Ferreira do Zêzere | Lagostim, a praga-iguaria que criou uma pequena economia (c/vídeo)

Até ao dia 28 de abril, Ferreira do Zêzere acolhe a 12ª edição do Festival do Lagostim do Rio, evento gastronómico que assenta arraiais em vários restaurantes, cafés e petisqueiras do concelho. Ao fim de mais de uma década, o conceito gastronómico parece ter criado fidelização de clientes de todo o país, que acorrem a este município ribeirinho para apreciar um crustáceo de água doce que há alguns anos tornou-se uma praga em várias zonas da albufeira de Castelo de Bode. Hoje não há mãos a medir para atender à procura. 

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Não existia lagostim no rio Zêzere. Elvira Carvalho, proprietária do restaurante “Fontes de Cima”, em Dornes, lembra-se que os lagostins apareceram a dada altura e agarravam-se às redes dos pescadores, causando problemas na pesca. Para todos os efeitos, são uma espécie invasora, uma praga.

E assim foram encarados até que em 2008 o município de Ferreira do Zêzere, tendo-se apercebido que o lagostim era considerado uma iguaria de luxo em países do centro da Europa, Ásia e América, decidiu criar um Festival Gastronómico, convidando os restaurantes a apresentar pratos de lagostim. Já lá vão 12 edições consecutivas.

O objetivo da época era controlar a praga e aproveitar para desenvolver a economia da região e o evento gastronómico foi lançado então sob o sugestivo mote: “Se não podemos vencê-los, vamos comê-los”.

Elvira Carvalho faz sucesso com o seu prato de açorda de lagostim Foto: mediotejo.net

Uma década passada, Elvira Carvalho confessa que já chegou a recusar grupos, tal a procura da iguaria, que confeciona todo o ano. Levanta-se pela manhã e ela própria vai ao rio pescar os lagostins, servidos frescos aos clientes. À açorda de lagostim criada inicialmente para o Festival, juntaram-se outras ideias, como os lombinhos com miolo de lagostim, os crepes, os rissóis e as queijadas.

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Na teoria só se come a cauda do crustáceo, mas há quem coma a cabeça e até a carapaça. A cor laranja fogo dos lagostins sob a paisagem do rio e a mística de Dornes abrem o apetite para a aventura. No final, chupam-se os dedos.

Consomem-se por ano em Ferreira do Zêzere quatro toneladas de lagostim do rio, adiantou o vereador Hélio Antunes ao mediotejo.net, sendo que os restaurantes têm de ano para ano apresentado “inovações extraordinárias” ao nível da oferta gastronómica. Para além do impacto económico que obteve com o Festival, com uma grande procura nos últimos anos, o município conseguiu também controlar a praga.

“É perfeitamente visível”, constatou, sendo que os banhistas já não sentem os crustáceos quando vão ao rio e os pescadores têm uma utilidade a dar ao animal. “Diminuiu muito”, porém “não está em vias de extinção, nem perto disso. Ainda há muito lagostim e continua a ser pescado em grandes quantidades”.

Hélio Antunes salienta as inovações gastronómicas que os restaurantes de Ferreira do Zêzere têm desenvolvido devido ao Festival do Lagostim do Rio Fotos: mediotejo.net

O lagostim é a única espécie que pode ser pescada no rio Zêzere durante todo o ano, sendo que é por esta época que se encontra em melhores condições para ser consumido. A grande procura fez com que o Festival se alargasse às Tascas e Petiscos, com o lagostim a saltar das ementas dos restaurantes para o petisco no café, servido ao balcão.

Elvira Carvalho não poupa elogios à iniciativa, apontando também o impacto que a vitória de Dornes no programa 7 Maravilhas teve para o turismo local. A zona é tranquila no inverno, mas chegando o sol surgem os turistas, sobretudo no fim de semana. Na sua casa procura-se o peixe do rio, não só o lagostim mas muitas outras espécies que, mediante as épocas adequadas, o restaurante tem para oferecer.

Dornes, Ferreira do Zêzere

Não tem problemas inclusive em mostrar os seus segredos culinários. Peixe sempre fresco, óleo sempre limpo, lagostim colocado ainda vivo em água fria para não encolher, cozendo em lume brando, um molho de manteiga de abrir o apetite e o sabor da cozinha tradicional, com coentros, sal e pimenta, a temperar.

Outras casas também participam, mas Elvira Carvalho constata que não é fácil levar este prato à mesa. Ela, garante, vai mesmo à pesca.

Para além dos restaurantes aderentes, o festival estende a iguaria a estabelecimentos de Tapas&Petiscos onde é possível saborear o lagostim como petisco de balcão.

Os espaços aderentes nesta 12ª edição, a decorrer de 29 de março a 28 de abril, são os restaurantes Fonte de Cima, Toscana, O Rio, Manjar São Miguel, Quinta do Adro e A Grelha do Zêzere, a par dos cafés O Mocho, Fredybeer e Pérola do Zêzere. Os pratos estão disponíveis nas ementas aos fins de semana, e às sextas-feiras só ao jantar.

*Reportagem publicada em 2018, revista e republicada em março de 2019

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