“Estrelas Cadentes”, por Berta Silva Lopes

Foto: Steve Halama, Unsplash

Há um par de anos fui acampar com o meu marido e a minha filha mais velha junto aos moinhos de Entrevinhas, concelho do Sardoal. Não é permitido fazer campismo selvagem em Portugal, sabemos agora, não naquela altura.

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Foi no quinto aniversário dela e há uma fotografia que o comprova, tirada na manhã seguinte, com ela de olhos remelosos e sorriso rasgado a exibir orgulhosamente a palma de uma mão e todos os dedos levantados.

À surpresa inicial seguiu-se a aventura de encontrar o lugar perfeito para a sua primeira experiência de campismo. Partimos de casa a meio da tarde e ainda fizemos uns bons quilómetros em busca da clareira ideal. Eu, que nunca percebi bem o fascínio por tendas, colchões manhosos, banhos à gato e refeições enlatadas, via defeitos em todas elas e torcia para que a miúda pedisse para irmos para casa antes do anoitecer.

Tudo ao contrário, a expectativa era cada vez maior, e nem os meus argumentos sobre o facto de podermos ter de dividir o espaço com famílias completas de insetos e bicharocos rastejantes a desanimaram. Havia uma mariquinhas entre nós, e não era ela.

Depressa limpámos o terreno de algumas carumas, pedras e galhos secos e num instante estava a tenda montada. A aniversariante estava radiante, tudo era novidade e aventura. Dêem-lhe paus e terra e é uma miúda feliz.

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Depois, insuflámos o colchão e ela pôde, finalmente, deitar-se no saco-cama, o presente de aniversário daquele ano. Jantámos logo de seguida, já lusco-fusco, embalados pelas cantigas das cigarras e à luz de uma lanterna.

Subimos aos moinhos já noite cerrada e ficámos a olhar a paisagem e o céu. Aos nossos pés as luzes de Entrevinhas, mais longe as da vila do Sardoal, ao fundo as da cidade de Abrantes. Cheirava a pinho, a resina, a esteva, a liberdade e a desejo cumprido.

Acampar era um pedido recorrente da minha filha, relembrado amiúde e inevitavelmente a cada viagem de regresso a Lisboa após mais um fim de semana na aldeia. A culpa é das estrelas. O céu cheio delas e nenhuma cadente, queixava-se ela, ansiosa por pedir um desejo. Acampar, acampar, acampar.

A minha filha nunca desconfiou da surpresa que estávamos a preparar, não sei se alguma vez chegou a ver uma ‘estrela mágica’ ou até se já tinha perdido a esperança de experimentar dormir ao relento. Sei apenas que foi naquela noite que perdeu o medo das sombras e do escuro. Tudo porque é mais límpido, mais brilhante e incomparavelmente mais bonito o céu visto do campo.

Mesmo quando há nuvens a tapar o firmamento, caligem sobre as nossas cabeças, pouca claridade no horizonte, a maior escuridão é sempre a que carregamos dentro de nós. É o desalento que nos corrói, rouba a esperança e impede de ver além da neblina.

O saco-cama foi o melhor presente de aniversário de sempre da minha filha, segundo a própria. A felicidade está mesmo nas coisas simples. Com tantas coisas boas para agradecer, relembro neste início de ano que não há desejos impossíveis, nem sonhos inalcançáveis. Mesmo quando não há estrelas cadentes. Feliz 2019 para todos.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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