“Gambas”, por Armando Fernandes

O nome significa uma variedade de camarão muito apreciada por cá. Por lá a espécime assume outros nomes de conhecimento desta deliciosa emanação marítima, sem embargo de dente da família existirem outras designações levando em linha de conta o tamanho, a proveniência, à coloração, época mais adequada à sua degustação (os meses de erre), fórmulas culinárias e construções gastronómicas. As gambas brancas (chamadas do Algarve) gozam da merecida fama de untuosas e sedosas no palato, além disso, ao contrário das gambas rosadas ou amareladas, possuem uma carapaça bem mais fácil no seu esvaziamento para lá de esse mesmo líquido da envolvente ser impregnado de maresia para gáudio de todos quantos o consideram afinado e sápido deleite para os sentidos.

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Estas gambas ditas do Algarve para lá da fronteira algarvia também detêm grossa e faladora legião de consumidores, basta irmos a Ayamonte ou a Huesca para o confirmarmos, na terra dos mariscos Puerto de Santa Maria obtemos a confirmação. Nas nossas bandas a gamba branca não se encontra em todas as cervejarias e restaurantes vendedores de marisco, muito disputadas os seus acendrados amantes têm um roteiro que vão enriquecendo à medida do achamento e reboliço da descoberta. Não é caso único, muito menos confinado a Portugal.

O famoso Ateneu na sua monumental obra – O banquete dos Eruditos – refere um nababo romano sempre à procura de bons mariscos, especialmente de gambas de esquisita e polpuda carnação, suculentas nas várias preparações culinárias e ao natural, na maior parte do ano, que conseguiu obter fundada informação da existência de tais gambas no mar mediterrâneo na costa Líbia. O alvoroço da informação levou-o a de imediato mandar aparelhar um navio e ele próprio embarcou porque gambas desse género mereciam todos os custos e trabalhos conducentes à sua pesca.

Zarpou da costa siciliana, a viagem foi tormentosa pois o mar bramia enraivecido dado o vento soprar ondas grandes, ao fim de múltiplos trabalhos e canseiras conseguiu chegar ao pesqueiro e não escondeu a sua tristeza ao verificar que as almejadas gambas eram inferiores às que habitualmente comia na sua casa onde o cozinheiro as cozia no ponto, isto é na perfeição levando os seus amigos a invejá-lo por isso mesmo.

Segundo defendem os puristas o marisco deve-se apreciar ao natural, ainda tépido porque acabado de sair da panela, no respeitante às níveas gambas apenas temperadas com sal grosso. Embora as prefira desse modo numa abertura de refeição, caso surjam fritas em bom azeite de imediato as acolho gulosamente, venham ou não na companhia de arroz simples ou composto, esparguete ou cuscos.

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Um amigo meu fervoroso amante das gambas brancas, quando come peixe solicita ao cozinheiro o favor de o acolitar com tais gambas e suplemento de gotas de limão. O resultado é excelente, pratica-se o pecado da gula (estamos na Quaresma) e cumpre-se o preceito da observância do peixe em detrimento da carne.

Branco gambeiro

Das múltiplas escolhas líquidas a podermos beber acompanhando gambas ressaltam os vinhos brancos, por isso mesmo da chancela TEJO escolho o branco em tons de pastel brilhante no copo de prova, exalando aromas cítricos e boa harmonia com o amanteigado da casta Chardonnay que lhe dá corpo e suavidade num enlace feliz com a casta Fernão Pires.

As famosas gambas brancas cozidas na perfeição espalhadas numa travessa tendo como único tempero sal grosso ainda nos transmitem mais sapidez quando se honram bebendo um vinho de bom porte, de bom beber, denotando elegância e frescura, é o caso deste ribatejano colheita de 2017 (reserva), com 13.º de graduação. Experimente o leitor e faça o favor de obter gostoso prazer palatal, daí abster-se de enumerar as virtudes do seu clube e do seu partido político.

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