“Fumeiros”, por Armando Fernandes

Foto: DR

Não tardam a rebentar tal como rebentam as alheiras quando o lume vivo as faz irromper em bolas de massa, as feiras e festas dedicadas ao fumeiro. Porque onde há tripas há fumeiro, Portugal ao exemplo de outras Nações é um País de fumeiros, desde o Norte e Trás-os-Montes ao Algarve, sem esquecer os Açores e a Madeira.

PUB

O homem primitivo depressa entendeu as virtudes das tripas utilizando-as para transportar água, após ter sabido criar e dominar o fogo colheu enorme satisfação porque permitiam e permitem trabalhá-las nas várias cozeduras dando azo a inúmeras receitas culinárias, mas acima de tudo serem suporte de toda a casta de enchidos porque são impermeáveis, elásticas e aptas a serem fumadas.

Ora, a fumagem de alimentos nos primórdios constituiu preciosa reserva de alimentos, sobressaindo os chouriços de massa, caso das alheiras, dos azedos, das tabafeias, das farinheiras, das morcelas, numa ampla diversificação de composições cujos nomes variam de terra para terra, de região para região. O mesmo acontece no tocante às carnes, ali chouriças, aqui linguiças, além paios no Alentejo, paiolas na Beira Baixa, salpicões no Norte e na província transmontana que também conta com os refundados butelos, sem esquecer as Beiras e por aí adiante.

Longe de esgotar as designações recordo que na Douro Litoral, na Estremadura, no Ribatejo, são confecionados enchidos de grata qualidade tendo tal como nas restantes regiões o porco como elemento primacial no tocante a matéria-prima. O porco, o generoso porco, é sem possibilidade de contestação o elemento primacial do fumeiro português.

Sim, existem outros produtos envolvidos em tripas, caso dos maranhos, dos negalhos, das salsichas de outras espécies, os enchidos de origem vegetal, sem esquecer os «salpicões de marisco, de beterraba e outras insólitas inovações cujo exemplo trago à colação, as alheiras de bacalhau, uma invencionice aparecida numa Feira de fumeiro em…Mirandela. Ao tempo critiquei vivamente tal invencionice, não devido às críticas, sim em virtude da fraca aderência dos consumidores a balela de bacalhau deixou de ser mencionada.

PUB

As feiras do fumeiro ocorrem maioritariamente nos meses de Janeiro e Fevereiro, nessas ações de festança e bródio podemos ver e apreciar quão significativa é a mudança nos padrões de consumo alicerçada na possibilidade de os visitantes poderem degustar tais maravilhas gustativas no local instalados confortavelmente e em boas condições de higiene.

Não entra nesta crónica a enunciação dos muitos acompanhamentos entendidos pelo costume como propícios a este ou àquele enchido, todos sabem da indicação de grelos e batatas fritas e ovos estrelados para as alheiras, porém as mesmas são muito apreciadas no pequeno-almoço das populações rurais, já as plebeias farinheiras são delícia a toda a hora e momento nas terras ribatejanas.

Na última refeição consagrada a alheiras e chouriças de carne escolhi o tinto Quinta do Côro, elaborado com uvas das castas Touriga Nacional e Syrah, colheita de 2016. Pleno de densidade, elegante e soltando estridências a fruta madura e algum mineral, este vinho concedeu excelente réplica às alheiras contribuindo para menear negativamente a cabeça quando li o resultado das análises. Não é só bem-aventuranças!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here