Fátima | Um século depois, ainda há segredos por revelar sobre a morte de Jacinta Marto

*texto retificado às 22h26 de 16 de fevereiro de 2020

A mais nova dos videntes de Fátima morreu em Lisboa a 20 de fevereiro de 1920. Jacinta ainda não completara 10 anos quando chegou à capital, numa derradeira tentativa de salvação no Hospital Dona Estefânia. Vítima da gripe espanhola, tinha uma infeção pulmonar e foi submetida a uma cirurgia sem anestesia para lhe retirarem duas costelas. Acabaria por morrer sozinha no hospital, longe dos pais, referindo a uma enfermeira que tinha visto Nossa Senhora uma última vez. Os pormenores desta passagem por Lisboa são em grande parte desconhecidos do público, mas ganham agora nova luz através de alguns trabalhos de investigação que fomos conhecer, a propósito do centenário da morte daquela que é mais jovem santa da Igreja Católica.

“Era uma criança normal”. Assim a descreveu a Irmã Ângela Coelho, Posteladora para a causa da canonização de Francisco e Jacinta Marto, numa pequena palestra sobre a morte de Jacinta Marto, no passado dia 6 de fevereiro, no Encontro dos Hoteleiros em Fátima. Considerada uma “menina caprichosa” pela Irmã Lúcia, foi mais tarde lembrada como um pequeno anjo pelos que a conheceram.

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Dos três videntes, Jacinta é a que desperta mais atenção do público e sobre a qual mais se tem escrito. A sua relação com o sacrifício, o sofrimento da imagem do Santo Padre, a morte precoce e os pormenores do martírio ajudam à hagiografia desta santa cujo centenário da morte se assinala esta quinta-feira, 20 de fevereiro.

Registo de entrada de Jacinta Marto no Hospital D.Estefânia Foto/Fonte: Torre do Tombo

Sobre a morte de Jacinta, narrou a Irmã Lúcia nas suas Memórias:

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“Um dia mandou-me chamar: que fosse junto dela depressa. Lá fui, correndo. – Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus. Perguntei se tu ias comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me e, depois, fico lá sozinha! (…) Em fins de Dezembro de 1919, de novo a Santíssima Virgem se dignou visitar a Jacinta, para Ihe anunciar novas cruzes e sacrifícios. Deu-me a notícia e dizia-me: – Disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver, nem os meus pais; que, depois de sofrer muito, morro sozinha, mas que não tenha medo; que me vai lá Ela buscar para o Céu. (…) Durante a sua permanência de 18 dias no hospital em Lisboa, Jacinta foi favorecida com novas visitas de Nossa Senhora, que lhe anunciou o dia e a hora em que haveria de morrer. Quatro dias antes de a levar para o Céu, a Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dôres. Nas vésperas da sua morte, alguém lhe perguntou se queria ver a mãe, ao que ela respondeu: – A minha família durará pouco tempo e em breve se encontrarão no Céu… Nossa Senhora aparecerá outra vez, mas não a mim, porque com certeza morro, como Ela me disse”.

Jacinta e o irmão Francisco adoeceram ao mesmo tempo, nas vésperas do Natal de 1918, mas o rapaz faleceu em casa logo em abril de 1919. O percurso da vidente foi mais tortuoso. Esteve internada em Ourém, onde voltou para casa com uma ferida aberta no peito, “do tamanho de um punho fechado”. A gripe dera lugar a um infeção nos pulmões que precisava de ser drenada. Com dois irmãos já levados pela pneumónica ou gripe espanhola (um outro se seguiria ainda depois de Jacinta), começaram os apelos para que fosse levada para a capital, a fim de receber outros cuidados.

Jacinta no local das Aparições, em 1917 Foto DR

Os pais terão rejeitado inicialmente a ideia, preferindo que a menina morresse com a família do que sozinha em Lisboa. Mas ter-lhes-ão lembrado que aquela filha estava protegida por Nossa Senhora e havia outros filhos doentes sem essa bênção. Face a esta lógica, os pais acabaram por ceder.

Quem nos conta estes pormenores é a investigadora Carla Afonso Rocha, que está a terminar um livro sobre a passagem de Jacinta Marto por Lisboa, a ser publicado ainda este ano, e orienta uma rota turística na capital que segue os últimos passos da vidente, através da agência Raízes de Fátima. A investigadora trabalha ainda com o Patriarcado de Lisboa, mostrando estes espaços a grupos de catequese. O potencial turístico dos lugares por onde a vidente passou, constata, está completamente por explorar e a maioria dos espaços a descaracterizar-se.

Fotografia da cama onde Jacinta Marto esteve internada no Hospital D.Estefânia. O quarto já não existe, após as muitas obras realizadas, e a cama perdeu-se   Foto/Fonte: D.R./Santa Jacinta em Lisboa

Jacinta chegou a Lisboa a 21 de janeiro de 1920 e ficou internada no Orfanato de Nossa Senhora dos Milagres, que é atualmente o Mosteiro do Imaculado Coração de Maria (clausura). O Hospital Dona Estefânia, explica Carla Afonso Rocha, só recebia crianças de Lisboa. Jacinta ficou registada como órfã para assim receber tratamento. Por tal, quando finalmente deu entrada no hospital, a 2 de fevereiro, foi sozinha (a mãe acompanhou a entrada, mas não se identificou como progenitora). Só o diretor da unidade sabia quem de facto era a menina.

A mãe nunca mais a viu, refere a investigadora. Tinha outros filhos doentes e não possuía meios para ficar na capital (também não era permitido o acompanhamento nos hospitais), além de que a viagem de comboio levava seis horas. “A tia Olímpia só voltou a ver a Jacinta na sua trasladação, 15 anos depois”, relata, uma vez que o caixão, que fora selado em Lisboa e colocado no jazigo do Barão de Alvaiázere a título provisório, foi então aberto para confirmar a autenticidade. O seu corpo, segundo os relatos da época, estava incorrupto, tendo voltado a revelar-se íntegro em 1951, quando foi sepultada na basílica de Fátima.

O corpo de Jacinta foi trasladado várias vezes e, segundo os relatos da época, manteve-se sempre incorrupto. Foto DR

Sobre o mês que Jacinta passou na capital, Carla Afonso Rocha conseguiu reunir testemunhos de cerca de duas dezenas de descendentes de testemunhas. O curioso da história, constata, é que foi preservada maioritariamente por ateus. O diretor do Hospital proibiu que se soubesse que era Jacinta Marto, a pastorinha de Fátima, que estava internada, mas uma das enfermeiras, “a única não católica”, acabou por descobrir a identidade da menina, que lhe confidenciou que Nossa Senhora a visitara. É do diretor do Hospital, também ateu, a informação com o corpo de Jacinta cheirava a flores após a sua morte.

O Hospital Dona Estefânia, explica Carla Afonso Rocha, só recebia crianças de Lisboa. Jacinta ficou registada como órfã para assim receber tratamento. Por tal, quando finalmente deu entrada no hospital, a 2 de fevereiro, foi sozinha (a mãe acompanhou a entrada, mas não se identificou como progenitora). Só o diretor da unidade sabia quem de facto era a menina.

Durante os 18 dias em que ficou internada, Jacinta foi operada, sendo-lhe retiradas duas costelas. A operação foi realizada sem anestesia, apenas com um pouco de éter. Para os registos ficam os comentários do cirurgião Castro Freire: “Fiquei impressionado com esta menina, qualquer outra criança teria gritado ou esperneado, ela só disse ‘Ai meu Jesus, ai minha Nossa Senhora’“.

As dores haveriam de acompanhá-la quase até morrer, tendo desaparecido alguns dias antes do falecimento. Terá sabido então por Nossa Senhora que tinha chegado a sua hora.

O seu corpo fica ainda quatro dias na capital, velada na Igreja dos Anjos. Deste pequeno período há outras histórias por contar, adianta a investigadora. Por pouco não ficou enterrada em Lisboa, tendo tido jazigo marcado no cemitério dos Prazeres. Valeu a intervenção do Barão de Alvaiázere, que ouvira a menina a dizer que não queria ser enterrada debaixo de terra. Ofereceu então o espaço na quinta da família.

Cama de Jacinta Marto no Orfanato onde ficou a aguardar a entrada no hospital, hoje um espaço visitável no atual Mosteiro do Imaculado Coração de Maria.  Foto: Carla Afonso Rocha

Em 1920, sem televisão ou redes sociais, Lisboa em peso apercebeu-se que Jacinta de Fátima morrera e estava a ser velada na Igreja dos Anjos. Carla Afonso Rocha comenta que “foi muito complicado controlar a quantidade de pessoas que foram à Igreja, toda a gente lhe queria tocar”.

Foi o agente funerário que empreendeu esforços para proteger o corpo, havendo ainda o pormenor do sacristão que lhe cortou uma madeixa de cabelo, que hoje é uma das relíquias de Fátima. O percurso até ao Rossio, onde o caixão seguiu para Fátima, num dia de chuva, foi acompanhado por uma multidão.

Em 1920, sem televisão ou redes sociais, Lisboa em peso apercebeu-se que Jacinta de Fátima morrera e estava a ser velada na Igreja dos Anjos. “Foi muito complicado controlar a quantidade de pessoas que foram à Igreja, toda a gente lhe queria tocar”

Todas estas histórias, e outras que preferiu não adiantar, vão ser contadas no livro da investigadora, que se encontra ainda a reunir os últimos testemunhos. Carla Afonso Rocha lamenta que os espaços que marcaram a passagem de Santa Jacinta pela capital estejam a desaparecer, com exceção do Mosteiro, na rua da Estrela nº17, onde as freiras clarissas preservam o quarto de Jacinta e abrem frequentemente para visitas. Já o hospital sofreu muitas obras, o quarto específico do internamento deixou de existir e a cama onde Jacinta esteve deitada 18 dias perdeu-se. O edifício centenário da Igreja dos Anjos encontra-se muitas vezes fechado.

O interesse da investigadora por Jacinta Marto é antigo, admite. “Era muito mais pequenina, muito mais inocente. É ela que toma ao peito certas condições, era ela que escolhia os sacrifícios, que rezava pelos pecadores”, lembra.

Nas suas palestras a quem decide fazer a rota pelo Mosteiro – Hospital – Igreja dos Anjos (um dos trajetos inclui a Basílica da Estrela, onde Jacinta chegou a ir rezar), ou às crianças da catequese, costuma elucidar todas as dificuldades que a pastorinha passou e que hoje são tidas como dados adquiridos: um hospital gratuito e disponível para atender em qualquer zona do país, o acompanhamento dos pais, anestesia. Os que fazem o trajeto questionam frequentemente o porquê de ter ficado a vidente no orfanato tanto tempo. “Ela teve obrigatoriamente de viver naquela casa para ser moradora de Lisboa”, explica, o que “mostra como a vida era difícil”.

*Todo o percurso de Jacinta Marto por Lisboa foi possível graças a um largo conjunto de apoios de beneméritos. O funeral, adianta a investigadora, custou 199 mil réis, tendo resultado também de uma angariação.

Os três pastorinhos: Lúcia, Francisco e Jacinta  Foto: DR

Celebrações em Fátima a partir deste domingo

O Santuário de Fátima vai assinalar a partir deste domingo, 16 de fevereiro, o centenário da morte da vidente Jacinta Marto, que acabaria por ser canonizada em 2017, conjuntamente com o seu irmão Francisco. O centenário da morte de Jacinta Marto vai marcar todo o ano no Santuário de Fátima, como forma de assinalar que “a santidade não é incompatível com a infância”.

Um concerto Evocativo dos Três Pastorinhos, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na tarde domingo, é a primeira iniciativa do programa das comemorações, que continuarão no dia 19, a partir das 21h30, com uma vigília de oração no Santuário.

Na quinta-feira, 20 de fevereiro, dia em que a Igreja Católica celebra a Festa Litúrgica dos Santos Francisco e Jacinta Marto, terão lugar celebrações religiosas na Capelinha das Aparições e na Basílica da Santíssima Trindade, bem como atividades com crianças.

Em Lisboa, o centenário da morte de Jacinta Marto será assinalado neste dia com uma conferência, pelas 15h00, no Hospital D. Estefânia, seguida de uma missa, também naquela unidade hospitalar, celebrada pelo cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.

O Santuário de Fátima realça a figura de Jacinta Marto com recurso ao seu exemplo de oração e sacrifício, apesar da sua idade, “pela conversão, pela paz no mundo e pelo Santo Padre.

As comemorações do centenário da morte de Jacinta Marto inserem-se no ano pastoral do Santuário de Fátima, subordinado ao tema “Tempo de Graça e Misericórdia: dar graças por viver em Deus”.

Neste ano, o santuário mariano da Cova da Iria irá assinalar outros dois centenários: o da primeira escultura de Nossa Senhora de Fátima e o da ordenação episcopal de José Alves Correia da Silva, o primeiro bispo da então recém-restaurada diocese de Leiria.

Com Lusa

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