Ferreira do Zêzere | À descoberta: a riqueza da geologia e biologia de Avecasta (c/vídeo)

Avecasta. Assim se chama a pequena aldeia localizada na União de freguesias de Pias/Areias, zona oeste do concelho de Ferreira do Zêzere, que um grupo heterogéneo de pessoas foi descobrir na manhã de domingo, 5 de março, mesmo sob a ameaça de chuva. Um passeio interpretativo, organizado pela ZêzereTrek e liderado por Bruno Cardoso, e que terminou com uma visita ao ex-libris desta povoação onde não chegam a viver 20 pessoas: a gruta de Avecasta.

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Atualmente encerrada ao público e a sofrer trabalhos de escavação e valorização, a gruta de Avecasta foi excecionalmente visitada pelo grupo neste dia, graças à autorização da autarquia. O deslumbre ficou traduzido nas expressões que os caminheiros fizeram quando confrontados com a beleza única da paisagem.

A Gruta da Avecasta é um sítio arqueológico único no país Foto: mediotejo.net

O interesse arqueológico deste local reside na conservação excecional das estruturas das várias aldeias sobrepostas, desde há mais de 5 mil anos, cujos vários horizontes de ocupação (solos, pavimentos, alicerces, muros, lareiras, outras estruturas domésticas, muito espólio utilitário e dejetos) foram sucessivamente selados e preservados por camadas de argila fina. Estas raras condições poderão permitir uma reconstituição rigorosa e nova do espaço de habitat e do modo de vida doméstico destas antigas populações do remoto Portugal.

Outro aspeto curioso é que a gruta preserva na chamada “grande sala”, mais de 30 metros de sedimentos grosseiros e argilosos depositados ao longo de mais de 100 mil anos que poderão registar a história natural e humana dos períodos remotos da Idade do Gelo (Pleistocénico).

Bruno Cardoso salientou as características únicas desta gruta, acrescentando que o município está a fazer um processo de classificação deste local e, paralelamente, promover turisticamente a região. “Em Pias e Areias existem mais grutas mas não com a dimensão desta”, atestou.

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A Riqueza da Biologia e da Geologia de Avecasta

O ponto de encontro para este passeio deu-se junto ao Centro Cultural e Recreativo de Avecasta, um edifício que dá nas vistas pela sua arquitetura sendo que nesta aldeia o calcário substitui o xisto. A paisagem alterna entre vários tons de verde graças a uma singular flora e fauna desta região, que está integrada na Rede Natura 2000. O tema da atividade desta manhã foi a geologia associada ao património construído e, ao mesmo tempo, ao património natural. “Temos sempre a preocupação de enquadrar a atividade em função do número de inscritos e da sua composição. O grupo de hoje, por exemplo, é muito heterogéneo”, indicou.

Nos últimos anos, muitas casas têm vindo a ser reconstruídas nesta aldeia – principalmente por estrangeiros que escolhem viver em Portugal – conferindo-lhe características únicas a este local labiríntico.  E foi com espírito aventureiro que o grupo calcorreou as ruas da aldeia, tendo tempo para apreciar a traça das casas, caminhos, ruas e ruelas.

Um dos locais deste passeio interpretativo Foto: mediotejo.net

“Avecasta tem um significado e importância especial nesta região. Para já, está inserida num afloramento calcário, no final do concelho de Ferreira do Zêzere, o que lhe dá uma arquitetura, fauna e flora diferente”, referiu Bruno Cardoso no início da visita, considerando que esta localidade tem a vantagem das suas construções serem originais, ou seja, não foram construídas artificialmente para serem atrações turísticas.

A presença das comunidades humanas em Avecasta vem da Pré-História – há vestígios anteriores à Idade do Bronze – sendo que a presença de grutas contribuiu para a fixação de comunidades.

Em Avecasta há muitos pormenores geológicos e botânicos, sendo que o fato de estar no final da Serra de Sicó confere à paisagem um aspeto diferente da demais região. Os incêndios contribuíram para que muita vegetação desaparecesse pelo que há partes onde a natureza se voltou a impor. “Toda a vegetação adaptou-se a este tipo solo e vamos encontrar algumas espécies que se desenvolvem nesta área que está integrada na Rede Natura 2000, que define um conjunto de espaços a preservar em termos ecológicos”, explicou.

A geologia da zona fez com que a mesma viesse a ser ocupada pelas povoações. O solo é calcário, o que representa uma mais valia em termos agrícolas, uma vez que a maioria dos solos é ácido o que obriga a uma correção do seu PH. Pelo caminho, encontrámos um portentoso carvalho carrasco, que atinge uma altura considerável, sendo que a vegetação é mais rija, em função da existência desta árvore.

Ainda antes de visitar a Gruta, o grupo passou por um curioso moinho de vento, ex-líbris da aldeia e do concelho: o moinho de Avecasta.

 

O grupo de caminheiros junto ao Moinho de Avecasta Foto: mediotejo.net
Reconstruído em madeira no ano de 1995, este moinho encontra-se no cimo de uma pequena elevação constituída essencialmente por calcário e onde se encontram grutas, entre elas, a de Avecasta. A vista é panorâmica,  tanto para o lado do Alto Nabão como para norte, avistando-se os contrafortes das serras de Alvaiázere, Lousã, Alvéolos e Muradal.

Trata-se de um moinho do tipo giratório, isto é, todo o edifício do moinho gira na sua totalidade e não somente o tejadilho como os moinhos fixos. De formato prismático, com seis faces desiguais, quatro maiores laterais, dispostas simetricamente duas a duas a cada lado de duas outras estreitas, apresenta uma à frente, voltada para o lado do vento e outra atrás onde fica a porta de entrada. Todo este conjunto (com as velas), rodam em torno de um espigão excêntrico, cravado na base da frente e apoiado sobre duas rodas de madeira (ou pedra), aplicada atrás, a uma grade triangular em que assenta o soalho e toda a restante estrutura.

Manuel Martins, do concelho de Mação, costuma participar neste tipo de atividades Foto: Mediotejo.net
Manuel Martins, da Amêndoa, Vale de Vacas, concelho de Mação, veio à aventura. Ao mediotejo.net conta que costuma fazer caminhadas sendo que o que o motiva a vir é o convívio, o exercício físico. “É melhor andar a passear do que estar em casa, de braços cruzados a olhar para o tecto”, indica, após uma paragem na Fonte do Lodo.
Reformado, aproveita os tempos livres para descobrir lugares. Nesta manhã, ficou impressionado com a diversidade da natureza de Avecasta, no seu estado mais selvagem, destacando que aprende sempre algo nestas caminhadas.
Maria Elisa, de Vila de Rei, foi uma das participantes mais entusiastas deste passeio Foto: mediotejo.net
Igualmente entusiasmada, Maria Elisa veio de Vila do Rei mostrando-se muito interessada em aprender mais sobre a natureza. “Desde que tive conhecimento das atividades da ZêzereTrek que aproveito. Gosto muito da natureza, de estar ao ar livre, fazer caminhadas e aprender mais sobre plantas e animais”, disse ao mediotejo.net.
Sílvia Simões veio com o marido e o filho de Maçãs de D. Maria, concelho de Alvaiázere, sendo que os que o motiva é a descoberta da natureza. “Não fazia ideia que havia tanto calcário nesta região”, conta, acrescentando que as caminhadas são sempre um bom programa familiar.
Bruno Cardoso, que também é técnico de ambiente e florestal no município de Vila do Rei, conta que a ZêzereTrek surgiu em setembro de 2015 embora, antes de avançar com o seu próprio projeto, já colaborasse com outras empresas de animação turística.
Formado em Engenharia de Recursos Naturais e Ambiente tem um grande gosto pelas atividades outdoor e turismo de Natureza, tentando dar sempre um cunho pessoal e uma abordagem diferente a cada atividade a que se propõe fazer.
“Temos feito percursos interpretativos – sendo que cada atividade tem um tema – em vários locais, desde Vila do Rei, Ferreira do Zêzere, Sertã e Sardoal mas não fugindo muito do conceito que pretendemos e que passa por promover a região que é banhada pelo Rio Zêzere”, atesta.
Motivos não faltam para, sozinho ou com familiares e amigos, partir num “À descoberta” dos cantos e recantos paradisíacos do Médio Tejo.
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