ESPECIAL FÁTIMA | Peregrinos foram 30 mil, hoje são mais de 5 milhões

Foto: sem data, retirada do Blogue "Restos de Coleção"

A 13 de maio de 1917 estavam na Cova da Iria três crianças. Seis meses depois, a 13 de outubro, estima-se que entre 30 a 50 mil pessoas. Em 2016, mais de 5 milhões de pessoas participaram nas cerimónias religiosas do Santuário. Os estudos sobre as motivações dos peregrinos que chegam a pé a Fátima multiplicam-se, assim como diversas obras de ficção e não-ficção, e as respostas não diferem muito de há um século: fé, sofrimento, promessas (suas ou de outrém). Os turistas, religiosos e não só, também perpetuam o impulso voyeur de há 100 anos.

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Chegando pela estrada de Leiria, sentido norte, o peregrino de Fátima é recebido por um monumento em sua homenagem: o Monumento ao Peregrino, na rotunda Norte. As figuras lembram a História de Fátima. A da frente, de joelhos, em oração, os dois de trás com uma criança aos ombros e várias sacolas de viagem. As roupas lembram hoje os anos 50/60, mas são os trajes que marcaram o mundo rural até bem perto do final do século XX. Uma oferta do Rotary Club de Fátima em 1990, marcando a principal porta de entrada de peregrinos em Fátima.

Algo suplantada na simbologia identitária local pela rotunda Sul, a das imagens dos Três Pastorinhos, a rotunda Norte representa porém uma parte muito mais significativa da História de Fátima. Foi afinal na presença contínua do peregrino (do turista, do curioso) que residiu desde cedo toda a dimensão universal de Fátima.

Logo em junho de 1917, passado um mês sobre a primeira aparição, algumas dezenas de pessoas reuniram-se na Cova da Iria aos três pastorinhos, para presenciarem o fenómeno. Em julho eram 800 a 2 mil, segundo os relatos noticiados na época. Em agosto, 5 mil sentiram-se defraudadas por o administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, ter levado as crianças para interrogatório em Ourém. A 19 de agosto, quando finalmente se deu a aparição, estava apenas presente um irmão de Francisco e Jacinta, que afirmaria nada ter visto. Em setembro seriam entre 25 a 30 mil pessoas. Por fim, a 13 de outubro, os jornais dão conta de entre 30 a 50 mil devotos a assistirem ao milagre do sol.

De 1917 a 2016 um longo caminho foi percorrido, marcado, de uma forma geral, pela melhoria das acessibilidades a Fátima, e sobretudo pela abertura da A1 nos inícios da década de 90. Desde então – e o comércio local é a grande testemunha dessa transformação – Fátima deu um salto urbanístico significativo, nomeadamente em termos de acolhimento para os peregrinos e turistas que se dirigem, todos os anos, à cidade. Segundo as estatísticas de 2016 do Santuário de Fátima, a cidade recebeu no ano passado 5.3 milhões de pessoas (participantes em celebrações), uma diminuição em relação aos 6.7 milhões de 2015.

O Santuário de Fátima apenas consegue disponibilizar os dados desde 2005, e apenas relativos a quem participa nas missas, recolhendo a hóstia, mas consultando a imprensa do último século é possível fazer uma análise do crescimento das peregrinações.

Nos primeiros anos após as Aparições, as notícias da época continuam a dar conta de 40 a 50 mil visitantes que acorriam a Fátima nas grandes datas aniversárias, como o 13 de outubro. O Diário de Lisboa de 13 de maio de 1948 fala em “meio milhão de pessoas” nas cerimónias de Fátima, mas a 13 de outubro desse mesmo ano menciona apenas 10 mil. A 13 de maio de 1950 dá conta de “centenas de milhares de peregrinos” na Cova da Iria e a 13 de maio de 1955 em 300 mil peregrinos (a 13 de outubro desse ano regista 80 mil).

Aquando a visita do Papa Paulo VI, a 13 de maio de 1967, no cinquentenário das aparições, a Visão História de janeiro de 2017 estima em mais de um milhão o número de peregrinos que acorreram à localidade nesse dia. Nos jornais mais antigos que o mediotejo.net conseguiu consultar nem sempre há números objetivos ao longo das décadas, mas vão surgindo. A 13 de maio de 1989 há registo de 400 mil peregrinos em Fátima.

Números redondos, numa estimativa após esta pesquisa, e tendo em conta a memória histórica de Fátima, a então vila seria visitada, gradualmente, entre 1917 até aos anos 90, por 500 mil até um a dois milhões de pessoas por ano. Nesta época, as peregrinações concentravam-se exclusivamente nos seis meses principais e, sobretudo, nos dias 13.

Os empresários mais antigos de Fátima costumam indicar a abertura do troço local da A1 como o grande ponto de mudança para o turismo de Fátima, momento em que também começou a aumentar bastante a concorrência.

A 13 de maio de 2001 o jornal Público dava conta que os peregrinos estrangeiros haviam duplicado em três anos, passando de 167 mil em todo o ano de 1998 para 307 mil no ano 2000. Outros dados dão conta de 30 a 60 mil peregrinos a pé que chegam a Fátima todos os anos. Os anos 90 são a década do crescimento, mas o mediotejo.net não encontrou estudos concretos que dêem conta desses valores, nem dados do Instituto Nacional de Estatística.

Por tal, ao chegarmos a 2005 a mudança já é significativa. Os dados do Santuário de Fátima dão conta que nesse ano participaram nas 2.544 missas oficiais celebradas 3.415.079 pessoas. Os grupos de estrangeiros contabilizavam-se então em 285.345 pessoas. No ano de 2007 este número, com os mesmos critérios, cresceu para 4.191.243 pessoas, mantendo-se ligeiramente inferior, na linha dos 3 milhões, nos últimos 10 anos. Estão de fora porém nesta contagem as outras celebrações do santuário que, tudo somado, indicam entre 5 a 6 milhões de pessoas, anualmente, neste período.

A estimativa do número de pessoas que passa pelo Santuário de Fátima anualmente é difícil de realizar, uma vez que se contam as presenças em missa, oficiais e privadas, ao longo de todo o ano e os grupos que se registam no Santuário. A instituição apresenta anualmente uma estimativa geral, por norma apresentada aquando o Encontro de Hoteleiros.

Neste sentido, o grande pico desde que o Santuário tem registos foi anunciado em 2015, com 6,7 milhões de participantes nas 9.948 celebrações da instituição e 4.390 grupos registados. O número diminuiu em mais de um milhão em 2016.

Independentemente dos dados, o período de transição parece estar claramente nos anos 90. Para 2017, o município de Ourém perspetiva a visita de 8 milhões de pessoas.

O porquê das peregrinações

“João António pisou pela primeira vez o santuário de Fátima com os pés inchados, cobertos de sangue e de terra. Chegou descalço e foi assim que saiu de São João da Pesqueira, a 300 quilómetros. A pele estava tão seca pelo calor e pela exigência do caminho que as gretas deixavam ver a carne ferida. «Tinha muitas, muitas dores.» Exausto, aproximou-se da Capelinha das Aparições, ponto central do recinto, onde está a imagem de Nossa Senhora, e sentiu-se renovado. «Inundou-me uma grande paz. Foi como se tivesse deixado ali o meu sofrimento», conta o serralheiro, na altura com 29 anos”.

in Peregrinos

Muitos livros têm sido lançados nos últimos meses sobre Fátima, através de variadas perspetivas. A Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou este mês um trabalho das jornalistas Catarina André e Sara Capelo, que acompanha, através de várias entrevistas e em formato de reportagem, o percurso e motivações dos peregrinos de Fátima. Em “Peregrinos” há um pouco de tudo, desde quem assuma uma promessa por cumprir até quem vá, de livre e espontânea vontade, cumprir as promessas de outros. Muitos procuram simplesmente respostas para os problemas de vida. As questões de saúde impulsionam muitas destas viagens, mas há também quem o faça apenas por gosto e devoção e, sobretudo, pela partilha de grupo nestas viagens.

ESPECIAL FÁTIMA | Peregrinos foram 30 mil, hoje são mais de 5 milhões
“Peregrinos”, de Catarina André e Sara Capelo, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos | €,3,5

A premissa é simples: “Todos conhecemos alguém que foi a Fátima a pé. Nas televisões, as imagens mostram milhares de peregrinos reunidos na Cova da Iria, em Fátima. Mas, entre a multidão imensa, quem são eles ao certo, todos e cada um?”, refere a sinopse.

“Como jornalistas, interessava-nos contar as suas histórias”, refere Sara Capelo ao mediotejo.net. “Quisemos sobretudo fazer um trabalho jornalístico, mas achámos que seria enriquecedor para o leitor ter duas autoras com visões e relações diferentes com a religião e com Fátima”, continua Catarina André. Estão aqui, afinal, presentes duas formas diferentes de ver a peregrinação: Sara nunca realizou nenhuma e Catarina várias, inclusive a Santiago de Compostela. “É sobretudo uma experiência de encontro e uma oportunidade para meditar na vida quotidiana sem relógio, nem interrupções. Peregrinar é também estar com outros e experimentar a solidariedade e a partilha”, compartilha Catarina André.

O trabalho deste livro seguiu as rotinas do método jornalístico, contando com entrevistas prévias para contextualização e pesquisa. As autores perceberam assim que há mais peregrinos a partirem do norte do país que do sul, a formação e capacidades económicas são muito variáveis e que as promessas estão quase sempre ligadas a problemas de saúde. “Contudo, compreendemos também que nem todos fazem promessas”, constatam.

O livro é composto por 13 capítulos, que incluem várias experiências de peregrinação. Para Sara Capelo é difícil escolher qual terá sido a que mais a marcou. “Há a do marcador de caminhos, António, que decidiu depois de uma primeira peregrinação a pé pela estrada nacional desde perto de Gaia, onde vive, marcar caminhos alternativos para que outros peregrinos não passassem pelo mesmo perigo que ele, na estrada, muitas vezes sem berma, e a sentir o vento dos camiões arrancar-lhe o boné da cabeça. Há a história da Marleen, uma holandesa recém chegada a Portugal, que decidiu caminhar sozinha até Fátima para procurar em Maria o perdão por ter feito um aborto; ou a de Vera que fez uma peregrinação (não foi a sua primeira, já fizera outras) entre tratamentos de fertilidade e conseguiu engravidar e levar a gestação até ao fim (depois de algumas tentativas frustradas). Chamou Maria à filha, em homenagem à avó que a criou, mas também a Nossa Senhora, a quem prometer levar a filha até Fátima caso conseguisse engravidar”, enumera.

“Tinha 17 anos. Convenceu-se de que não alcançaria nota positiva num exame do liceu. Caso passasse, iria a Fátima a pé. Teve 12 valores e até evitou a oral. Só quatro anos mais tarde cumpriria a promessa — a sua única promessa. Depois, percebeu que «a fé não tem de ser negócio». A partir de então, as «25 ou 26» vezes que fez o caminho até ao santuário português e as outras dez a Santiago de Compostela foram sempre motivadas pela oferta”.

in Peregrinos

Catarina André lembra ainda a de “um homem que caminha descalço desde São João da Pesqueira por causa da saúde do filho. São histórias muito diversas, mas que demonstram que Fátima chama uma multidão muito heterogénea. São pessoas
de todas as idades, níveis de escolaridade e origem social”.

A dor física parece por vezes ser um requisito para quem peregrina, admitem, mas representa apenas uma pequena camada do conjunto dos que vão a pé até Fátima. Sara Capelo explica que “é a forma que têm de lidar com os seus problemas. O padre Alexandre Palma compara Fátima a uma válvula de escape de uma panela de pressão: chegar ali nas mais diversas formas (incluindo caminhando descalço ou a pão e água) é o meio que algumas pessoas encontram para responder aos problemas das suas vidas, tentarem organizar-se”.

Já Catarina André comenta que “Fátima oferece às pessoas uma oportunidade de recolhimento, de encontro consigo próprias e de alívio, sobretudo de dores da alma. Há quem diga que chegar a Fátima é estar ao colo de Nossa Senhora. Depois, tem uma
mensagem  universal de paz que atrai os fiéis e gera neles um sentimento de identificação, quase como dizendo: ‘também eu desejo e busco esta paz'”.

“Muitas vezes no caminho ou já regressado a Tondela, onde é presidente da Junta de Freguesia de Canas de Santa Maria, reflecte sobre as diferenças entre os que vão à Galiza ou à Cova da Iria. «Quando fazemos para Santiago temos sempre a tendência a ir o mais devagar possível. Ou é a paisagem, o monumento, o sinal que nos remete sempre para um pensamento ou para um encontro connosco mesmos pelo ambiente em si, seja a vegetação, a água a correr… Para Fátima queremos chegar o mais depressa possível; não somos peregrinos, somos turbogrinos, porque vamos numa velocidade maluca”

in Peregrinos

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