Ourém | Memórias do primeiro guarda que vigiou a Capelinha das Aparições

António da Madalena junto ao seu altar. foto mediotejo.net

António Silva, pela terra conhecido como António da Madalena, trabalhou durante 54 anos no Santuário de Fátima. Entrou com 12 anos, em 1940, e saiu em 1993 para a reforma. Tornar-se-ia no Chefe dos Guardas, mas antes disso foi o primeiro “vigilante” da Capelinha das Aparições, num tempo em que os peregrinos não eram assim tantos e o Santuário ainda não recebia as grandes multidões das décadas seguintes. Depois começaram a chegar os Papas e Fátima mudou.

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Aposentado há 23 anos, António da Madalena, 90 anos, é uma figura conhecida na aldeia de Fontainhas da Serra, freguesia de Atouguia, Ourém, onde reside com a esposa. Encontrámo-lo numa manhã de muito calor, a poucos dias de mais um 13 de maio, corria o ano de 2016. De volta da sua horta, de chapéu de abas na cabeça, cumprimenta-nos com boa disposição entre as suas flores e aceita de imediato uma breve conversa. Mas vamos para a sombra, que o sol da Primavera já queimava, e sentamo-nos num pequeno sofá coberto de mantas sob um pequeno telheiro, onde um gato malhado nos vem fazer companhia. Por trás, um grande terço de madeira quase que passa despercebido na parede.

António da Madalena nasceu em 1928, 11 anos depois das Aparições de Fátima. A mãe morreu pouco tempo depois. “Fui criado como um cãozinho selvagem”, começa por recordar, pelas mulheres da mesma geração da progenitora. Madalena seria o nome da madrasta e ao qual ficaria associado.

António da Madalena. foto mediotejo.net
António da Madalena. foto mediotejo.net

Com 12 anos, à semelhança de outras crianças da mesma época, arranjou emprego. “A 16 de março de 1940, uma quarta-feira” foi para o “Santuário de Nossa Senhora”, “tapar as fendas da abóbada da Basílica”, que começara a ser construída no ano em que nascera. Seria a sua primeira função no Santuário de Fátima, numa altura em que o atual recinto “era só mato” e pouco ainda existia do que há atualmente. Logo de seguida foi para a cozinha, onde permaneceu quatro anos.

Nesta fase, o seu trabalho era colocar a cozinhar a comida que os operários da Basílica traziam. “Vinham da Barreira de Leiria, de Porto de Mós e da vila do Paço (Torres Novas)”, recorda. “Os operários do Santuário vinham na segunda-feira e só iam ao sábado e traziam os seus haveres e o Santuário mandava-lhes um rapazinho que lhes tratava dos cozinhados”. O rapaz era ele, ainda criança/adolescente, que pegava em cada prato de comida que lhe era deixado e colocava a cozinhar numa panela de ferro, de tripé, ao lume. “Eu tinha que ter olho”, para depois não trocar os pratos e a comida dos operários.

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Foi nessa época que assistiu à fundição dos sinos do Santuário, “a primeira fornada dos sinos que fizeram”. Nessa altura também, entre 1940-45, lembra-se da escassez de comida provocada pela II Guerra Mundial. “Não tínhamos pão para comer”, recorda. “Pois eu com a idade que tinha ia a duas figueiras comer os figos, mas não estavam maduros, e bolotas das azinheiras para sustentar o meu estômago”. Quando ia à catequese na Sé de Ourém levava um pedaço de broa para comer, mas “até se via Lisboa por ele de tão pequeno”.

Da cozinha foi cortar azinheiras. “Da frente da capelinha até onde fica hoje a secretaria do Santuário, era um mar de azinheiras”, recorda. Uma tarefa difícil e pesada, cuja madeira seguia depois para a atual Casa de Retiros de Nossa Senhora das Dores, a única que existia naquela época. “Acartei toneladas de lenha para os fogões”, comenta, tanta daquele espaço como de outro nas imediações do Santuário. “Corri os trabalhos todos do Santuário, até fazer umas hortas de cultivo durante quatro anos (alface, feijão verde, couves)”, narra, mas também tratou de porcos, galinhas e até de uma vaca leiteira. Tudo o que na altura existia no Santuário.

As suas funções alteraram-se em 1956, quando foi chamado à presença do então Reitor Joaquim Lourenço, que lhe perguntou se sabia rezar em latim. Na altura, salienta, as eucaristias ainda eram em latim e como ia todos os domingos à missa conseguia apanhar um pouco do ritual. “Ele respondeu-me assim: então amanhã vais para a Capelinha das Aparições atender aos peregrinos e ajudar à missa”. António da Madalena passaria então os 36 anos seguintes neste local.

António Silva, Chefe dos Guardas do Santuário de Fátima. Arquivo António Silva
António Silva, Chefe dos Guardas do Santuário de Fátima. Arquivo António Silva

Foi o primeiro vigilante, um termo mais preciso que o de guarda para o tipo de serviço que desempenhava, da Capelinha das Aparições, numa época em que Fátima ia ganhando aos poucos dimensão e reconhecimento internacional. Seria o Reitor seguinte, Monsenhor Borges, quem o nomearia Chefe dos Guardas, cargo que deteve até à reforma, em 1993.

Homem de fé, António da Madalena tem em Nossa Senhora a sua inspiração para a vida. “Tive sempre ao meu lado Nossa Senhora de Fátima, porque vi sempre que era o amor de Nossa Senhora que andava sempre comigo. Senti em mim que era um homem de poucas letras mas assim Nossa Senhora quis que eu viesse para a sua companhia”.

“Tirei muitas vezes Nossa Senhora do seu nicho, com amor e carinho”, comenta, referindo-se aos vários momentos em que retirou a imagem do altar da Capelinha para as suas procissões. Teve também a hipótese de ver de perto a Irmã Lúcia, a sua família, que visitava o Santuário com frequência, e os Papas Paulo VI e João Paulo II. Do primeiro recorda ter assistido à sua bênção. Do segundo, mais conhecido em Fátima, refere que estava então na Capelinha, bem próximo do momento em que ele se ajoelhou em frente à imagem de Nossa Senhora, depois de quase ter sido morto por uma bala em 1981. “Com as mãos na sua cabeça orando a Nossa Senhora”.

Dos peregrinos lembra as muitas esmolas que foram deixando, as suas promessas, “muitas lágrimas também”. Comenta que nem sempre foi bem tratado por fazer notar que as pessoas não se vestiam da forma mais adequada para entrar na Capelinha. Refere que sempre veio muita gente à Cova de Iria, mas nos inícios não era assim tanto.

“As pessoas eram menos e não havia muito dinheiro para as obras. Pagavam à gente em moedas de 50 centavos, um escudo, ao fim-de-semana”, recorda, comentando que não recebia dinheiro em papel. As grandes multidões eram comuns nos 13 de maio e outubro (falava-se em 300 mil pessoas), mas apenas nesses dias. Tornaram-se mais e mais frequentes a partir da vinda dos Papas a Fátima, quando a fé pelo Santuário começou a crescer.

Lembra ainda os pais dos dois pastorinhos Jacinta e Francisco Marto, Manuel Marto e Olímpia, com os quais chegou a conversar em algumas ocasiões. “Ela era uma senhora muito enérgica”, recorda. Várias vezes contatou também com a família de Lúcia dos Santos e afirma que ainda hoje gosta de ir aos Valinhos (onde ficam as casas dos pastores). “É um lugar para estar em silêncio”.

Se puder, em 2017 ainda vai ver o Papa Francisco, por quem tem grande admiração. Sabe que a mobilidade já não é muita e não tem a certeza se terá hipótese de o concretizar. No dia da reinauguração da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, após restauro (a mesma a que ajudou a tapar as fendas, com 12 anos), encontrou o espaço tão cheio que pensou que teria que ficar à porta. Depois lembrou-se de entrar pela sacristia e conseguiu um bom lugar. Foi o seu pequeno milagre.

Ainda sabe de cor os números e as datas que marcaram a sua vida: com 12 anos foi receber de ordenado “25 tostões”; a Basílica do Rosário começou a ser construída em 1928, ano em que nasceu; mede 50,5 metros de comprimento e 37 metros de largura; a torre sineira mede, com a cruz, 65 metros de altura; está completa com 62 sinos; o monumento do Sagrado Coração de Jesus (fonte central) fica retirado da Capelinha das Aparições 40 metros; após o surgimento de água naquele lugar, a 9 de novembro de 1921, a mesma foi benzida a 13 de maio de 1932; as estátuas maiores da Basílica do Rosário são a de D.Nuno, Santo António, São João de Deus e São João de Brito. O nome da sua mãe era Maria Hermínia, que morreu quando tinha um ano.

Esta é a história do primeiro guarda que vigiou a Capelinha, construída sob o local das aparições de Nossa Senhora, de maio a outubro de 1917, na Cova da Iria.

*Reportagem publicada em maio de 2016 e republicada em novembro de 2018

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2 COMENTÁRIOS

  1. no fim da década de 40, a minha família passava uns dias de férias no verão em Fátima e eu ajudava à missa no apertado altar interior da capelinha das aparições. Era só pó e um calor insuportável.

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