Ferreira do Zêzere | Problema da vespa asiática está a cair nas costas das Câmaras

Associação de Apicultores do Centro refere que situação no interior ainda não é preocupante, com a vespa a concentrar-se mais no litoral Foto: mediotejo.net

A questão é nacional e extravasa o âmbito meramente agrícola, mas o problema da vespa asiática (velutina) parece estar a cair no encargo das Câmaras Municipais, que, nomeadamente na zona centro, se surpreenderam no último ano com um elevado número de vespeiros nos seus territórios, mortes significativas de colmeias e a incapacidade dos apicultores, muitos de nível amador, de darem resposta à situação. No geral, este é o “estado da arte” do problema, discutido em Ferreira do Zêzere no sábado, 2 de março.

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Há quem considere ser este um caso de saúde pública, mas não está definido como tal a nível nacional. Será uma questão que se aproxima perigosamente do foro ambiental, mas está entregue ao Ministério da Agricultura. Há indicações do Ministério da Agricultura para lidar com a praga, mas não definem com transparência e devida regulação qual deve ser o papel dos municípios e quais os mecanismos de intervenção. No desespero, e face à proliferação de ninhos, são as Câmaras Municipais que estão a intervir, contratando empresas privadas de extermínio para procurar minimizar os impactos da vespa asiática.

Inserida no mês da Proteção Civil, a sessão sobre a vespa velutina na Câmara de Ferreira do Zêzere contou com a participação de cerca de duas dezenas de pessoas, inclusive autarcas de outros concelhos. A abrir os trabalhos, o Comandante Municipal da Proteção Civil, Pedro Mendes, recordou que em 2016 se organizou sessão semelhante, numa altura em que a vespa já andava pelo norte do país a causar estragos mas ainda não tinha impacto significativo na zona centro.

“Há muita gente a dar palpites, mas não se definem responsabilidades”, constatou o responsável, que desde 2011, quando a vespa velutina foi registada em Portugal, procurou ir acompanhando o problema. “Há muita desinformação e muita confusão”, afirmou.

Sessão sobre vespa asiática em Ferreira do Zêzere. Presidente da Associação de Apicultores do Centro, Nelsi Reis.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 2 de março de 2019

Presente na sessão, o presidente da Associação de Apicultores do Centro de Portugal, Nelsi Reis, referiu que se tem procurado fazer um trabalho de sensibilização com as autarquias. O representante constatou as dificuldades que se têm encontrado em lidar com o problema e o seu impacto direto na apicultura (a vespa asiática alimenta-se abundantemente de abelhas).

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A exposição ao público esteve porém a cargo da empresa privada “Enxame d’Abelhas”, que se encontra a trabalhar com o município ferreirense. Aos presentes foi explicado o ciclo de atuação da vespa asiática, as suas características e mostradas algumas armadilhas mais caseiras para captura, assim como algumas técnicas para identificação de ninhos que os responsáveis têm procurado ir aprender com o exemplo asiático.

Foi ainda comunicado que já foram encontrados ninhos em silvados, mais próximos do chão, embora a prevalência seja a 30/40 metros. A zona mais complicada no centro do país tem-se registado por Leiria, mas a tendência é a vespa vir para sul, tendo já sido identificada em Portalegre. A vespa está também a entrar nos núcleos urbanos, onde há proteção e calor.

Atualmente – embora com as condições certas a vespa esteja sempre a criar e o ciclo nunca pare – estará a viver-se até maio a primeira fase de instalação dos vespeiros, depois do período de hibernação de inverno. As vespas constroem um ninho primário e alimentam-se sobretudo de açúcares. É nos meses de verão que elas se tornam mais ativas, os ninhos atingem proporções gigantescas e há um consumo elevado de abelhas.

Esta vespa é carnívora, alimenta-se de frutas suculentas e insetos, e o ecossistema europeu não está preparado para ela, não existindo predadores naturais. Há ainda registo, conforme foi evidenciado, de ataques da vespa a animais, nomeadamente a morte de cavalos na Golegã.

Equipa da Enxame d’Abelhas mostrou algumas armadilhas para vespas, feitas nomeadamente com garrafas de plástico Foto: mediotejo.net
sessão reuniu cerca de duas dezenas de pessoas Foto: mediotejo.net

A equipa deixou ainda alertas para os ataques de vespa asiática a seres humanos, uma vez que esta, quando se sente ameaçada, pode perseguir a pessoa até 500 metros. Nestes casos, a atitude ideal será imobilizar-se, tipo “estátua”, uma vez que não sentindo movimento as vespas desistem.

Ferreira do Zêzere só registou a existência de ninhos em 2018, foi mencionado, sendo que foram poucos até ao momento. Os incêndios de 2017 terão ajudado à dispersão da vespa para outros territórios, mas também a sua vinda mais para sul (embora a vespa tenha preferência pelo litoral, onde há mais água).

Da parte do público foi questionado se não deveria ser o município a intervir de forma mais alargada, apostando-se em ações de combate e sensibilização, em vez de se contratar uma empresa privada para eliminar os ninhos que aparecem. As observações foram contestadas por Pedro Mendes, que explicou que os municípios não têm competências para intervir, estando a atuar devido ao avançar do problema.

“Em termos governamentais nada está definido”, referiu, sendo que desde 2011 se pedem medidas mais concretas ao Ministério da Agricultura.

Também o vereador Hélio Antunes interveio, constatando que, “sendo um problema nacional devia haver uma campanha nacional, com orientações”, eventualmente publicidade na televisão para alertar a população. No cenário atual, “cada um dos municípios está a tentar resolver o problema” à sua maneira. No final, “todos ralham e ninguém tem razão”.

Hélio Antunes afirmou, porém, que teria em conta todas as queixas deixadas pelos presentes. Já Nelsi Reis deixou o exemplo da Câmara de Tomar, que elaborou um folheto informativo sobre os cuidados a ter com a vespa asiática e respetivos contactos de apoio.

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