Ferreira do Zêzere | Elia Ramalho, a artista que pinta as telas brancas da vida

Élia Ramalho. Foto: mediotejo.net

Quem entra na sala de leitura da Biblioteca Municipal Dr. António Baião, em Ferreira do Zêzere, depara-se com um imponente mural que representa, através de capelas ou igrejas, as janelas abertas para todas as aldeias do concelho. Há um rosto por detrás desta obra: Élia Sofia Ramalho. Tem 40 anos, é natural de Tomar mas o seu coração também bate forte por Ferreira do Zêzere. Afirma ter consciência que tocou a linha do fim da vida num acidente de viação em Tomar. Tinha 22 anos. “Num mês divorciei-me e cedi a cota de uma empresa que tinha em Tomar. Fiquei com o meu filho e uma vida como uma tela em branco, totalmente nova para criar”. A entrevista que se segue revela a artista mas também a mãe e mulher. Pinceladas de uma vida que vale a pena conhecer. 

Élia Sofia Ramalho junto ao mural que pintou na Sala de Leitura da Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere Foto: mediotejo.net
Que ligações tem ao concelho de Ferreira do Zêzere? O que lhe diz esta terra, estas gentes?
O meu avô paterno, com quem cresci, tinha raízes em Ferreira do Zêzere tal como a minha avó. Eram os dois Ramalho, de duas famílias diferentes residentes na pequena vila. Eu só podia mesmo ser Ramalho. O meu pai tinha uma pequena loja que herdou do meu avô, eu ajudava-o nas férias a atender pessoas. Penso que lá terão passado todas as pessoas da vila e aldeias. A minha mãe deixou de trabalhar na Clínica de Santa Iria, em Tomar, e foi trabalhar para o Centro de Saúde de Ferreira. Lá ficou a viver até hoje. Quando vou à vila é para a visitar.
Como é que surgiu a possibilidade de expor trabalho seus no interior da Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere?
Fui casada com o pai do meu filho que era Bibliotecário na Biblioteca Municipal. Eu passava muito tempo lá dentro quando estava de férias das aulas ou mesmo depois de ter terminado o curso. Ainda durante o curso pedi ao meu professor para me deixar faltar às aulas de Atelier de Pintura em Coimbra e assim pintei o mural na sala de leitura da Biblioteca. Um trabalho que foi pago pela Câmara Municipal. Já depois do curso concluído pintei uma série intitulada “Interior/Exterior” a partir de um poema de Álvaro de Campos. Sugeri que se fizesse uma exposição na Biblioteca com essa série. A mostra foi vista pelo Dr. Morais Sarmento que quis um quadro, sendo que o Município adquiriu o resto que ainda hoje está exposto. Para terminar compraram-me ainda um quadro para oferecer ao Presidente da República Dr. Jorge Sampaio aquando de uma visita à vila.
“A arte ainda é vista como coisa pouco útil e eu, cada vez mais, acredito que é das coisas mais úteis que existe. Porque é nela que se carimba cada período de vida da história da humanidade e é através dela que muitas vezes a realidade social se transformou para melhor”
Em que consistem os trabalhos que aqui vemos expostos?
O primeiro trabalho foi um mural que representa janelas abertas para todas as aldeias do concelho. O segundo é uma série de pintura criada a partir do poema “Grandes são os desertos e tudo é deserto” de Álvaro de Campos, esta exposição andou em itinerância por diversas Bibliotecas Municipais do país.
O terceiro foi um quadro que retratava uma cabeça de vaca, uma pintura a óleo que pertencia à última série de pintura enquanto estudante, intitulada “Bovinos de Cultura”.
Quando é que despertou para as artes?
Acho que desde sempre… mesmo sem saber. Só tarde tive acesso à informação, no ensino secundário. O professor que mais me marcou era Arquiteto. Eu pensei que queria ir também para Arquitetura e fui mas não gostei quando se tornou mais sério. O que me valeu foi ter tido a possibilidade de experimentar um pouco de tudo no primeiro ano da licenciatura… Optei por fazer Pintura.
 
A trabalhar no Atelier de Ilustração na Casa da Escrita. A artista vive atualmente em Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra Foto: Carlos Dias
Recorda-se da sua primeira exposição?
A primeira exposição individual foi na Escola Superior Agrária de Coimbra, porque lá tinha passado grande parte do último ano do curso a desenhar e fotografar os bovinos ao vivo. Interessava-me por politica, acompanhava a questão da politica agrícola comum, debatida na altura, depois o fenómeno da doença das “vacas loucas”…  e eu, por sorte, tinha como grande amigo um Professor da Escola que me permitia frequentar o espaço com muita liberdade. Foi um tema que vivi muito apaixonadamente. Para mim a Pintura nunca foi só técnica mas suporte de comunicação sobre o mundo para o mundo. Contar histórias com tintas.
“Tentei várias vezes sair e fazer outras coisas mas tudo foi correndo menos bem e foi sempre na Pintura que me reencontrei. Agora vivo a minha realidade com mais calma e com mais paz mas não foi um percurso fácil. Isso pode ver-se nas diferentes séries que fui pintando”
Quando é que tomou a decisão de que era mesmo isto que pretendia para a sua vida?
Nunca foi uma decisão. Eu acho que caí numa “teia” de onde nunca consegui sair. Tentei várias vezes sair e fazer outras coisas mas tudo foi correndo menos bem e foi sempre na Pintura que me reencontrei. Agora vivo a minha realidade com mais calma e com mais paz mas não foi um percurso fácil. Isso pode ver-se nas diferentes séries que fui pintando.
Consegue-se viver apenas da arte?
Eu exerço várias atividades. Para além da Pintura, dei início a um trabalho editorial para crianças e pretendo agora levá-lo mais a sério. É nisso que estou empenhada, sendo uma forma de estar ligada à Pintura e à Escrita de um modo mais prático. Assim posso também circular por diversas Escolas, Bibliotecas e Museus.
Os artistas são uns eternos incompreendidos? Falta ao mundo sensibilidade cultural?
Penso que não se trata de falta de sensibilidade mas de informação. Poucas pessoas têm uma cultura geral que permita compreender arte e artistas. Quando não compreendemos algo, facilmente rejeitamos. A arte ainda é vista como coisa pouco útil e eu, cada vez mais, acredito que é das coisas mais úteis que existe. Porque é nela que se carimba cada período de vida da história da humanidade e é através dela que muitas vezes a realidade social se transformou para melhor.
Esteve em Timor. O que recorda mais dessa experiência?
Ainda estou a assimilar a estadia. Foi como recuar no tempo, voltar a ser criança, com o mínimo de tecnologia e desenvolvimento que hoje existe pelo mundo. Penso que será dos poucos sítios do mundo onde se pode viver em paz e segurança suficiente para voltar a ser humano, com um número de necessidades muito mais reduzidas do que aquelas que vivemos no dia a dia. Uma vida muita mais simples e ligada à natureza. As pessoas ainda se olham nos olhos e mesmo que não falemos a mesma língua a comunicação acontece espontaneamente. Quero voltar, logo que tenha condições familiares, com o meu filho para o fazer.
Durante a inauguração da exposição de fotografia de António Cotrim “Rostos de Timor” patente na Biblioteca Municipal Dr. António Baião, onde falou sobre as suas ligações a este país Foto: mediotejo.net
Qual foi o episódio mais marcante da sua vida e de que forma é que isso se espelhou na sua obra?
É difícil falar disso em publico. Fiz um longo trabalho de auto-conhecimento e não falo de nada esotérico, trabalhei com profissionais. Tenho consciência que toquei a linha do fim da vida num acidente de viação em Tomar. Tinha 22 anos. Depois de vários anos a recuperar fisicamente chegou o tempo de sarar feridas interiores até perceber que a minha vida estava errada em praticamente tudo. Num mês divorciei-me e cedi a cota de uma empresa que tinha em Tomar. Fiquei com o meu filho e uma vida como uma tela em branco, totalmente nova para criar. Isso implicou muitos riscos, muitas rasuras, rascunhos, desenhos, pintar uma vez, pintar por cima. Não tem sido nada fácil mas não mudava nada se voltasse atrás. Cada vez sou mais eu mesma com os meus defeitos e feitios, já lá vão dez anos. Fiz quarenta este ano.

Como é que se descreve enquanto artista?
Sou uma artista muito irregular, salto muitas vezes nas áreas artísticas, não estabilizei a minha Pintura criando uma linha de fácil identificação. Quem não me conhece tem dificuldade em perceber que dois quadros de épocas diferentes são da mesma pessoa. Não vejo nisso nenhum defeito além da dificuldade de ser levada a sério no Mercado das Galerias por exemplo, mas também nunca procurei muito isso. Para mim, a pintura é a minha sobrevivência. De resto, no dia a dia tento sempre seguir caminhos mais práticos e compreensíveis pela maioria das pessoas. Trabalhar com crianças é excelente, elas entendem-me muito bem e eu a elas. Sei o que as faz pensar e gosto de as fazer pensar. Utilizo a arte para isso e ao mesmo tempo permite-me sobreviver melhor nas necessidades do quotidiano. As minhas referências são Frida Kahlo e Júlio Pomar. A primeira por questões de identidade, o segundo porque é o autor sobre o qual estou a fazer uma tese de doutoramento na Universidade de Coimbra. 

Que projetos tem atualmente em carteira?
Penso que o mais fácil é simplesmente citar o endereço do meu site: eliaramalho.com. Pretendo focar-me no trabalho editorial para crianças e em performances artísticas com as mesmas, em Portugal e não só.
É feliz quando…
… olho no fundo dos olhos do meu filho e vejo a cumplicidade máxima que se pode ter com alguém.
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