Ferreira do Zêzere | Leonel Rocha, o último dos artesãos: “sei como o acordeão nasce e como morre” (c/vídeo)

Grande dinamizador do acordeão no concelho de Ferreira do Zêzere e proprietário de um espaço de recuperação e construção artesanal deste instrumento tradicionalmente ligado ao folclore português, Leonel Rocha, 77 anos, conhece todos os mistérios de um instrumento que considera ser o mais completo de todos e que faz a sua entrada atualmente em géneros musicais mais eruditos, como a música clássica ou o jazz. 

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Fusão de vários instrumentos semelhantes, o acordeão tem origens na Alemanha, tendo sido aperfeiçoado em França e Itália durante o século XIX. A sua utilização em Portugal está sobretudo ligada ao folclore, mas gradualmente tem-se introduzido noutros géneros musicais, o que tem potenciado nos últimos anos o crescimento da sua divulgação e aprendizagem por novas gerações.

Neste percurso, Ferreira do Zêzere afirma-se na região com um papel particular de promoção do instrumento, com um Festival Internacional dedicado ao acordeão. A ideia partiu de Leonel Rocha, apaixonado pelo instrumento e um dos seus últimos grandes artesãos, a quem acorrem os grandes artistas.

Nos tempos que correm já poucos farão o trabalho ao qual se dedica Leonel Rocha, que restaura no seu atelier acordeões antigos, com todas as particularidades da complexa estrutura de fole e teclas e incrustação de peças na caixa que fazem destes instrumentos musicais autênticas obras de arte.

Um misto de fole, harmónica e piano, o acordeão e a concertina têm uma longa tradição na sua família, razão pela qual nasceu a sua curiosidade por perceber como funcionava toda a estrutura.

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Leonel Rocha criou o Atelier do Acordeon em 1982, quando regressou da Alemanha Foto: mediotejo.net

Tendo estado emigrado na Alemanha durante cerca de uma década, Leonel Rocha procurou nas fábricas de Itália o conhecimento técnico, de afinação e mecânico que lhe permitiram regressar a Portugal com contactos, a representação de uma marca italiana, a Accordiola (atual Mengascini) e o sonho de erguer uma fábrica de acordeões na sua terra, Ferreira do Zêzere.

Alguns episódios da vida política local, confessa, terão inviabilizado o projeto, não se tendo aberto as portas necessárias à concretização do objetivo.

Leonel acabou por estabelecer apenas o atelier que mantém até hoje, negócio com cerca de 35 anos, onde se dedica à restauração de acordeões antigos. Também chegou a fabricar de raiz, de forma totalmente artesanal, tendo espalhados pelo mundo mais de 30 acordeões da sua autoria.

Para o leigo que observa, são autênticas obras primas, repletas de pormenores. Um trabalho técnico que, admite, hoje tende a desaparecer, dados os custos de produção.

Exemplo de um restauro de Leonel Rocha, o antes e o depois Foto: Leonel Rocha

Qual o preço de um acordeão destes feito de raiz, totalmente artesanal?, indagamos. Leonel Rocha estima em cerca de 6 a 7 mil euros, mas constata que já não faz esse trabalho, demasiado demorado (cerca de seis meses, recorda), dedicando-se essencialmente ao restauro.

Em muitos casos chegam-lhe peças de família e de tradição, com grande valor sentimental ou emocional, por quem algumas pessoas não hesitam em gastar alguns milhares de euros.

Há oito anos, por intermédio do vereador da cultura da Câmara Municipal, Leonel Rocha promoveu o primeiro Festival Internacional do Acordeão. Foi a “semente”, recorda, na qual o município tem continuado a apostar. “O município está a fazer um excelente trabalho, era um crime deixar morrer isto”, argumenta.

O atelier do acordeão mantém-se como parceiro, encarregando-se sobretudo da programação. Este ano, o festival conta com alguns nomes consagrados na arte de tocar acordeão, incluindo os campeões europeu e do mundo.

“Há espaço para crescer”, acredita, até porque o acordeão vive um momento de desenvolvimento, sendo introduzido no conservatório e tocado inclusive em música clássica. O atelier dá aulas a 40 alunos e a família de Leonel Rocha participa em várias feiras e festivais de acordeão.

“é um poço sem fundo, há sempre coisas a descobrir (…) é um instrumento que tanto se toca em Portugal, como na Rússia, como na China”

“Na forja”, admite, está um projeto para um Museu do Acordeão, que reunirá todo o espólio que Leonel adquiriu ao longo dos anos, mas não avança para quando será possível ver concretizado a ideia. O sonho da fábrica ficará para os filhos, se assim o ambicionarem.

“Se tivesse 20 anos a menos, de certeza que ainda pegava nisto”, garante. Com clientes espalhados por todo o mundo e fortes conhecimentos em Itália, é um negócio que tem seguramente mercado e uma verdadeiro legado que deixa para os seus herdeiros.

Para Leonel, o acordeão “é um poço sem fundo, há sempre coisas a descobrir”, um instrumento muito completo, com uma grande abrangência musical. “É um instrumento que tanto se toca em Portugal, como na Rússia, como na China”, refere, e que a nível nacional tem muita aceitação.

Garante que se chegar um cliente com um instrumento “fecho os olhos e vejo o acordeão todo por dentro”, as pressões, as molhas, as teclas. Um trabalho feito por si, garante, é concretizado com material de primeira qualidade e com garantia, marca da seriedade da sua casa e da confiança que quer continuar a manter com os seus clientes.

“Sei como o acordeão nasce e sei como o acordeão morre, e sei o que lhe pode acontecer pelo caminho”, assegura.

Olhando para todo o seu percurso, constata que para realizar este trabalho é preciso verdadeira paixão.  Apesar disso, confessa, há muito que não toca. Faz-nos o gosto e vai buscar um acordeão – um Perle d’Or, marca da qual é representante exclusivo – e toca algumas pequenas modas, que ficam registadas no nosso vídeo.

Um momento que vivemos com nostalgia, não fossem estes os acordes desse Portugal que é o interior, feito dos bailes de verão e do regresso dos emigrantes à terra, com uma tradição musical rica e diversa que deve a apaixonados como Leonel Rocha uma história cultural que insiste em ser narrada.

Leonel Rocha representa em Portugal os acordeões da marca Mengascini, detendo em exclusivo a representação da Perle d’Or Foto: mediotejo.net

*Entrevista publicada em 2018, republicada em maio de 2019

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