Gavião | O único Museu do Sabão português na recuperação histórica dos saboeiros de Belver

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O Museu do Sabão em Belver, Gavião, é muito representativo da história daquela vila, uma vez que no século XVI a produção de sabão assumiu inegável importância económica e social na região. Nesta localidade foi instalada uma Real Fábrica do Sabão, que funcionou em regime de monopólio régio. Sem vestígios reais da dita, o Município decidiu recuperar a história dos saboeiros e dignificá-la aproveitando uma antiga escola primária para ali instalar o único Museu do Sabão em Portugal, o terceiro na Europa e o quarto do mundo.

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Ao aproximarmo-nos da entrada da antiga escola primária de Belver, construída no cimo da vila, quase ao mesmo nível do Castelo erigido pela Ordem dos Hospitalários, na mais alta das colinas com o Tejo aos pés, notamos algo de diferente. Isto se tivermos nascido no concelho de Gavião e principalmente se tivermos frequentado aquele estabelecimento de ensino. Está mudada a escola dos ‘Planos do Centenário’ do Estado Novo. Uma vez desativada, surgiu a ideia e transformou-se em Museu do Sabão.

Aos forasteiros, por outro lado, só é dado a perceber o seu passado escolar porque a lateral do edifício, virada para o rio, permanece intocável, sem qualquer alteração arquitetónica.

Contudo, entrando no Museu encontra-se um espaço sóbrio, em tons escuros que se estendem, de baixo ao alto, pelo espelhado do teto, dando um apontamento estético de modernidade e ajudando à focalização nos conteúdos impressos a letras brancas nas paredes em conjunto com fotos a preto e branco, onde se explica a composição química do sabão, lendas e história, a sua relação com Belver e se conhece os pioneiros desta indústria.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Logo à entrada do Museu informações sobre a composição química do sabão, mostra-nos a imagem da molécula do sabão e as diferenças entre sabão mole (composto por potássio) e sabão duro (composto por sódio). Após a receção, uma “parede” de sabão envidraçada.

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“Uma forma bastante fácil de explicar a diferença entre sabão mole e sabão duro. Aparentemente ambos são duros mas na realidade não. O sabão amarelo composto maioritariamente por sódio é mole, o sabão azul mais duro. O sabão amarelo em contacto com a água desgasta mas não desfaz, enquanto que o azul racha e parte em pequenos pedaços”, explica ao mediotejo.net Sílvia Bernardo, responsável pelo Museu.

No centro do espaço uma vitrina que expõe sabonetes de emblemáticas marcas portuguesas e estrangeiras e também caixas de detergentes, além de uma escultura em forma de hélice feita com sabonetes de glicerina.

Mais ao lado outra vitrina dedicada ao famoso sabonete Lux que inclui um anúncio ao dito, ilustrado com o rosto de Amália Rodrigues, uma das “nove em cada dez” estrelas de cinema, apesar de ser fadista, que usavam o sabonete fabricado em Portugal, mais concretamente em Sacavém, na Unilever.

O Museu do Sabão nasceu em 2013 com o objetivo de recordar a memória coletiva dos saboeiros de Belver. A recuperação e transformação da antiga escola primária no Museu do Sabão pretende criar um espaço de divulgação dos conhecimentos adquiridos pelos antepassados dos belverenses e homenagear a memória coletiva dos saboeiros de Belver.

Durante séculos as gentes de Belver tiraram o pão do fabrico do sabão mole e naquela vila funcionou a Real Fábrica do Sabão, da qual não resta qualquer registo físico, a não ser documentação e registo histórico confirmando a escolha régia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O monopólio régio do sabão em Portugal atravessou quatro séculos (do século XV ao século XVIII), variando entre duas formas: reserva total dos benefícios para a coroa; e partilha dos privilégios entre o rei e os nobres. A lei instituiu sanções muito severas, que poderiam ir até à prisão, para quem fabricasse, importasse ou vendesse sabão ilegalmente, punindo inclusive a produção de uso doméstico.

Estas medidas tão repressivas estiveram na origem de numerosas revoltas da população, pois não era facilmente aceite a proibição do fabrico caseiro deste produto. Em consequência, proliferaram pequenas produções e vendas clandestinas, o que levou ao seu encarecimento e especulação.

A revolta também se estendeu a Belver. A 16 de maio de 1846, aproveitando um clima de rebelião, os saboeiros e almocreves decidem pôr fim unilateral aos monopólio saboeiro. Esta e outras histórias o visitante fica a conhecer no Museu do Sabão, incluindo o que foi a Guerra da Patuleia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Três fatores fundamentais para a escolha de Belver: a localização, o acesso ao rio Tejo facilitava o transporte via fluvial até Lisboa; a abundância de matéria prima, uma zona rica em oliveiras e azeite; e também pelo saber do povo. Além da Real Fábrica do Sabão há registo de oito saboarias em Belver.

“O sabão de Belver era feito com cinza, borras de azeite, cal como aditivo para branquear e água. Este sabão ficava mole por causa das cinzas e não era utilizado para a pele”, refere Sílvia. O sabão em Belver foi fabricado até meados do século passado mas “atualmente já não existe nenhum saboeiro vivo” na freguesia.

A produção de sabão mole em Belver foi assegurada por algumas famílias até à primeira metade do século XX, mas sendo considerado um produto essencial a partir de 1930, o sabão foi racionado em muitos países durante a II Grande Guerra. A sua escassez abriu uma oportunidade ao ressurgimento do fabrico em Belver.

Depois, ficaram as memórias e a alcunha de ‘saboeiros’ que tinha na vila “uma conotação negativa” explica Sílvia e só com o Museu, Belver se reconciliou com o passado e voltou a ter orgulho em tal ofício como parte integrante da sua história. O Museu, em jeito de homenagem, tem um espaço onde dá a conhecer as fotos e os nomes dos principais saboeiros de Belver do século XIX.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Sílvia Bernardo, responsável pelo museu. Créditos: mediotejo.net

Com o final da Segunda Guerra Mundial, a investigação sobre novos processos de fabrico foi acelerado surgindo os primeiros produtos de origem sintética (detergentes, e compostos resultantes da indústria petroquímica) que também podem ver vistos no Museu.

O visitante pode ainda apreciar o antigo traje do racho folclórico de Belver, recuperado do espólio para mostrar como se vestiam os saboeiros na época em que se fabricava sabão em Belver. E alguns monumentos do concelho de Gavião em pequenas esculturas de sabão, iniciativa para comemorar o quinto aniversário do Museu do Sabão em 2018, e conhecer os utensílios de fabricação do sabão mole de Belver.

Assim, através de uma experiência interativa – física e visual – o visitante pode fazer uma viagem sobre o sabão e a sua história. Na mesa interativa, com os mesmos conteúdos expostos nas paredes do Museu, oferece-se uma diferente viagem no sentido de uma melhor compreensão de todo o processo. Ao lado, dois monitores com jogos onde se pode rebentar bolas de sabão e ganhar pontos.

Este talvez seja o espaço preferido dos mais pequenos, apesar deste Museu oferecer a história do sabão contada através de fantoches num espaço próprio com a forma do Castelo de Belver. Tal como o filme que passa continuamente com uma síntese da informação do Museu onde se pode ver uma pequena animação referente aos componentes químicos.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Nesta visita é também apresentada a história do sabão no mundo, do seu aparecimento na antiga Mesopotâmia, Egito e Grécia, a lenda do Monte Sapo associada à sua origem tal como a palavra de onde derivam as diversas etimologias: sapone em italiano, sabão em português. E a evolução até aos dias de hoje.

Entre as diversas curiosidades, ficamos a saber que no século XVII a Inglaterra se assume como o país com maior consumo de sabão, isto porque a rainha Elizabeth I instituiu o hábito de tomar banho com regularidade (de 4 em 4 semanas).

E naturalmente, a história do sabão em Portugal, a sua importância económica do século XIV ao século XVIII, tal como a exposição de alguns produtos que marcaram gerações.

As explicações são dadas aos visitantes por Sílvia Bernardo em visitas guiadas com duração entre 45 e 60 minutos, que podem ser em português ou inglês, uma vez que os conteúdos existem apenas em português embora as brochuras já sejam bilingues.

Em todo o mundo, são quatro museus dedicados ao sabão: Além do português – o único que refere o sabão mole -, em Espanha (Barcelona), França (Marselha) e Líbia (Sidon). O Museu de Belver conta em média com quatro mil visitantes anuais sendo muitos estrangeiros, nomeadamente espanhóis. Em 2019 “têm chegado muitos visitantes holandeses” revela Sílvia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O Museu do Sabão é municipal e encontra-se aberto durante todo o ano, de terça a sexta-feira das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. Aos sábados, domingos e feriados das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. Encerra à segunda-feira.

Relativamente aos preços, até aos 5 anos é gratuito, dos 6 aos 12 anos a entrada custa 1 euro. Para maiores de 12 anos custa 2 euros e para maiores de 65 anos entradas a 1 euro. O Museu faz um desconto de 50% a grupos com mais de 10 elementos.

Na receção, para venda, podemos encontrar sabonete de azeite de oliveira galega, sabonete campestre de alecrim e argila, sabonete de mel e cera de abelha e sabonete serrano de rosmaninho e mel, todos embalados em caixas com fotografias de pontos turísticos do concelho de Gavião.

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