Gavião | Futuro do Turismo no interior passa pela sustentabilidade, criatividade e trabalho em parceria

Conferência '0 Futuro do Turismo no Interior - das alterações climáticas à sustentabilidade' em Gavião. Créditos: mediotejo.net

Gavião organizou e recebeu na quinta-feira, 7 de novembro, a conferência “O Futuro do Turismo no Interior – Das alterações climáticas à sustentabilidade”, com o objetivo de refletir sobre o turismo nos territórios do interior perante os desafios do século XXI, como a sustentabilidade, não só ambiental mas também social, cultural e económica, e as alterações climáticas, realidades muito atuais para os agentes económicos e entidades públicas.

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Justifica começar este texto pelo fim: depois de escutar vários especialistas na área do turismo em territórios do interior conclui-se que o turismo em rede é a única forma que faz sentido para que tenha futuro.

A principal conclusão ficou logo patente no primeiro painel da conferência “O Futuro do Turismo no Interior – Das alterações climáticas à sustentabilidade” que decorreu em Gavião no âmbito das comemorações dos 500 anos do foral manuelino.

Mas outras conclusões igualmente importantes saíram daquele encontro que se realizou no cineteatro Francisco Ventura, designadamente o necessário trabalho a fazer por parte dos operadores turísticos no que concerne às inevitáveis alterações climáticas, tema abordado pelo presidente da Entidade Regional de Turismo Alentejo e Ribatejo durante a sua intervenção na conferência.

Conferência ‘0 Futuro do Turismo no Interior – das alterações climáticas à sustentabilidade’ em Gavião. António Ceia da Silva. Créditos: mediotejo.net

António Ceia da Silva, em declarações ao mediotejo.net, explicou o significado das preocupações manifestadas. “Significa que temos de criar condições para atenuar as alterações climáticas“, disse, avançando com o exemplo do Dubai.

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“O excessivo calor levou a que criassem tubagens para o gelo poder cair nas piscinas, há zonas do mundo onde se aproveita o excesso de calor, como no Brasil, para um carnaval excecional. Ou seja, teremos de encontrar estratégias para podermos atenuar os efeitos negativos das alterações climáticas ao nível dos destinos turísticos”, deu conta, afirmando ser já uma prática mundial.

António Ceia da Silva aponta dois fatores externos à atividade turística sem possibilidade de controlo: a segurança e o clima. “O clima hoje é um fator que não é gerível, nenhum gestor turístico o pode controlar. Não sabemos que tipo de calor está em agosto, dantes sabíamos, não sabemos que temperaturas estarão em dezembro, dantes sabíamos, portanto temos de atenuar, criando fatores de atratividade no território”.

O presidente da Entidade Regional de Turismo Alentejo e Ribatejo garante que Portugal “está a trabalhar nesse sentido. Há muitos destinos turísticos que já o fizeram, nós estamos a começar a viver e a sentir agora as questões das alterações climáticas e estamos a estruturar um plano que permita atenuar” as mesmas.

Segundo Ceia da Silva “o Alentejo ainda não vive esses problemas” contudo, terá de se preparar para o futuro. “Neste momento é uma região aprazível com um clima equilibrado, o fator mais essencial para ser atrativo turístico”. Sem as desvalorizar classificou-as até como “questões muito relevantes. São perspetivas porque até um clima excessivo pode ser interessante em determinadas circunstâncias, por exemplo para esquiar são necessárias temperaturas negativas”.

No entanto, importa considerar que o clima “é um dos fatores externos conjuntamente com a segurança, mais relevantes para o turismo hoje em dia. Nem um nem outro são controláveis, mas temos de estar atentos a essa problemática e discuti-la” concluiu.

Foi o que aconteceu durante a tarde no painel ‘Alterações climáticas e a influência no futuro do turismo’. Mas antes da discussão desse tema, o presidente da Entidade Regional de Turismo Alentejo e Ribatejo deu conta que o Alentejo é a região do País, “que no conjunto de todos os indicadores macro e micro económicos, que mais cresce no ano de 2019”.

Aliada a esses números está a informação de ser “a região que cresce consecutivamente na procura nos últimos 10 anos – com exceção para 2012- de uma forma progressiva e sustentada”, disse.

Indicou que nos proveitos, nos últimos dois anos, o Alentejo cresceu 30%. Significa, de acordo com a leitura de Ceia da Silva, que o turista “hoje consome e gasta mais 30%, simbolizando que o perfil do turista mudou. Temos hoje um turista mais exigente, mais qualificado, mais informado e com mais poder de compra” sustentou.

António Ceia da Silva referiu a importância do turista para a economia regional, defendendo ser o turismo “o setor mais transversal. Significa que gasta na animação, na restauração, vai comprar os produtos endógenos, vai ao comércio tradicional. Significa que contribui para a criação de emprego qualificado e fixação de jovens”.

Acrescentou que no Alentejo não aumentou apenas na procura mais também na oferta dando exemplos de alguns investimentos no distrito de Portalegre como o ‘Gavião Nature Village’.

Conferência ‘0 Futuro do Turismo no Interior – das alterações climáticas à sustentabilidade’ em Gavião. Créditos: mediotejo.net

Ceia da Silva apontou também a questão da formação profissional como um “problema muito complexo” que merece debate. “Faltam profissionais para este sector”, dá conta. “Precisamos de ter migrações de profissionais desta área e temos de definir onde vamos buscar esses profissionais. O turismo exige qualidade no atendimento, e não dá uma segunda oportunidade. Não podemos falhar nunca!”.

Mencionou ainda a importância das redes, “tudo tem de funcionar de uma forma conjunta e plena” e apontou três vetores fundamentais: “primeiro tornar a região atrativa, segundo se a região é atrativa os turistas vêm, terceiro se os turistas vêm surgem os investidores”.

Enumerou alguns projetos em curso, que tem de ser ultimados até final de 2019 por questões ligadas aos fundos estruturais, nomeadamente os 1400 quilómetros montados no Alentejo e Ribatejo de Caminhos de Santiago, um desses caminhos passa no Alto Alentejo, perto de Gavião.

“O peregrino de Santiago de Compostela não é o peregrino de Fátima. Não dorme nos bombeiros nem nas misericórdias. Dorme nos melhores hotéis e come nos melhores restaurantes. É um turista acima dos 65 anos com poder de compra que prolonga a estadia e atenua sazonalidade”, refere.

“Estamos a terminar uma rede de percursos pedestres de mais de 5 mil quilómetros sinalizados no território, um dos quais no concelho de Gavião em colaboração com a câmara. Estamos a montar uma rede de cycling com 12 centros de BTT – nesta fase inicial – no Alto Alentejo, um deles em Degracia. Estamos com um conjunto com 10 rotas viradas para a comercialização e para a venda, envolve pacotes de 3 e 7 dias, ligadas ao património imaterial e não só, um delas a Rota da Lã passa pelo Gavião, pelas mantas de Belver, pelas tapeçarias de Portalegre, pelos tapetes de Arraiolos, rotas transversais ao território. E estamos a ultimar as Rotas de Touring Cultural e Paisagístico do Alentejo e Ribatejo, cultura avieira na Lezíria do Tejo, fortificações que passam pelo Gavião, o megalitismo e o barroco que também passam pelo concelho”.

Tudo isto com uma nova marca: “Alentejo Caiado de Fresco” ligado à autenticidade e à inovação.

OIÇA AQUI AS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE JOSÉ PIO:

Gavião / Durante a conferência 'O futuro do Turismo no interior' que decorre esta quinta-feira no cineteatro Francisco Ventura o presidente da Câmara Municipal, José Pio, fala da pertinência do tema que foca as alterações climáticas e a sustentabilidade. A iniciativa surge integrada nas comemorações dos 500 anos do Foral de Gavião.

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Por seu lado, o presidente da Câmara Municipal de Gavião, José Pio, começou por lembrar que o concelho tem quatro freguesias, “Belver, Margem, Comenda e União das Freguesias de Gavião e Atalaia”.

Esta última dedica-se a uma economia virada para a agricultura, pecuária e pequena indústria. E aliada a estes setores está a sua geografia muito diversificada e contrastante.

“Foi nesta diversidade que vai desde a planície alentejana a sudeste, vales e lezírias a sul passando depois a norte a ter altas colinas graníticas debruçadas sobre o rio Tejo, com paisagens deslumbrantes, num horizonte de beleza singular e ainda à sua história onde o sobranceiro Castelo de Belver é o expoente máximo, sem esquecer os vestígios desde o paleolítico, às marcas megalíticas, às visíveis obras dos Romanos e mais recentemente às tradições, às artes e ofícios” que o Município tem vindo a apostar.

Nesse contexto e começando pelo turismo cultural o autarca indicou algumas apostas como “a Musealização de duas salas na Torre de Menagem do Castelo de Belver, na criação do único Museu do Sabão existente em Portugal, no Núcleo Museológico das Mantas e Tapeçarias, no Museu do Pão e do Vinho; no turismo de natureza com a criação de quatro percursos pedestres, um em cada freguesia, o passadiço do Alamal, o Observatório Avifauna”.

No turismo desportivo “o pedestrianismo, o cicloturismo e a futura criação dum espaço destinada a Centro Interpretativo dos percursos Pedestres e Estação de Serviço de apoio ao BTT na Escola da Degracia”. José Pio referiu igualmente o apoio “a duas provas com pergaminhos no contexto nacional, como são o BAJA Portalegre 500 e o Baja TT da Ferraria, que anualmente trazem milhares de pessoas” ao concelho.

Conferência ‘0 Futuro do Turismo no Interior – das alterações climáticas à sustentabilidade’ em Gavião. O presidente José Pio. Créditos: mediotejo.net

O Executivo de Gavião acredita que “a promoção dos recursos naturais é fundamental para o desenvolvimento sustentável do interior do País” e daí surge a aposta também “na praia fluvial do Alamal, criando condições para que os turistas possam usufruir do espaço com a máxima comodidade, são disso exemplo o aumento da capacidade de estacionamento, a sinalização turística em todo o espaço da quinta, o acostadouro para embarcações de pequena dimensão ou a colocação de grades nos socalcos destinados a campismo informal”.

Da mesma forma a Ribeira da Venda tem vindo a ser objeto de investimento. Agenda o verão de 2020 para disponibilizar “uma piscina para adultos no espaço do açude, encontrando-se ainda em fase de legalização a aquisição do espaço contiguo, a norte, com 3 hectares para aumento do espaço disponível. Manter neste espaço a Festa da Juventude (BeatFest) dando-lhe todas as condições para se implementar como um festival de verão de referência” é outro dos objetivos.

José Pio garante a consolidação do concelho “como um destino sustentável, valorizando o Património cultural e Natural, criando espaços Museológicos atrativos, preservando o ambiente e dando ao verdadeiro turista oportunidades diferenciadoras de outros destinos” sem nunca esquecer que atualmente “o consumidor turístico procura uma personalização dos serviços oferecidos, o prazer de experiências únicas e inesquecíveis ligadas à autenticidade às tradições e costumes do destino, bem como atividades de lazer relacionadas práticas saudáveis e de contacto com a natureza”.

O futuro do turismo no interior começa nas parcerias

O primeiro painel do dia tratou do tema ‘ O Turismo sustentável e as redes de oferta como pilar de desenvolvimento do interior’. E contou com Hugo Teixeira Francisco da Portugal Green Trave, Pedro Pedrosa da A2Z Walking & Biking, Patrícia Araújo da Biosphere Portugal, Rui Simão das Aldeias de Xisto ADXTu, e Jorge Velez da Rede de Oferta Lugares da Serra Alentejana.

Da conversa saíram algumas conclusões como a necessidade de capacitação dos agentes locais e de criar parcerias entre público e privado e também com os concorrentes, no sentido de fazer ofertas conjuntas porque “juntos somos mais fortes”, uma máxima bem conhecida que Jorge Velez aplicou no colóquio.

Conferência ‘0 Futuro do Turismo no Interior – das alterações climáticas à sustentabilidade’ em Gavião. Créditos: mediotejo.net

Patrícia Araújo sugeriu que os territórios de baixa densidade passem a ser conhecidos como destinos alternativos, dando-lhe “mais uma perspetiva de oportunidade, uma nova roupagem”. Para os operadores turísticos presentes, as redes colaborativas são fundamentais até por uma questão de escala e de recursos” e essa partilha passa pela comunicação, pelo marketing e pelas vendas.

Hugo Francisco lembrou que “a sustentabilidade não é apenas ambiental mas nestes projetos turísticos do interior importa também a sustentabilidade, social, cultural e económica”.

Para Rui Simão as redes devem apostar na “experimentação. Gerar novas ideias para os investidores”.

Enquanto que Pedro Pedrosa sublinhou o investimento. “Tem de gerar dinheiro, favorecer a economia”, portanto o desafio passa por “dar notoriedade ao produto e vendê-lo”, defendendo que os produtos criados devem estar visíveis, “em locais onde os turistas os vejam” nomeadamente no site do Turismo de Portugal.

Além deste primeiro, a conferência contou com mais três painéis, o último dedicado então às alterações climáticas. Os restantes dois, um decorreu na parte da manhã com o tema ‘A infraestruturação dos destinos como suporte à atividade turística no interior’ e o outro após o almoço com o tema ‘A diversificação do produto turístico como alavanca territorial’.

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