“Estou Além, com a Lena e o António”, por Hália Santos

Lena D'Água. Foto arquivo: mediotejo.net

Ver e ouvir Lena d’Água, aos 62 anos, em palco, a cantar António Variações, é um privilégio que poucos tiveram, num destes dias. Ela, com um corpo já pouco habituado à exigência de um concerto, mas com uns gestos que pareciam ser o resultado de uma corrente elétrica que começa nos pés e termina na cabeça, oferecia a sua voz, doce mas enérgica, a um tema que continua a arrepiar, o ‘Estou Além’.

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“Vou continuar a procurar
A minha forma
O meu lugar
Porque até aqui eu só:
Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou”

Lena d’Água continua a ser uma guerreira. Marcou a música pop dos anos 80, encheu as revistas com as suas aventuras e desventuras. Foi vítima de violência doméstica. Meteu-se nas drogas – aquela ‘porcaria’, como agora diz – e hoje arrepende-se. Tem um discurso sereno de quem fez um percurso cheio de altos e baixos, de sucessos e de sofrimentos, sem nunca ter perdido o ar de menina, apesar de só poder ser uma grande mulher.

Nos últimos anos foi viver para o campo e agora foi recuperada para a vida musical. Primeiro, pelos Linda Martini que decidiram cantar um tema dela, depois, por Pedro da Silva Martins, que a convidou para ir cantar um tema seu ao Festival da Canção. Agora, compõe para Lena d’Água e os temas têm tudo a ver com ela.

A insatisfação e a inquietação de pessoas como Lena d’Água e António Variações mexem com as almas adormecidas. Vê-la a vibrar em palco leva-nos a acreditar que a paixão que temos por aquilo que fazemos supera tudo. Ouvi-lo com atenção leva-nos a fazer um exercício de busca interior à procura de respostas para o que queremos ser e para o que não queremos ser. Os dois, combinados, são um êxtase emocional, interior, de quase delírio íntimo. Para além do prazer que nos proporciona a música que fizeram e que ainda fazem, o que estes dois nos oferecem são doces, mas firmes, lições de vida.

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Foi a primeira vez que vi Lena d’Água ao vivo e como me arrependo de não a ter visto nos anos 80 e 90! Mas ainda fui a tempo. Estamos todos a tempo. A banda de ‘miúdos’ que a acompanha, onde está Benjamin, é simplesmente fantástica. Os miúdos que também gostam da música dela e que assistem são maravilhosos.

Aquilo que Lena d’Água transmite, no que diz e como diz, no que canta e como canta, é algo que não pode passar ao lado das almas que ainda dão valor ao que emociona e questiona, ao que acalma e inquieta. Tenham que idade tiverem.

Não sei bem que idade teria quando vi António Variações. Teria uns 12 anos. Ele foi o convidado de um Festival da Canção em Braga. Ninguém sabia quem ele era. Estávamos ali no início dos anos 80, ainda muito cinzentos, a ouvir canções festivaleiras, quando em palco surge alguém estranho e exótico, com roupas ‘espampanantes’ e ‘trejeitos’ esquisitos.

Das poucas memórias que tenho, lembro-me de os meus pais comentarem qualquer coisa como ‘ele está muito à frente deste tempo’ e ‘esta gente não está preparada para o apreciar’. Mas o que mais me ficou na memória foi o momento em que ele, assim como era, chamou para o palco a mãe, uma senhora pequenina toda vestida de preto e com lenço na cabeça, para lhe agradecer tudo o que fez por ele.

O que António Variações e Lena d’Água nos dão, com a música, com palavras e com as suas próprias vidas, não tem comparação com aqueles que por aí andam, com caras consideradas larocas e corpos supostamente bonitos, mas sem mensagem nem alma.

Se eu tivesse o poder de concretizar um desejo impossível, gostava de ver os dois, em palco, para ficar com a alma cheia e um sorriso daqueles idiotas que se sabem fazer as pessoas que se apaixonam por coisas simples mas profundas. Não tenho este poder, mas tenho o poder de imaginar tudo o que me apetecer para ficar feliz. Como Lena d’Água, que dizia, no concerto do seu regresso: “Sou feliz…”

Lena D´Água. Foto: Hália Santos

 

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