos de história, uma vez que existem referências escritas de naturais de Domingos da Vinha datadas de 1758.

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. João Ramos à porta do Museu. Créditos: mediotejo.net

O Museu do Pão e do Vinho, sendo municipal, é anexo ao Centro de Cultura e Convívio de Domingos da Vinha, onde os poucos habitantes, como o próprio nome indica, se encontram para conviver. Esta é também a entidade responsável por abrir o Museu ao público, que por norma está de porta fechada, mas basta passar por lá e manifestar interesse em conhecer.

“Foi um lagar de uvas comunitário, onde se fazia vinho. Mantém-se tal e qual o existente tendo sido preservado” e transformado em espaço museológico explica João Ramos. “As peças foram todas oferecidas pelo povo. Esta era uma zona de muito vinho e hoje ainda por aí há boas vinhas… só que a aldeia está envelhecida”, nota.

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A história do edifício está relacionada com a tradição vitivinícola local, apresenta dois espaços distintos de exposição permanente: uma área dedicada às suas origens e que lhe deu nome – a vinha. Todos os instrumentos necessários ao fabrico e armazenamento do vinho lá se encontram representados. E outra dedicada às searas observando-se a presença dos cereais e utensílios usados no fabrico do pão. De salientar que o forno comunitário se localiza do lado oposto da rua do Comércio, em frente ao Museu.

Forno comunitário em Domingos da Vinha. Créditos: CMG

Encontramos então uma porta estreita que abre para duas salas, a primeira mais reduzida dedicada ao pão e a segunda com o tal lagar de uvas. O espaço do Museu resultou da recuperação desse edifício com uma função ligada ao vinho, e nos trabalhos da mesma utilizaram-se materiais típicos da ruralidade, como a madeira e a pedra, de modo a integra-lo plenamente na aldeia que o acolhe.

O lagar é uma espécie de tanque utilizado para a pisa das uvas. A pisa era feita a pé pelos mais jovens e mais robustos da aldeia, tal como documentam alguns retratos pendurados nas paredes de pedra. Do tanque, onde repousava o mosto, escorria o liquido para dentro de uma vasilha de barro que depois era colocada em talhas para fermentar.

O Museu nasce como forma de usar esse património, material e imaterial, num espaço símbolo identitário daquela comunidade. Sendo museu do vinho apresenta o dito como tema central e caracterizador da cultura existente.

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Os visitantes podem observar todos os instrumentos necessários ao fabrico do vinho utilizados no passado, como é o caso do fuso de madeira, impossível de passar ao lado devido à sua centralidade e grandeza. Peça única trabalhada em madeira de azinheira, um enorme pau roscado que entra na vara e faz pressão no aperto final das uvas, depois de bem pisadas para retirar todo o líquido até ao final, onde as ceiras também desempenham um papel importante.

A seu lado outras peças oferecidas pelos naturais da aldeia compõem a sala, como por exemplo o garrafão, recipiente existente em diversas medidas, empalhado a verga que servia para guardar o vinho depois de retirado da talha até ao momento de ser consumido.

Uma das peças mais curiosas é um alambique comunitário existente nos Amieiros, um utensílio feito em cobre destinado a separar por meio de vapor os princípios voláteis de um corpo. No caso figos de infusão, borra do vinho e medronhos, que resultam em aguardente.

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Ou a talha, um recipiente de barro feito por oleiros da zona que tinha como medida o almude e no qual era fermentado o vinho até se encontrar em condições de ser retirado para engarrafar.

Olinda de Matos Pereira, de 89 anos, contava-se entre a meia dúzia de proprietários do lagar. “Fazia lá o meu vinho para consumo da casa e algum para vender. Era pisado com os pés. Dormi lá muitas noites porque o vinho arrufava das talhas e eu tinha de o guardar. Cheguei a tirá-lo todo para dentro de outra talha e estava sempre a arrufar… noites quentes”, recorda.

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. Olinda Pereira antiga proprietária do lagar. Créditos: mediotejo.net

Sendo o Museu também do pão, a primeira sala, bastante exígua, mostra uma mesa posta de forma tradicional, utensílios e cereais usados no fabrico do pão, dado que, as searas são uma característica da zona.

Destaque para o candeeiro a petróleo, os vários panos de linho bordado, o taleigo, saco pequeno e largo usado no transporte de cereais e da farinha, e a peneira, utensílio de madeira circular cujo fundo é formado por fios de seda entrançados e que servia para retirar o farelo à farinha da qual se fazia o pão.

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

“Um Museu simples” classifica-o João Ramos, mas um equipamento vocacionado para a história local e para a promoção do território. Apresenta-se como um repositório de atividades manuais engolidas pela modernidade da maquinaria, esforços, vivências e memórias que pretendem manter coesa a pequena comunidade e a tradição.

Apesar de pequeno, o Museu do Pão e do Vinho de Domingos da Vinha tem registado no seu livro de visitas as muitas que já recebeu desde a sua inauguração a 16 de julho de 2005. E pode ser visitado todos os dias das 13h00 às 17h00, “de preferência com aviso prévio. Basta telefonar”, lembra o presidente do Centro de Cultura e Convívio. A entrada é livre.

Museu do Pão e do Vinho, Domingos da Vinha, Gavião. Créditos: mediotejo.net
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