Futebol | Fernando Rosado, o treinador do Pego que veio do “meio das oliveiras” para os grandes palcos do futebol

Fernando Rosado é treinador do Pego. Em entrevista fala-nos do seu percurso emquanto jogador e treinador e da sua visão do futebol. Foto: DR

Quando tem inicio a fase final da 2º divisão distrital da AF Santarém, Fernando Rosado, 59 anos, natural de Alferrarede e treinador do Pego, fala-nos um pouco sobre o seu percurso enquanto jogador profissional de futebol ao mais alto nível, e do início de um percurso que começou com os primeiros chutos na bola no meio da estrada alcatroada e no meio das oliveiras, até chegar ao Sporting.

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Rosado contou as oportunidades que agarrou e também os arrependimentos de uma carreira recheada, que viria a ter o seu término aos 34 anos, quando decidiu arrumar as chuteiras e dedicar-se a dar continuidade ao negócio dos seus pais. Atualmente é o treinador da Casa do Povo do Pego e deixa garantias aos adeptos e sócios do clube para a reta final do campeonato de honrar e dignificar o clube que representa. A subida à 1ª divisão distrital está na mente de todos e, para já, somaram três pontos na deslocação a Riachos.

Fernando Rosado, atual treinador do Pego. Foto: DR

B.I

Nome: Fernando Carlos Alves Rosado

Data de Nascimento: 30-10-1959

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Naturalidade: Alferrarede

Clubes que representou enquanto jogador: Dragões de Alferrarede, Sporting Clube de Portugal, Benfica Castelo Branco, Académica de Coimbra, Ginásio de Alcobaça, Vizela, Penafiel, Gil Vicente, Famalicão.

Clubes que representou enquanto treinador: Alferrarede, Mação, Alcaravela, Pego.

Fernando Rosado é atualmente o treinador do Pego. Foto arquivo: mediotejo.net

Entrevista:

mediotejo.net: Quando é que descobriu a sua paixão pelo futebol?

Fernando Rosado: Qualquer miúdo gosta de futebol, eu comecei aqui no meio da estrada alcatroada e no meio das oliveiras, a jogarmos uns contra os outros. Houve um senhor que me convidou para ir jogar futsal aqui pela minha terra, num torneiozinho de verão aqui em Abrantes, e tinha de pedir autorização ao meu pai. O meu pai deu autorização a esse rapaz e a partir dai começou o bichinho pela bola. 

Quais as razões para querer seguir uma carreira de treinador?

Quando vim de Famalicão e cheguei aqui a perspetiva foi de acabar mesmo com o futebol. Eu tenho o vicio da caça e a minha paixão sempre foi a caça e, ao vir para aqui, era para me dedicar ao negócio e aos domingos ir à caça descansadinho. A minha terra ao convidar-me para ser treinador, eu como tinha o curso (1º e 2º nível) fui. Fui treinador a partir dai e continuou esse bichinho até agora. 

Quais as principais diferenças entre ser treinador e jogador?

É diferente. A exigência física é muito diferente, para ser jogador de futebol a nível profissional é uma exigência tremenda, tem de haver descanso, tem de haver treino contínuo, enquanto aqui a nível distrital tem de haver treino, é verdade, mas é só duas ou três vezes por semana que a rapaziada treina, aqui a exigência não é tão grande. Também temos de reconhecer que 99.9% dos atletas trabalham ou estudam. É diferente de ser profissional. As exigências têm de ser diferentes. Há atletas que deixam o treino e têm de ir trabalhar ou vêm do trabalho e têm de ir treinar, não é fácil quando isso acontece. Mas mesmo assim cá estou a treinar a Casa do Povo do Pego, com muito gosto.

Com certeza uma das coisas que é transversal aos jogadores e aos treinadores é o sabor das vitórias, existe alguma vitória ou algum titulo que tenha tido um sabor especial?

Como jogador foi o facto de ter sido internacional, foi o topo. Tive um convite que me honrou bastante naquela altura que foi o Sporting Clube de Braga, eu era jogador do Vizela na altura, treinávamos todas as semanas contra o S.C.Braga e o Braga convidou-me para ser atleta do clube. O meu treinador era o José Romão no Vizela. Só que o José Romão ia para Penafiel para a 1ª divisão e eu quando fui falar com o presidente do Braga na altura fui com o José Romão, levei-o comigo. Íamos no carro e ele ia-me a dizer: “Fernando, não me deixes ficar mal”.

O “não deixar ficar mal” era não ir com ele para Penafiel e talvez tenha sido esse o meu grande erro ao nível do futebol. Foi não ter seguido o sonho de ser um grande jogador, porque eu era um jogador muito jeitoso, não era super, mas era um jogador jeitoso. Era aplicado, dedicado, nunca bebi, nunca fumei, era uma coisa a sério, descansava bastante, levava as coisas a sério e a partir desse momento, infelizmente, fiquei limitado.

O Braga era um clube acima da média, era um clube onde eu podia expandir mais ainda os meus horizontes, mas não aconteceu, paciência. Como treinador, com orgulho por todas as equipas por onde passei fiz um trabalho razoável. Em Alferrarede subi, em Alcaravela fiz a melhor classificação de sempre, em Mação ganhei a Taça do Ribatejo e orgulho-me de treinar a minha terra na INATEL. O meu filho convidou-me, era o diretor da secção desportiva do centro cívico de Alferrarede Velha, e ele convidou-me. E fui com muito gosto ser treinador aqui da minha terra. Com grande orgulho, julgo que a minha terra viveu aqui durante 4 ou 5 anos o futebol como ninguém, levávamos quase sempre 100 pessoas a todo lado, era fantástico. Foi muito bonito.

A partir de agora é tentar a melhor classificação possível para a Casa do Povo do Pego, o primeiro objetivo, aquele a que nos propusemos, era os 3 primeiros lugares e estamos. Agora vai entrar na fase final e vamos tentar dignificar a camisola que representamos para que todos os sócios, diretores sintam orgulho nos atletas e nos treinadores que têm, é esse o nosso objetivo, depois no final o resultado logo se verá.

Conheceu uma outra realidade do futebol, num nível competitivo bem mais elevado do que aquele em que compete atualmente? A forma de trabalhar também é diferente ou mantém-se idêntica?

É lógico que sim, uma pessoa vive tendo 100% de disponibilidade para treinar e depois chegando aqui, com quase todos os atletas a trabalharem ou a estudarem é muito difícil de nós aplicarmos qualquer método de trabalho que não seja preocupar-se com o trabalho do atleta. Não podemos dar uma carga muito excessiva porque sabe-se que ele a seguir vai trabalhar e vai talvez sair às 8 horas da manhã, é muito complicado, é difícil de gerir.

Eu reconheço que não tenho aptidão para treinar fisicamente, porque nunca tirei o curso de preparador fÍsico. Mas a nível de futebol tenho uma boa visão. Para um bom treinador três ou quatro vertentes são fundamentais, a parte física, onde na minha opinião tem de ser um homem com capacidade para tal, a parte psicológica, e a parte técnica ou tática. Com tudo isto englobado penso que se dá uma boa equipa técnica e é a partir dai que se pode tirar dividendos dela. 

Fernando Rosado, treinador CP Pego (foto: mediotejo.net)

Enquanto treinador, é fácil perceber que a alegria advém das vitórias conseguidas, mas durante o jogo, o que é que menos gosta que aconteça, o que é que o deixa mais fora de si?

O que me tira mais do sério é por vezes dizermos a um atleta para fazer determinadas coisas e ele não fazer. É lógico que por vezes muitos dos treinadores é com os árbitros, qualquer lance que não apitem, mas quando um atleta não cumpre aquilo que nós pedimos é sem duvida nenhuma aquilo que me chateia mais. 

Ser jogador ou treinador? o que prefere?

De longe que é ser jogador, de longe. Quando andávamos lá dentro dávamos tudo o que tínhamos e eu era terrível, tinha uma grande capacidade física, se fosse preciso fazia 1 ou 2 jogos seguidos e sempre a trabalhar para que todos os atletas vissem a minha dedicação e o meu empenho. Nisso foi até aos 34 anos, sempre a fazer o mesmo tipo de trabalho e toda a gente se pode orgulhar onde eu passei, todos falam bem de mim porque toda a minha dedicação era para o clube. 

Que mensagem procura transmitir aos seus jogadores para os manter sempre motivados? Mesmo aqueles que não jogam tão regularmente.

Isso é muito difícil de gerir. Aqueles atletas que não jogam assiduamente é complicado. Numa equipa com objetivos propostos, ainda por cima que quer tentar subir de divisão, qualquer treinador do mundo o que é que pretende? É ganhar. É o objetivo. E os objetivos são ganhar. E nós sabemos que, como em tudo na vida, há uns melhores que outros e, para nós conseguirmos ganhar todos os jogos ou o maior numero de jogos possível, temos de pôr os melhores e por vezes pondo outros não tão bons.

Mas o objetivo é e sempre será apoiar aqueles que estão bem e dar um apoio extra aqueles que não jogam tanto, acarinhá-los e dizer que vamos tentar pô-los, para que também se possam sentir bem e aguentar uma época inteira a treinar e a jogar. 

Como treinador e ex-jogador existe algum jogador de futebol que seja o seu ídolo? Existe algum treinador em quem se reveja?

Sou sincero, antes era o Eusébio e, atenção eu nem sou do Benfica, sou sportinguista, mas o Eusébio marcou em Portugal, sem dúvida nenhuma, todo o futebol. Agora quem já superou tudo isso foi Cristiano Ronaldo. Tecnicamente houve grandes jogadores, Maradona, Messi, Cruyff, tudo isso são topo de gama. Quanto ao treinador, sem dúvida nenhuma, não só pelo seu feitio, mas pelo que tem feito de tão bem, José Mourinho é português e tem um currículo fantástico.

Qual a sua opinião sobre o futebol actual no campeonato distrital do distrito de Santarém?

Em Santarém as coisas estão a melhorar na minha opinião, tanto a 1ª como a 2ª divisão estão a melhorar, e basta reparar que os campos pelados estão quase a acabar, tudo isso melhora o futebol. É pena que no concelho de Abrantes, por ser nomeadamente onde eu estou, não haja uma equipa de formação no nacional, isso preocupa-me bastante. Não entendo como é que se pode investir tanto e não haver um resultado, espero que este ano se consiga ir para um nacional.

Mas acho que a Associação de Futebol de Santarém está a fazer um bom trabalho e há-de continuar a fazê-lo, porque merecemos todos aqui no distrito de Santarém ter boas equipas e bons jogos, é esse o meu desejo.

Fernando Rosado é o treinador do Pego. Foto: mediotejo.net

No seguimento da pergunta anterior, como avalia o nível de competitividade do distrito? Como se poderia melhorar a competição?

Para melhorar a competição tem de haver melhores equipas, mas para haver melhores equipas tem de se gastar dinheiro e o aspeto financeiro em qualquer equipa é fundamental. É lógico que as câmaras não podem exceder os apoios comunitários para as equipas, não podendo exceder é muito difícil para qualquer equipa com os pequenos apoios que há, porque a crise é grande a nível financeiro e as empresas não têm muito para dar, e para haver muito melhores equipas. Quantas mais boas equipas houver melhor o campeonato se torna por isso é que há sempre duas ou três acima da média e, são essas que tentam subir para o Campeonato de Portugal.

Aqui, num nível mais pequenino, mais regional, as equipas que se organizam melhor, as que têm maior poder financeiro, são as que atingem o êxito, vou nomear aqui o Benfica de Abrantes que está a fazer um excelente trabalho, o Pego está a fazer um bom trabalho, o Tramagal agora na parte final está também a fazer um bom trabalho, o Sardoal está muito difícil de gerir, porque é sempre muito difícil de gerir quando não há (dinheiro). Quando há um máximo de organização e de rigores, os objetivos aparecem. 

Quais são as principais dificuldades que um treinador de uma distrital atravessa?

Muitas. Falta de condições, luz, materiais e equipamentos. Felizmente o Pego está a dar tudo o que tem. Fantásticos até ao momento, não posso dizer o contrário, sempre a 100%. Mas eu sei de equipas que têm muita dificuldade a nível de tudo e os resultados para se atingirem tem de ser do 1º até ao último momento sempre a dar tudo, só assim se obtêm os resultado.

Como se ultrapassam as dificuldades para ter a equipa na máxima força para o jogo ao fim-de-semana?

É fundamental a parte física, tudo se torna mais fácil. Com vitórias melhor ainda, é esse o grande segredo, é as vitórias. A parte física também é importantíssima, não tendo um bom preparador físico para que os atletas mantenham o nível exibicional físico, é difícil.

Quais os objectivos do clube para o que resta da época?

A melhor classificação possível, o que deixo é a minha palavra de que os atletas e equipa técnica tudo irão fazer para levar a Casa do Povo do Pego àquilo que merece. 

Com certeza que deseja que a equipa regresse à competição com vitórias. O que esperar da equipa já no próximo domingo?

Sempre preparados para ganhar.

*(Depois desta entrevista o Pego foi vencer a Riachos por 0-2).

Fernando Rosado conquistou a Taça do Ribatejo para o Mação. Foto: DR

Que mensagem gostaria de deixar aos adeptos?

Que apareçam e que ajudem, que nós cá estamos para levar a bom porto a Casa do Povo do Pego até aos objetivos propostos.

Qual o seu lema de vida?

Trabalhar.

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