Ferreira do Zêzere | São Pedro do Castro: romaria à ermida que nem o fogo ousou profanar

Ermida construída no sec.XVIII é um dos monumentos históricos de Ferreira do Zêzere, testemunho das tradições das gentes ribeirinhas do interior do país Foto: mediotejo.net

Este domingo, 5 de maio, decorre na freguesia de Ferreira do Zêzere, no concelho com o mesmo nome, a tradicional romaria da aldeia de Pombeira a São Pedro do Castro, uma ermida localizada no cimo de um morro sobre o rio Zêzere, a cerca de cinco quilómetros de distância. Em 2017, quando as chamas invadiram toda a região, o povo chegou a dar a centenária ermida, classificada como imóvel de interesse público, como perdida. Ardeu tudo em volta, menos a oliveira adjacente e a própria ermida, que nem chamuscada ficou. Milagre? O povo tem as suas crenças. Hoje, no espírito em voga das caminhadas, retoma-se o percurso a pé, subindo e descendo os montes por entre a serra e o vale ribeirinho, vivenciando-se o lado mais puro do conceito de romaria. Um misto de fé e tradição que imprime identidade a uma comunidade isolada, mas viva. 

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O fogo passou por aqui. O verde tornou a pintar a paisagem serrana cortada pelo vale do rio Zêzere, de um extraordinário azul turquesa, mas é evidente que as chamas deixaram marca, com a vegetação ainda a rebentar entre o eucaliptal sobrevivente e algumas ruínas pelo percurso a confirmar os acontecimentos trágicos de há dois anos. No inícios de maio, o calor aperta e o cantar dos grilos e das cigarras confunde-se com o vibrar longínquo das máquinas agrícolas e motoserras.

O percurso é sinuoso, em terra batida e brita, e um carro baixo e pequeno facilmente sente os pneus derrapar nas subidas mais íngremes, com direito a arrepios gelados pelo corpo acima ante o declive acentuado, serra abaixo – e até ao rio, em caso de despiste. A estrada não é estreita, mas a técnica de condução nem sempre é a melhor para quem vai habituado a estradas de alcatrão.

No cimo de um monte, rodeado pelo Zêzere, a ermida foi em tempos um local de fuga da vida das tentações terrenas Foto: mediotejo.net

Estamos a cerca de oito quilómetros (a acreditar no GPS do Google Maps) da vila de Ferreira do Zêzere, sede de concelho. Procuramos a ermida de São Pedro do Castro. A aldeia de Pombeira, a poucos quilómetros do local, celebra neste fim de semana a sua tradicional festa popular na estrutura, evento que, noutra época, chegou a ser o mais importante do ano. Hoje resume-se a mais uma data no calendário de festejos locais, ainda que mantenha associado um conjunto de práticas e tradições, assim como uma história que a comunidade procura manter na memória das novas gerações.

“Quem desconhece o passado, perde-se com facilidade no presente”, dir-nos-á algumas horas depois da subida ao morro Maria Madalena Henriques, da Comissão de Festas de Pombeira e grande interessada na história do monumento. O comentário, realizado noutro contexto, aplica-se a esta reportagem.

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No isolamento característico do concelho de Ferreira do Zêzere – assim como de outros locais espalhados pelo país com características naturais propícias à contemplação – a ermida traduz uma vivência que toca a busca pelas graças do céu ante as agruras da vida terrena. Mas também nos oferece um mapa do território e uma noção mais objetiva do impacto que as forças da natureza e o desenvolvimento da tecnologia tiveram nestas populações, assim como os esforços dos que ficam, face ao êxodo migratório, pela manutenção de uma identidade comum.

Foto: mediotejo.net
Foto: mediotejo.net
A paisagem sobre a serra e o rio Zêzere é o grande ponto forte deste local, que possui um parque de merendas Foto: mediotejo.net

Do cimo de São Pedro do Castro contempla-se o exuberante rio Zêzere, sulcando em curvas e contracurvas os montes ainda em recuperação da serra, e a ponte que uniu há algumas décadas as duas margens (dois concelhos, dois distritos) separadas pela construção da albufeira de Castelo do Bode. Hoje, todo o adro da capela se encontra requalificado, calcetado e com aparente esforço de manutenção, sendo também dotado de um parque de merendas.

Aqui já não vivem eremitas, mas facilmente se percebe a escolha do local para tal vida. Noutros tempos, facilmente passar-se-iam semanas sem por aqui passar vivalma, tal o afastamento do mundo e esforço ante a subida íngreme até ao topo. Hoje, por diferentes razões, com o interior esvaziado de habitantes e com menos vida comunitária, talvez seja possível acontecer o mesmo.

Depois de alguns receios infundados no percurso, é com alguma surpresa que, chegados ao cimo, encontramos, alegremente a almoçar no parque de merendas, sobre a sombra agradável das oliveiras, um grupo de espanhóis a fazer, ao que nos explicam, uma aventura de jipe pelo país. Não sabem como ali chegaram e não têm bem a noção como voltar à rota definida para o dia. O destino é a Figueira da Foz, passando por Coimbra.

– Não sabemos bem onde estamos. Vimos o vale, o rio, e a ermida aqui em cima. Decidimos subir e visitar. É muito bonito. Agora é saber como voltar para trás…

Explicamos que este é o Zêzere, afluente do Tejo (Tajo do outro lado da fronteira), e estamos em Ferreira do Zêzere, região do Médio Tejo, sendo esta uma ermida dedicada a São Pedro que se prepara para receber os festejos tradicionais no próximo domingo, 5 de maio. No “portunhol” comum às duas nações, está feito o contexto da paragem, que parece ter compensado a visita.

São Pedro do Castro Foto: mediotejo.net
Estrutura rústica de traços góticos, foi construída com restos de edificações romanas Foto: mediotejo.net
Festa a São Pedro decorre este ano a 5 de maio Foto: mediotejo.net

Fora a presença de nuetros hermanos, por aqui apenas se encontram abelhas e pássaros. A capela encontra-se fechada, à semelhança das congéneres do país. O estilo rústico toca o gótico. A página eletrónica da Direção-geral do Património Cultural (DGPC) avança que a estrutura original será datada do século XV, incorporando elementos no seu interior de vestígios de edificações deixadas pelos romanos.

Ao seu redor, a população de Pombeira já começou a montar a estrutura que vai albergar as festas de domingo, havendo também um palco e mesas. O espaço encontra-se extremamente bem cuidado e limpo. Posteriormente sabemos que, ao longo das décadas, a Comissão de Festas de Pombeira tem utilizado as receitas dos festejos na recuperação da ermida e respetivo adro. O templo, integrado na Paróquia de Ferreira do Zêzere, é assim ainda e sempre um património da comunidade, que por ele tem zelado para que resista à decadência dos costumes e da própria religiosidade.

O programa, colado numa porta junto ao espaço reservado ao Bar, avança que a animação começa logo pelas 09h00. A missa solene decorre pelas 13h15, seguindo-se a procissão com a Filarmónica de Ferreira do Zêzere. Pelas 15h00 há atuação de TS Duo.

A festa irá decorrer até ao pôr-de-sol, ou até quando a vontade o ditar.

Afastada da povoação de Pombeira, São Pedro do Castro foi um antigo espaço de peregrinação Foto: mediotejo.net

Uma festa identitária entre o sagrado e o profano

Pelo menos assim costuma suceder. Maria Madalena Henriques constata que a vivência da festa depende em parte das condições climatéricas, não obstante esta todos os anos ter bastante afluência. Há quem venha a pé da vila de Ferreira do Zêzere até São Pedro do Castro e encontram-se visitantes das localidades limítrofes. Noutros tempos era um momento importante de socialização e religiosidade, onde o sagrado e o profano de alguma forma se encontravam, recorda. Hoje as tradições revestem-se de outras cores e formatos, dependendo das características de cada ano.

Formada em História, Maria Madalena Henriques é neta de um antigo zelador da ermida, dos inícios do século XX. A narrativa da capela é-lhe assim muito próxima, assim como as lendas que a ela se associam, entre outros episódios que marcaram a edificação do lugar.

A estrutura, recorda, terá em tempos albergado um “castro” (edificado de defesa) dos lusitanos, posteriormente ocupado pelos romanos que aí terão construído uma fortificação, dado a localização estratégica. Não obstante a página da DGPC apontar a construção da capela católica no século XV, Maria Madalena acredita que a estrutura terá sido erguida um pouco mais tarde, no século XVIII. O facto, comum a ambas as narrativas, é que a imagem de São Pedro no seu interior é uma escultura do século XV.

Maria Madalena Henriques é neta de um antigo zelador da ermida e integra a Comissão de Festas de Pombeira Foto: mediotejo.net

“Sabemos que lá viveram eremitas”, refere, mas não é sabido quantos ou qual a sua proveniência. No período pré-industrial uma praga de gafanhotos terá ameaçado as culturas da zona, o que conduziu os populares de Pombeira a fazer uma promessa a São Pedro do Castro, pedindo a sua intervenção. Assim terá surgido a romaria, narra Maria Madalena Henriques, como forma de agradecimento pelo desaparecimento dos insetos.

Nos séculos XIX/XX, a capela já se encontrava sobre a responsabilidade da aldeia de Pombeira, havendo zeladores que cuidavam do espaço. “Até aos anos 60, nessa romaria, as pessoas levavam tudo às costas. Foi o meu tio que construiu o primeiro reservatório de água no local”, adianta. Só depois do 25 de abril a capela seria dotada de água canalizada.

Por alturas da revolução dos cravos, porém, as festividades em torno da estrutura encontravam-se algo abandonadas. Maria Madalena Henriques recorda que foi o entusiasmo de um retornado de Angola, José Maria da Silva, que reativou o espírito do lugar e que conduziu a que se criassem as comissões de festas originais, que hoje integra.

No decorrer do tempo, o significado da romaria também mudou. No Estado Novo este era um momento em que as jovens solteiras organizavam um serviço de comidas e bebidas (bolos, café, capilé) aos romeiros, e, com a receita arrecadada, investiam no enxoval. O percurso até ao cimo do monte era realizado com os farnéis à cabeça, sendo este um esforço das jovens casadoiras que oferecia uma espécie de serviço de bar à moda antiga. As celebrações eram então essencialmente religiosas, mas a festa entendia-se para além da data, com bailes na aldeia de Pombeira.

Aquando a visita do mediotejo.net a capela encontrava-se fechada, mas o adro já estava a ser preparado para receber os festejos Foto: mediotejo.net

Hoje, conta Maria Madalena, este serviço de bebidas ainda é recriado, num espaço designado de “botequim”, entre a capela e o bar, servindo-se anda o capilé, uma bebida caramelizada típica desta região. Mantém-se também o leilão da “fogaça”, uma cesta com oferendas várias para arrecadar receitas, embora este ano não se vá realizar, adianta. Acresce a música e o restaurante, onde o frango assado é o prato principal. Já os festejos mantém-se essencialmente no primeiro domingo de maio, embora existe atualmente uma outra festividade na capela, por alturas do São Miguel, em setembro.

Este “é um sítio muito acarinhado, porque tem uma beleza ímpar, onde há comunhão com a natureza”, constata Maria Madalena. Chegou-se a temer o pior nos incêndios de 2017. Todo o monte estava a arder, só se via fumo por todos os lados, e correu a notícia que a ermida tinha ficado destruída. De forma inesperada, as chamas pararam à porta da capela, que nem chamuscada ficou, refere, embora o seu interior tenha ficado coberto das cinzas que entraram pela janela.

Hoje, a paisagem recupera, resgatando a beleza capturada pelos desenhos de Alfredo Keil, que por estas paragens fez registo da sua presença. A inesperada sobrevivência da capela será um daqueles mistérios que tem por certo algum tipo de explicação científica, mas cuja beleza e majestade do lugar nos fazem desejar que fiquem pela narrativa da superstição. Cumes como este pertencem aquela linha ténue entre o céu e a terra, que dão azo à imaginação e constroem toda a alma de uma comunidade.

Pombeira tem parte do seu espírito em São Pedro do Castro e vai tornar a celebrá-lo neste Dia da Mãe.

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