Gavião | As bonecas artesanais e brinquedos de pano que Maria Minda costura para afastar a solidão

Os gatos também são escolha de costura para bonecos de Maria Minda. Vale de Gaviões. Créditos: mediotejo.net

Das bonecas de pano que costurou até hoje, com 81 anos, já perdeu a conta. Mas Maria Minda, de Vale de Gaviões, na freguesia de Margem, não se dedica apenas à criação de bonecas de trapos. Também ensina o que sabe na Universidade Sénior de Gavião. Bordados de Castelo Branco, pintura a acrílico ou na seda, estanho, bolsas de retalhos ou aventais. Não pode estar parada!, diz. A criação é o seu passatempo e também uma necessidade. Por companhia tem a televisão e o seu bem mais precioso, a máquina de costura, que afasta o isolamento. O jornal mediotejo.net foi conhecer a sua história.

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É artesã. Teve mesmo de se coletar, são as regras, diz ao mediotejo.net. Aos 81 anos Maria Minda, uma beirã por nascimento mas alentejana de alma e coração, passa os dias de volta dos trapos. Corta, recorta, talha, alinhava ou então cose logo na máquina de costura. Já teve várias, mesmo quando era nova. Aprendeu o ofício com a mãe que também era costureira. Por causa disso, teve sorte, nunca trabalhou no campo, mas conhece as duras histórias de outras raparigas da sua geração.

Enquanto elas partiam para as azeitonadas lá para os lados da Figueira da Foz, ou andavam alagadas até à cintura nos campos de arroz, a trabalhar de sol a sol, Maria costurava combinações de flanela, calças, ceroulas, casacos de abas e camisas. “Não havia pronto a vestir, sabe?” interroga-nos. Recorda até uma senhora da Comenda que vendia camisas de porta em porta e fazia-lhes encomendas, a Maria e à mãe, para as costurarem em casa.

Para aumentarem a renda, Maria e a mãe ainda tomavam conta de crianças cujos pais abalavam para trabalhar fora na azeitona, no arroz, no milho ou no que fosse. “Ficavam por lá várias semanas e sempre nos pagavam alguma coisa para tomarmos conta dos filhos durante aqueles dias” refere. E era uma vida dura. Tal como foi a vida do marido de Maria, um alentejano natural de Vale de Gaviões, que faleceu há um ano e meio.

“Tínhamos 8 dias de casados e teve de ir trabalhar para o arroz. Não eram bem tratados, ganhavam uma bagatela. Ficavam por lá 15 dias ou um mês, a dormir no chão embrulhados nuns cobertores escuros” corriqueiros de outros tempos, recorda dizendo que sobre a vida dura do Estado Novo não tem muitas histórias para contar, “fui poupada, outros sofreram mais”.

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Maria Minda na sua sala de costuma, trabalhando numa boneca, que na verdade são duas. o capuchinho vermelho e o lobo. Créditos: mediotejo.net

Apesar das dificuldades fala de uma vida mais alegre. “Sujeitavamo-nos ao que tínhamos. Comprava-se o indispensável, galinha só ao domingo… às vezes” ri. Recorda “as grandes casas” daquela região: “a Casa Rebelo e as Polvorosas, onde trabalhava muita gente, por vezes ao quinto, quase tudo para o proprietário, pouco para quem trabalhava os campos. Agora a vida é melhor mas há muito consumismo, muito desperdício enquanto outros morrem de fome. As pessoas hoje são mais egoístas” critica.

Nessa ruralidade de uma aldeia alentejana nasceram as bonecas de trapos da imaginação da sua filha Rosinda de Carvalho, atualmente a viver em Paris. “Ela aprendeu os bordados de Arraiolos em 1985, e quis dedicar-se à costura. Começou a costurar matrafonas, a ir às feiras através da Câmara Municipal. Depois emigrou para França e fiquei eu entregue às bonecas. Fiz várias feiras em Marvão, Nisa, Sardoal, Ponte de Sor, Abrantes, Portalegre, Arronches”, conta Maria.

Agora para essas andanças a idade começa a pesar. “Estou capaz de este ano terminar com as feiras”, afirma. Mas por estes dias ainda estará com as suas bonecas na XXVII Mostra de Artesanato, Gastronomia e Atividades Económicas de Gavião.

Quando recebeu em sua casa o mediotejo.net costurava uma encomenda para Ponte de Sor. “Uma boneca que são duas, de um lado o Capuchinho Vermelho e do outro o Lobo. São as que se vendem melhor porque dá para contar histórias às crianças” diz lembrando que certa vez até de Vila Nova de Gaia recebeu uma encomenda.

“Uma senhora ligou-me porque tinha visto os meus trabalhos na internet e pediu que lhe fizesse uma boneca Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo e outra Capuchinho Vermelho”. E assim foi!

Festas da Cidade de Ponte de Sor 2019. Maria Minda de Gavião. Créditos: mediotejo.net

Maria Minda nasceu em Alcains mas aos 6 anos veio viver para Vale de Gaviões, com o tio, Joaquim da Silva Antunes, o padre daquela paróquia que recebeu o irmão e a cunhada, aliás o primeiro casal que o padre recém ordenado casara. Ainda hoje Maria Minda reside na casa paroquial, embora tenha vivido em Vale Bordalo onde estudou até à quarta classe e onde ficou até casar.

Depois dedicou-se à costura. Era filha única e as necessidades não exigiam mais. “Bordei muitos enxovais, mas faço tudo o que me vem à ideia. Parada é que não!” afirma. “Costuro porque gosto mesmo de costurar. Tenho muita farrapada e retalhos, tecidos que as costureiras me oferecem. E também vou ao mercado de Ponte de Sor comprar alguns que goste mais. Vou fazendo bonecas e quando tenho vontade de dar, dou!”.

A costura usa-a como desenfado para quem passa o dia inteiro sozinha. Até porque os bonecos de pano já tiveram melhores dias. “Já se vendeu mais. Hoje os miúdos querem é jogos eletrónicos e tecnológicos” nota. Apesar de não tecer grandes lamentos quanto ao isolamento; há muito que as bonecas são a solução. “Não! Porque estou sempre entretida!”.

Participa nas feiras de artesanato mas não pensa no lucro, nem sequer faz contas. Pouco lhe importa se o dinheiro compensa o trabalho. “A minha vida é a máquina de costura! Preciso é de criar, inventar e variar um bocado”. Da França também chegam novas inspirações e ideias.

“A minha filha envia-me livros, com moldes para fazer bonecos e babetes. Às tantas já nem sei onde guardar tanta coisa” contesta. A vontade permanece, “até que possa porque os olhos são um problema, sofro de cataratas e vou ser operada”, conta.

Maria Minda e uma boneca, no caso a Carochinha que casou com o João Ratão. Créditos: mediotejo.net

Há 11 anos começou a ensinar na Universidade Sénior de Gavião, onde vai às quarta-feiras e onde partilha o que sabe com pessoas da sua idade ou até mais novas. E apesar dos 81 anos não se nega a trabalhar à noite. “Às vezes dá-me vontade e ponho-me a recortar moldes. Gosto é de ir fazendo, se me apetecer estar todo o dia agarrada à máquina de costuma, estou.. com almofadas nas costas” ressalva, mas gosta “é de fazer as coisas sem compromisso”.

E dedica-se a outros inventos artísticos, como quadros em escama de peixe, missangas, estanho, faz presépios com cabaças ou inventa animais dependendo da forma como nascem, pinta a acrílico e em seda. As obras que saem das suas mãos podem ser compradas apenas na Casa do Povo de Vale de Gaviões, ou nas Feiras do Gavião e de Ponte de Sor.

Até hoje desconhece o número de bonecas que costurou. Lembra-se que certa ocasião, numa feira em Fronteira, da qual esteve ausente por doença, “a rapariga vendeu-me as bonecas todas e tive de costurar mais 25 porque a Câmara Municipal queria oferecer aos funcionários”.

Enquanto continuar como artesã nas feiras, no seu expositor terá bonecas de pano. Maria Minda é conhecida na região pelas bonecas de trapos. “As mais baratas custam cinco euros e as mais caras custam 20”. Brinquedos que nascerão da sua criatividade em variados modelos, formatos e tamanhos. Sem prévias idealizações ou desenhos.

“Quando estou a costurar é que penso no que vai sair”, conclui, sempre atarefada entre linhas e agulhas, as companheiras silenciosas que ajudam a afastar a solidão.

Outros trabalhos de Maria Minda, que vão além das bonecas de trapos. Estes realizados com cabaças. Créditos: mediotejo.net
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