Fátima | Nos 100 anos da “capelinha das Aparições” já poucos conhecem a história de Maria Carreira

Maria dos Santos Carreira, Maria da Capelinha, deu ao Santuário de Fátima uma capelinha, terrenos para edificar a Basílica, os primeiros funcionários da estrutura e até uma quarta vidente Foto: D.R./Fonte: Diário da Manhã

O nome de Maria dos Santos Carreira é continuamente citado na história das Aparições de Fátima, mas vai desaparecendo de uma forma geral da memória coletiva do lugar. Natural da Moita Redonda, atualmente um bairro da cidade de Fátima, alvo de várias entrevistas até à sua morte em 1949, Maria Carreira ganhou o epíteto de “Maria da Capelinha”, ou a “tesoureira de Nossa Senhora de Fátima”, por ter acorrido à Cova da Iria logo em junho de 1917 e começado a recolher, de forma espontânea, as esmolas que eram deixadas pelos peregrinos. Das suas mãos e das da sua família pode-se afirmar que nasceram as fundações do Santuário de Fátima: a este Maria Carreira possibilitou a edificação da capelinha das Aparições, deu os primeiros funcionários à instituição e até uma aparente quarta vidente das Aparições.

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A casa de Maria da Capelinha ainda existe. É um terreno com uma edificação já a avançar para o estado de ruína, imediatamente por trás da escola primária da Moita Redonda. Segundo nos informam os herdeiros, a estrutura encontra-se atualmente na posse de vários elementos da família e sem um destino concreto a oferecer-lhe. Temos a indicação de que há algumas décadas o Santuário de Fátima chegou a mostrar-se interessado pelo património, mas o negócio não se efetivou.

Antiga casa de Maria Carreira situa-se na Moita Redonda, nas traseiras da escola primária Foto: mediotejo.net

A sua relevância para a história de Fátima não será menor. Aquando a dinamitação da capelinha das Aparições, em 1922, a escultura original de Nossa Senhora de Fátima – a mesma que ainda hoje é alvo de culto no Santuário – aqui estava guardada para o período da noite. Uma medida de zelo de Maria Carreira que salvou da destruição a imagem.

Maria Carreira e o seu filho, conhecido por João da Capelinha, podem definir-se como os primeiros “funcionários” do Santuário de Fátima. Ela acabou por tornar-se zeladora da capelinha das Aparições, ele foi o primeiro sacristão. A família ficaria encarregue de recolher e entregar as esmolas que os peregrinos deixavam ao longo dos anos à diocese, vendendo também artigos religiosos numa loja anexa, que já não existe. Destes episódios narra a história, contada pela família ante várias dezenas de artigos de jornais e revistas que foram recolhendo ao longo dos anos, alguns inclusive de que se desconhecem já a origem.

Um desse artigos terá sido escrito nos anos 40, da autoria de M de Freitas, e a família já não sabe bem como surgiu, embora as referências do texto deixem a entender que se trata de uma entrevista realizada pela revista “Stella”. Nele conta Maria Carreira que, vendo-se diagnosticada pelos médicos com pouco tempo de vida, decidiu acorrer à Aparição prometida por Nossa Senhora para alturas do Santo António, a do 13 de junho, tendo com ela levado o seu “aleijadinho”, o João.

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Refere o artigo, citando Maria Carreira:

“Desde que punha os pés neste sítio abençoado nem me doía nada, nem me nada sentia a minha doença. Olhe que logo passado êsse dia treze me pús a trabalhar em volta da azinheira, a tirar a pedra, a roçar mato, a cortar rente alguma coisa que não podia arrancar, que até trazia para isso um serrote de podar as oliveiras, e, a pouco e pouco, eu que não podia nada mas que aqui podia tudo, fiz assim a modos uma eira grande que ficou com a azinheira ao centro…”

Maria Carreira presenciou os acontecimentos da segunda Aparição e foi divulgando pela terra o sucedido – que tinha Lúcia dos Santos como principal protagonista, uma vez que era a única que interagia com Nossa Senhora – começando a acorrer com frequência à Cova da Iria com os filhos para rezar junto da azinheira e convivendo de perto com os três pastorinhos de Fátima. A Lúcia terá então pedido que interpelasse junto de Nossa Senhora para que curasse o filho, João, que tinha uma deficiência nas pernas.

“Eu tinha pedido à Lúcia se ela mo deixava ficar ao pé de si no dia 13 de julho. E assim foi. O meu João sentou-se numa pedra mesmo à beira dos três e quando Nossa Senhora veio, vimo-lo assim a cair para a banda. Ainda diz que não sabe o que foi que o empeçou e que o fez tombar. Mas percebemos que a Senhora tinha abalado, fui das primeiras a perguntar a perguntar à Lúcia o que é que Ela tinha dito, mas nessa ocasião, sem me lembrar do meu aleijadinho. O que eu queria era saber das outras coisas… Mas a Lúcia vai logo assim: «Que rezem o têrço todos os dias e que ou o melhora ou lhe dá auxílios para êle se governar»”.

Tio João da Capelinha, “o aleijado”, foi o primeiro sacristão e tesoureiro, junto com a mãe, das esmolas deixadas na capelinha das Aparições Foto: D.R./Fonte: Família Carreira

Com “Ti João”, como também ficou conhecido, para sempre ligado ao Santuário de Fátima, onde foi sacristão e também tesoureiro, Maria Carreira consideraria posteriormente a promessa cumprida, apesar deste ter permanecido deficiente motor. Continuou a ir com frequência à Cova da Iria, principalmente nos dia 13, limpando o espaço e enfeitando-o. De tanto por ali a verem, foi a ela que os peregrinos começaram a deixar as esmolas: primeiro 30 reis e frutas, depois uns castiçais e velas trazidos por uma família de longe no 13 de agosto.

“Mas, quando chegou a notícia de que as crianças tinham sido presas, o dinheiro começou a chover numa mesita que eu lá tinha pôsto com flores e era tudo a pedir-me que tomasse conta no dinheiro que, com os encontrões que davam na mesa, estava em jeitos de ir ao chão e se perder.”

Nessa manhã de agosto, em que os pastorinhos foram levados ao engano para casa do administrador do concelho de Ourém, ouviu-se um trovão na Cova da Iria quando a multidão reunida se apercebeu que as crianças não iriam aparecer para a quarta Aparição. Gerou-se então o pânico junto à azinheira, com pessoas aos gritos e a chorar.

O dia estava lindíssimo, assim como o ambiente em redor, recordava Maria da Capelinha em entrevista à “Stella”, e num estado de comoção geral as pessoas começaram a deixar cada vez mais dinheiro. No dia seguinte, a 14 de agosto, Maria e o marido foram a Aljustrel com a intenção de entregar o saco “pesadico – que era no tempo dos vinténs” aos pais dos pastorinhos, que o recusaram. A mesma resposta chegou do pároco, a quem repetidas vezes Maria Carreira viria a pedir que ficasse com o dinheiro.

“Vamos a ver no que isto dá!”, terá afirmado o sacerdote, confiando o dinheiro à paroquiana, mesmo quando surgiram pessoas que se disponibilizaram para ficar com o montante com o objetivo de fazer uma capela.

“Eu já andava tão enfadada que mais não podia ser: a quem eu queria entregar o dinheiro não o queria receber e a quem o queria receber não o queria eu entregar. «Espere mais uns dias», disse-me duma vez o sr. Prior. Passados não sei quantos, mandou-me chamar e leu-me uma carta do sr. Cardeal Patriarca, onde dizia que estivesse o dinheiro bem guardado fôsse onde fôsse menos em pessoa da família dos videntes: não que êles não fôssem capazes mas para que o mundo não tivesse que falar.”

A capelinha das Aparições acabaria por ser edificada entre 28 de abril e 15 de junho de 1919, tendo como encarregado da obra o marido de Maria Carreira, Manuel Carreira. Antes disso, a 6 de agosto de 1918, iniciou-se a construção de um “oratório”, segundo relata um outro artigo, referente a uma entrevista de 1954 ao bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, no “Diário da Manhã”. Numa carta ao bispo, o pároco dava conta que para a obra da desejada capelinha a zeladora das esmolas já reunira 357 mil réis em dinheiro e 40 litros de azeite.

O montante das esmolas acabaria por ser entregue ao bispo, responsável pelo início do processo canónico que resultaria depois no Santuário de Fátima. Maria Carreira e a família permaneceram ligados ao lugar, trabalhando esta e o filho João na recolha das esmolas, na venda de artigos e velas e na vigilância da capelinha, até morrerem.

Foto de Maria Carreira a rezar na capelinha junto à imagem de Nossa Senhora Foto: D.R.

A memória de uma família que se vai perdendo no tempo

Maria dos Santos tem 87 anos e vive na Moita Redonda com o marido, Manuel Pereira, 89 anos, ex-funcionário do Santuário de Fátima. A idade começa a levar a melhor sobre a memória da senhora, neta de Maria da Capelinha, embora o marido ainda se encontre bastante lúcido. Os filhos, Noé Reis e Noémia Pereira, juntam-se à conversa com o mediotejo.net numa tarde quente de julho no alpendre da casa, mostrando o arquivo noticioso, já histórico, que a família possui, mas não intervêm muito na entrevista.

Nos 100 anos da capelinha das Aparições, o mediotejo.net quis recolher as últimas memórias remanescentes da família Carreira sobre o período fundador de Fátima como “Altar do Mundo”. O certo, constata-se, é que a memória começa a perder-se.

O casal de idosos chegou a conviver com Maria Carreira, tendo assistido à edificação da Basílica do Rosário, para a qual a família de Manuel Pereira cedeu alguns terrenos. Maria dos Santos ainda se lembra de correr com uma amiga, ainda criança, pelos terrenos descampados da Cova da Iria, indo ao encontro da avó, na antiga loja de artigos religiosos.

“Íamos levar comer à avó e ao tio João”, recorda, e depois ficava a “contar as escolas que deixavam na capelinha, fazíamos molhos” de moedas, que eram encaminhadas para o sacerdote responsável.

Noé Reis (bisneto), Manuel Pereira (neto por casamento), Maria dos Santos (neta) e Noémia Pereira (bisneta) são alguns dos familiares que restam de Maria Carreira, ainda residentes em Moita Redonda Foto: mediotejo.net

Maria dos Santos já mistura datas e acontecimentos. Recorda que os pastorinhos de Fátima foram presos e que a avó chegou também a ser ameaçada. Mas já foi tudo há muito tempo…

Após o casamento, Maria dos Santos ficou em casa e foi o marido, Manuel, que permaneceu a trabalhar no Santuário. “Ainda conheci a Maria da Capelinha, mas falava mais com o tio João”, recorda Manuel Pereira, lembrando que era sobretudo ele que lhe contava as histórias daqueles primeiros tempos após as aparições. “A Maria Carreira acabou por se tornar zeladora da capelinha e todos os dias a imagem de Nossa Senhora vinha em procissão até sua casa, onde ficava durante a noite. De manhã o marido levava-a de volta, às costas,” até à Cova da Iria. “Quando incendiaram a capelinha, a Nossa Senhora estava aqui”, recorda.

Manuel trabalhou no Santuário entre 1955 e 2000, tendo acompanhado inicialmente o tio João. “Fiz lá muita coisa. Quando o tio João era vivo vendia velas, garrafões e contava o dinheiro”, lembra, mostrando o seu antigo cartão de funcionário da instituição. A dada altura ficaria encarregue de recolher as esmolas das várias caixas espalhadas pelo Santuário, função, admite, que não apreciava. “Nunca fiquei com um tostão”, frisa, embora admita que aquele trabalho só era entregue a pessoas de grande confiança. Mas “as pessoas olhavam”, constata, “cheguei a levar 10 contos em moedas de um escudo às costas. Era pesado”.

Na Cova da Iria não havia inicialmente água, tendo-se feito nos primeiros tempos um furo e criado uma fonte, que ainda hoje lá se encontra. Manuel chegou a enviar alguma daquela água para o Canadá e para a América, adianta, a pedido de um padre.

Entretanto, muita coisa mudou. Há 50 anos não vinha tanta gente a Fátima como atualmente, “mas parece que tinham mais devoção”, reflete. Hoje vê-se um pouco de tudo no Santuário de Fátima e o rigor histórico mistura-se com a crença. “Há quem pense que aquela azinheira que lá está é a original. Mas não. A azinheira levaram-na logo, pegaram em tudo o que puderam pegar, contavam a avó Maria e o tio João”, recorda.

É através de uma edição de 1982 do jornal “A Capital” que a família nos recorda uma tia, Maria dos Santos Carreira, que já no final da vida divulgou ter visto Nossa Senhora aquando o milagre do sol e estaria a par do segredo de Fátima Foto: mediotejo.net

Manuel lembra-se ainda de outras histórias daquelas primeiras décadas de devoção, quando o Santuário em si ainda era uma ideia do que viria a transformar-se. “Eu estava nos artigos e havia muita gente que comprava objetos e pedia-nos para os irmos tocar na imagem de Nossa Senhora. Nós íamos lá com os artigos e tocávamos, abrindo uma porta por baixo”, tenta descrever.

Manifestamente orgulhosos da herança familiar, Noé e Noémia vivem porém discretamente longe desta realidade, a qual já foi conhecida por histórias de terceira geração e artigos de jornal. É precisamente por meio desta última fonte que nos falam de uma das filhas de Maria da Capelinha, tia-avó de ambos, também chamada Maria dos Santos Carreira, à qual o jornal “A Capital” concedeu em 1982 uma primeira página, intitulando-a de “quarta vidente de Fátima”.

A entrevista foi realizada a uma senhora já com 85 anos, que afirmava, à data, que o manto de Nossa Senhora lhe havia tocado no rosto no 13 de outubro de 1917, quando tinha 19 anos, mas que, à semelhança de Jacinta e Francisco, não falara com a Aparição. Tornar-se-ia porém amiga da Irmã Lúcia, a qual afirmava visitar na clausura, e seria conhecedora do então “segredo de Fátima”, que preferiu nunca divulgar em respeito à amiga.

Temendo sempre que a condenassem à vida religiosa, entendeu manter reserva sobre o que presenciara aquando do milagre do sol (terá sido entrevistada pelo Padre Formigão para os inquéritos oficiais), dando só conta publicamente da sua posição de vidente já na fase final da vida.

Passados 100 anos sobre o edificar da capelinha das Aparições, estas são as memórias que persistem em Fátima da família que ajudou a erguê-la e contribuiu para a manutenção do espaço no estado de pureza com que foi encontrado quando as entidades eclesiásticas decidiram validar o fenómeno, já alguns anos passado sobre os episódios e falecidos os dois pastorinhos mais novos.

Maria Carreira teve o seu nome inscrito na história de Fátima pela genuinidade e desprendimento com que se votou à causa das Aparições, tornando a capelinha o seu projeto de vida. Mas vai aos poucos desaparecendo da sua narrativa.

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