ESPECIAL FÁTIMA | As notícias em 1917 (I): “O Ouriense”, único jornal local

Francisco, Lúcia e Jacinta, em 1917

No centenário das Aparições na Cova da Iria, o mediotejo.net foi ler algumas das notícias publicadas sobre o caso em 1917. Uma pequena homenagem à imprensa escrita, em particular à regional, que vivia então a sua época de ouro e desempenhou um papel fundamental para que hoje seja possível aceder aos factos, às opiniões e às impressões de então sobre a história fantástica que narravam três crianças de Fátima.

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Neste primeiro artigo lembramos “O Ouriense”, único boletim informativo aparentemente existente à época no concelho de Ourém. Os documentos aqui transcritos foram recolhidos no Arquivo do Santuário de Fátima, nomeadamente na consulta da Documentação Crítica de Fátima.

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“O Ouriense”, edição de 29 de julho de 1917

Real Aparição ou Suposta… Ilusão | Fátima

Esta freguesia experimentou no passado dia 13 o espetáculo mais maravilhoso e comovente, que a imaginação podia idealizar.

Quererá a Rainha dos Anjos fazer desta freguesia uma segunda Lourdes?!…

Ah! Quem o merecera!

A Deus e à Virgem Mãe não é impossível.

Não foi possível fazer o cálculo aproximado do número de pessoas que vieram à distância de tantas léguas, desde o humilde pastorinho, rude lavrador, aos que fazem agradáveis passeios em velozes automóveis, para tomarem fé de alguma prova da tão propagada Aparição de Nossa Senhora a 3 crianças desta freguesia (3ª vez 13-7-1917).

Todas as pessoas ou, pelo menos a maior parte, ficaram satisfeitas só em verem a maneira como as crianças se apresentaram e falaram – perguntando… pedindo… e esperando tempo de resposta sem que mais ninguém as ouvisse.

Isto – dizem, pois não fui testemunha – na presença, segundo os diversos cálculos, de 800, de 1.000, de muito mais de 1.000 e de mais de 2.000 pessoas que no mais admirável dos silêncios ora rezavam, ora suplicavam, ora choravam; por último foi necessário que almas piedosas, para livrarem as crianças de confusos interrogatórios e de graves incómodos, que poderiam ter no meio de tão grande multidão, pegassem nelas e as metessem em automóvel e as afastassem à distância de dois e meio quilómetros para junto da igreja, onde foram fotografadas.

Foi simplesmente admirável, por ora mais nada digo.

“O Ouriense”, edição de 1 de setembro de 1917

Publicamos uma carta dirigida ao “O Ouriense”, tendo em conta as que o mesmo autor escreveu respectivamente ao redactor de “O Mensageiro”, e ao redactor de “A Ordem”.

Entre as três redacções, não existe diferença essencial, se se excluir o post scriptum nesta carta enviado ao “O Ouriense”. Nota-se no pároco uma preocupação de adaptar cada carta à publicação a que era destinada. Assim, por exemplo, quando escreve para “O Ouriense”, acrescenta “nesta freguesia”, aludindo a um lugar conhecido dos leitores, e atenua expressões que poderiam ferir o administrador.

Sob o aspecto ortográfico, nota-se que, enquanto “O Mensageiro” se atém à reforma de 1911, “A Ordem” continua a arcaizar. A ortografia do texto do “O Ouriense” foi atualizada pelo Dr. José Galamba de Oliveira.

Ex.mo Snr. Redactor

Venho rogar a subida honra de publicar em logar comum do Ouriense o seguinte: – Aos crentes e não crentes.

Com tôdo a repulsão do coração de padre católico, venho tornar patente e asseverar perante todos os que tiveram conhecimento ou o possam vir a ter do boato tanto mais infamante e repelente quanto mais perigoso para a minha existência e dignidade paroquial de que fui cúmplice no brusco arrebatamento das criancinhas, que dizem ver Nossa Senhora nesta freguesia, à autoridade de seus pais e à satisfação que desejavam as 5 a 6 000 pessoas (segundo os cálculos) que, muitas à distância de tantas léguas e com enormes sacrifícios, vieram para as ver, falar e ouvir falar – digo  – venho a repelir tão injusta como insidiosa calúnia, bradando ao mundo inteiro que não tomei parte por mínima que fosse, quer directa quer indirectamente, no odiosos e sacrílego acto.

O Administrador não me confiou o segredo de suas intenções.

E se foi Providencial – que foi – a autoridade levar furtivamente e sem ocasião de resistência as criancinhas, não foi menos Providencial a acalmação dos ânimos excitados pelo diabólico boato – aliás teria esta freguesia hoje a lamentar a morte de seu pároco como cúmplice.

Mas desta vez ainda a cilada do demónio não logrou ferir de morte devido certamente à Virgem Maria.

A autoridade, depois do longo interrogatório das criancinhas em suas casas, as fez conduzir a título de informações para minha casa; diz, para elas lhe descobrirem um segredo que ainda lhe não haviam revelado – donde em tempo que julgou oportuno as mandou subir para o carro e, dizendo aos pais e circunstantes que as levava ao local das Aparições, parte à desfilada para Vila Nova de Ourém.

Escolheu a minha casa com que fins?

Para se furtar às vias que seu acto iria provocar?

Para que o povo se amotinasse, como amotinou contra mim como cumplice? Para… outro fim?

Não sei. – Mas só o que sei, é, que declino tôda a responsabilidade que cabe a al modo de proceder, e, que Deus pode sempre velar pelos seus.

Às obras de Deus ninguém pode pôr entraves.

Não foram necessárias, dizem milhares de testemunhas, as crianças para a Rainha dos Anjos revelar o seu poder, vão elas mesmo atestar os factos extraordinários e os fenómenos de que deram fé e que mais arreigaram sua crença.

Agora não são as 3 crianças de 9 a 11 anos, são os milhares de pessoas de todas as idades, classes e condições, vindas dos diferentes pontos do país.

Se a minha ausência como pároco no local se faz sentir aos crentes, não menos se faria sentir a minha presença aos descrentes, em desprimor da verdade dos factos.

A Virgem Mãe não precisa da presença do pároco para mostrar a sua bondade, e é necessário que os inimigos da religião não possam deslustrar o brilho de Sua Benevolência atribuindo a crença dos povos à presença ou conselho do pároco porque a fé é um dom de Deus e não dos padres: – eis o verdadeiro motivo da minha ausência e aparente indiferença em tão sublime e maravilhoso assunto: – eis porque não tenho dado meu claro parecer às mil interrogações e cartas que se me têm dirigido.

O inimigo não dorme. Ruge como o Leão.

Não foram os Apóstolos os primeiros a anunciar a Ressurreição do Filho da Virgem.

Abstenho-me de fazer a narração dos fenómenos dados no local das Aparições porque esta já vai longa, de que peço desculpa, e, porque certamente a esta hora já a imprensa se deve feito eco disso.

Creia-me agradecido.

De V.Eª

Mt. At.Vor. e Ob.

Pe. Manuel Marques Ferreira

P.S. – Chegou no dia 15 a autoridade com as criancinhas a minha casa, onde se ajuntaram os pais das mesmas e muitas outras pessoas perante as quais pretendeu com todas as amabilidades explicar o seu modo de proceder.

“O Ouriense”, edição de 25 de novembro de 1917

IMPRESSÕES DE FÁTIMA

Caneiro, 14. – Eu como pessoa ignorante e simples creatura sou a dizer o que comigo se passou no dia 6 do corrente mez, porque eu quero agradecer publicamente: ao Exmo Snr. Pedro Paes de Faria e a sua Exma tia Snra D.Rita Paes de Faria, a bondade e a caridade que usaram comigo. No dia 6 o Exmo Snr Pedro me convidou para eu ir ao local onde dizem ter aparecido N.Senhora na Freguezia da Fátima; eu acceitei o favor com muita satisfação porque ha 9 annos que não tenho saido de minha casa por causa da minha doença e de estar impossibilitada de não poder andar e por isto o Exmo Snr Pedro elle proprio me conduziu no seu carro onde fui acompanhada do meu marido e da Snrª Gertrudes; toos me prestaram os melhores auxílios; quando sairam de minha casa seguimos em direção ao outeiro das matas onde passei á capela d S.Bernardo onde tive muita satisfação, porque ha 9 annos não passei aqueles sitios nem a outros; em seguida Sobral, ond evu a capela da Senhora da Graça; no Bairro tambem vi a capela da Senhora de Lurdes; mais alem um bocadinho vimos o Snr Manuel Pereira e tambem a sua mulher que se aproximaram do carro onde nos cumprimentaram e nos ofereceram um copinho de vinho. Seguimos a viagem e quando chegámos á Fatima o Exmo Snr. Pedro perguntou pelas pequenas, onde ellas então vinham a sair da escola e depois por mandado da Snª professora as meninas chegaram ao pé do carro e falaram com mais pessoas que ali estavam, onde lhe perguntámos com respeito a N. Senhora e ellas afirmaram sempre a mesma cousa, que a viram, ouviram e falaram com ella; depois de ouvirmos o que ellas diziam, o Exmo Snr Pedro as convidou para irem no carro até de fronte do logar de Ajustrel, onde ellas seguiram acompanhadas do meu marido para irem pedir em obediência aos paes para lhes dar licença para irem na nossa companhia ao sitio onde as pequenas dizem ter aparecido N.Senhora, onde havia um bocadinho de não poder ir de carro, mas eu por ter tanta vontade e com o auxilio da Santissima Virgem Maria e com os esforços da Snrª Gertrudes e do meu marido, lá cheguei com muito custo. Não posso explicar o que senti dentro do meu coração, quando me encontrei n’aquelle sítio. Minhas lágrimas corriam fio a fio. Por mais que eu quizesse repimil-as não podia ser. Depois chegaram os três pequeninos, na companhia do Exmo Snr Pedro e mais algumas pessoas que nos acompanharam, e em seguida a menina Lucia resou o terço em publico com uma fé e devoção que eu não posso explicar. Em seguida resou-se a oração da Paz e outra á Virgem Santissima. Eu, em lembrança da minha viagem, lá deixei uma imagem da Senhora de Lurdes; de lá dirigimos para o carro que estava além um bocadinho; o Exmo Snr. Pedro mandou ir os meninos todos três no carro até de fronte do logar de Aljustrel, e quando lá chegaram despediram-se de nós com muitos beijos e saudações. De volta, quando chegámos á Fátima, descemo-nos do carro, onde entrei n’aquella Igreja, que já havia 15 annos que então não tinha entrado, fui acompanhada da Snrª Gertrudes onde nos prostrámos em adoração ao S.Sacramento por alguns minutos; depois saimos, aproximando-se de nós o Revmo Snr. Prior Manoel Marques Ferreira e tambem a mana, que nos cumprimentaram, o que nós fizemos tambem com muito gosto, depois subimos para o carro continuando a viagem, chegámos a casa ás 17 horas, todos bem. Eu, da minha parte, não vim com os meus sofrimentos aumentados, graças a Deus para sempre. Peço aos Snrs. leitores a caridade de me desculpar, porque é hoje a primeira vez que a minha escrita vai a publico.

Anna Maria dos Santos.

“O Ouriense”, edição de 16 de dezembro de 1917

“UMA INFAMIA E UM FIASCO”

Villa Nova de Ourem. – 4 – Os livres pensadeiros de Lisboa, delegados da celebre associação do registo civil, não desistiram da proeza de vir fazer uma sessão de propaganda jacobina no centro democratico d’esta villa, tendo o administrador do concelho distribuído convites para tão celebrada sessão que se realisou na noite de 1º de Dezembro, data tão gloriosa da nossa história patria, que lembra os tempos ominosos da valentia e coragem dos nossos maiores que alliaram sempre ao amor da patria, o respeito á Cruz, e que, depois da restauração, consagraram o reino á Imaculada Conceição.

Pois foi n’esta mesma data (…) na povoação de Caxarias.

No dia seguinte foram em 2 carros até á Fátima, acompanhados de tropa, (tal era o mêdo), e guardas civicos, e ahí, no proprio local, onde se pensa qie houve as aparições, e perante o numeroso auditorio de 14 pessoas, incluindo oradores, parece que pouco ou nada fallaram por falta de numero, tendo encerrado a sessão, não sendo preciso pôr os chapeus porque já os tinham na cabeça antes de começar.

E assim (…) que nãos os molestaram.

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