“À moda de…”, de Armando Fernandes

Foto: DR

Ao torto e ao direito, à dextra e à sinistra, em casa, na taberna, no café ou no restaurante quando vem ao talhe de foice comeres e beberes os circunstantes e/ou convivas a propósito disto ou daquilo, vem ao de cima – à moda de… – suscitando comentários, dúvidas, interrogações e exclamações em catadupa, quantas vezes a ficarem sobre a mesa azedumes, remoques e promessas de averiguações porque à moda de…

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Não é à moda da Joana, nem do Marcelo, muito menos avó ou mãe. À moda da nossa mãe, só a nossa avó porque a ensinou a elaborar o molho tendente a sustentar o anexim – comer gato por lebre – ou o coelho bravo com arroz vindo do hipermercado. O coelho doméstico ou de produção industrial sabia a bravo disseram os entendidos, a cozinheira aceita os elogios, não revela a composição da marinada, nem a inclusão de carqueja e alecrim no arroz. O dito coelho é à moda da senhora Mestra, ao modo do caçador não pode ser, os motivos são óbvios.

No círculo dos comeres e dos beberes à moda de é um sinuoso e complexo estado de fazer onde quem acrescenta um ponto não conta um conto, conta isso sim com a bonomia de quem prova pois só raros apreciadores conhecem a integridade de à moda de, mesmo assim limita-se a produzir reticências, só em casos de força maior «parte a loiça» após ter comido.

Já escrevi o desagrado do jornalista Eduardo Fernandes, o famoso Esculápio, quando descobriu que as famosas iscas preparadas à moda de prendada cozinheira da Porcalhota eram borrifadas com aguardente vinda da boca desdentada da mestra oficiante nos fogões utilizando tachos e panelas.

Os leitores deste jornal estão habituados e lerem ementas onde surge polvo à moda do lagareiro, muitos gostam desse preparo, no entanto, na esmagadora maioria das representações o polvo é produto de integração recente, isto porque a dita fórmula utilizava e nalguns lados ainda utiliza preferencialmente o bacalhau cozinhado no lagar bem azeitado de ouro verde acabado de vir dar luz ao mundo, assim ensina a adivinha.

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Há anos foi concebida uma Carta Gastronómica regional a qual vá-se lá saber a razão inclui receitas bizarras alheias à região, uma das quais intitulada – pudim Molotov – erro duplamente grosseiro, primeiro a receita original tem o nome de Makaloff, segundo nada tem a ver connosco a não ser a imitação do engenho do russo branco fugido ao terror vermelho.

Faça a leitora, faça o leitor cozinhados simples ou difíceis, importa serem à moda ou ao modo de quem os concebeu.

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