Ferreira do Zêzere | “Faria tudo outra vez para salvar o meu filho”, Ana Antunes

David com a mãe, Ana (Foto: DR)

Já passaram quase 10 anos mas Ana Antunes, agora com 33 anos, lembra-se como se fosse hoje. Em abril de 2007 submeteu-se a uma delicada intervenção cirúrgica para salvar o seu filho de oito meses a quem foi diagnosticada uma cirrose hepática. Aceitou doar parte do fígado ao seu filho David e assim conseguiu salvá-lo. Dez anos depois, ambos estão bem. A principal mudança é que, entretanto a família trocou a pequena aldeia de Alqueidão de Santo Amaro, no concelho de Ferreira do Zêzere, pelo Luxemburgo.

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Após uma gravidez sem complicações, Ana Antunes deu à luz o seu David Miguel a 20 de junho de 2006. Logo nas primeiras semanas de vida, o bebé apresentava uma cor amarelada que afligiu a mãe. No centro de saúde de Ferreira do Zêzere o primeiro diagnóstico foi de icterícia. Algumas semanas depois e perante a persistência do problema, Ana levou o seu bebé aos serviços de pediatria do hospital de Tomar e ali disseram-lhe que tinha hepatite. Uma notícia que quase fez ruir o seu mundo. De hepatite a doença evoluiu para cirrose e só com um transplante hepático seria possível salvar o menino. Para isso era necessário encontrar um dador compatível.

Feitas as análises, concluiu-se que a mãe, na altura com 23 anos, era um potencial dador e Ana não hesitou um segundo em doar parte do seu fígado para salvar o pequeno David. Se não fosse este gesto de amor do tamanho do Mundo, o menino teria apenas mais dois meses de vida.

No dia 16 de março de 2007, Ana Antunes foi internada no Hospital pediátrico de Coimbra, único local do País onde se realiza este tipo de transplante, para tentar salvar a vida do seu filho. Estava consciente de que seria uma operação delicada, muito morosa e com vários riscos associados.

A cirurgia começou a 5 de abril de 2007 e só terminou no dia seguinte. Foram 15 horas seguidas de trabalho da equipa do cirurgião Emanuel Furtado. Primeiro foi retirada uma parte do fígado da mãe, depois retirado o do bebé e transplantado o novo órgão que acabaria por se regenerar naturalmente.

No dia seguinte uma hemorragia interna no bebé obrigou a uma segunda intervenção cirúrgica. Em todo este processo Nuno Tiago, marido de Ana e pai do David, esteve sempre presente.

A doença e a operação obrigaram Ana e o marido a deixarem de trabalhar o que agravou a sua frágil situação financeira. Mas, quer no hospital, quer na aldeia de Alqueidão de Santo Amaro, houve ações de solidariedade para com o casal que resultaram na recolha do dinheiro necessário para os medicamentos e para outras despesas.

A família regressou a casa a 1 de junho de 2007 e tentou retomar a sua vida normal.

David “está bem”

Nos últimos anos a principal mudança na família foi ter de emigrar. Primeiro, há nove anos, foi o marido a ir trabalhar para o Luxemburgo e, há quatro anos, juntaram-se Ana e David. Entretanto a família aumentou. Há dois anos chegou o João Miguel. Continuam a ser uma família feliz.

A evolução do pequeno David “tem sido boa”, confirma a mãe explicando que a menino ainda precisa de medicação e de alguns cuidados especiais. “Depois da operação foi pensar um dia de cada vez e que ficasse tudo bem. Felizmente está a correr tudo bem”, afirma Ana Antunes, quase 10 anos após a operação. “Sinto-me muito orgulhosa por salvar a vida do meu filho e fico feliz por já terem passado 10 anos e ele estar bem”, reforça.

David frequenta uma escola luxemburguesa, frequenta o 4° ano e já fala a língua local, alemão e francês.

Dez anos depois, Ana confessa que desde então começou a ver a vida de outra forma. “Nunca se deve baixar os braços nem a cabeça. Há que ir à luta mesmo com poucas forças porque a esperança é a última coisa a morrer”, afirma.

Ana faz questão de agradecer às equipas médicas de Isabel Gonçalves e de Emanuel Furtado e aos enfermeiros por tudo o que fizeram pelo David. Não se esquece também das muitas pessoas, umas conhecidas outras anónimas, que a ajudaram naquela fase difícil.

1 COMENTÁRIO

  1. Sobre a reportagem de Ana Antunes e seu filho David, só uma única frase de apreço. Chama-se a este ato, ser verdadeiramente MÃE. Que o futuro lhes possa continuar a sorrir.

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