ESPECIAL FÁTIMA | Arquivo 1917 (II): De Torres Novas a Mação, a multidão quer deixar testemunho

Pagelas vendidas na Cova da Iria a 13 de outubro de 1917. Fonte: Documentação Crítica de Fátima

No momento em que terminam as celebrações do centenário das Aparições na Cova da Iria, o mediotejo.net recolheu algumas notícias publicadas durante o ano de 1917. Uma pequena homenagem à imprensa escrita, em particular à regional, que vivia então a sua época de ouro, e que se tornou fundamental para perceber os factos, as opiniões e as impressões de então sobre a história fantástica que narravam três crianças de Fátima.

PUB

Neste artigo lembramos os testemunhos deixados nos jornais locais e regionais, passando por Torres Novas, Mação, Santarém e Castelo Branco, as últimas sedes de distrito. Os documentos aqui transcritos foram recolhidos no Arquivo do Santuário de Fátima, nomeadamente em consulta da Documentação Crítica de Fátima.

***

Testemunho de Torres Novas do correspondente do jornal “O Século”, edição de 23 de julho de 1917

UMA EMBAIXADA CELESTIAL… ESPECULAÇÃO FINANCEIRA?

“Meia Via, (Torres Novas), 21. – C – Ha muito tempo que n’esta localidade corria com insistencia o boato de que n’um determinado ponto da serra d’Aire apareceria no dia 13 do corrente a mãe de Jesus Cristo a duas criancinhas, a quem já por diversas vezes tinha aparecido, e no mesmo local.

Este boato, como é de supôr, despertou a curiosidade geral na vila de Torres Novas e suburbios, entre os quaes se conta esta localidade, arrastando ao referido ponto milhares de creaturas, umas, as descrentes, para assistirem a qualquer coisa interessante; outras, as religiosas, por credulismo e devoção.

O caso é que o acontecimento foi tão empolgante que, em Torres Novas, vila, como todos sabem, abundante em alquilarias, no referido dia não se encontrava sequer um carro para alugar, chegando mesmo a fechar bastantes estabelecimentos.

Seriam 2 horas quando n’esta localidade apareceram, de regresso, as numerosas pessoas, na maioria religiosas, que d’aqui foram presenciar o anunciado milagre, entoando canticos e hinos á Virgem e soltando alguns vivas quando destroçaram para suas casas.

N’um impulso de irresistivel curiosidade (pois o caso é de molde a despertal-a), acercámo-nos no dia seguinte d’uma creatura, que, creio tambem, fez parte da romagem pelas compelas informações que soube dar-me, e dirigimos-lhe algumas ácèrca do assunto ás quaes, com uma inflexão de voz, que bem deixava transparecer a emoção que sentia, respondeu da fórma seguinte:

 – No dia 13, que estaca designado para a aparição de Nossa Senhora, dirigimo-nos ao local indicado. Já ali fervilhavam milhares de pessoas, que, impulsionadas pelo desejo de a verem, ali se tinham arrastado, vindo de longínquas povoações algumas d’elas.

A curiosidade era geral e n’um momento todos se conservaram silenciosos, boquiabertos, perscrutadores, como que procurando ouvir qualquer voz que vinha das entranhas da terra. N’isto, ouve-se um ruído semelhante ao ribombar do trovão e logo a seguir as duas crianças, que estavam junto duma carrasqueira circumdada por muitas florinhas, creio que paradisiacas irromperam n’um choro aflitivo, fazendo gestos epileticos e caindo depois em extasis. A uma d’elas, a que tinha o privilegio de ouvir e vêr a santa, fizeram varias pessoas muitas perguntas, ás quaes respondia dizendo que via uma especie de boneca muito bonita, que lhe falava. Tinha, dizia, um resplendor em torno da cabeça e chamava-a para junto de si, n’uma voz muito fininha e melodiosa. Entre muitas coisas que lhe disse, a principal foi anunciar-lhe a sua reaparição do dia 13 a um mez e no mesmo sitio, aparecendo ainda mais outra, para declarar o motivo por que tinha vindo ao mundo.

Agradecidas as informações que a mulhersinha prestou, retirei-me, formulando uma opinião ácêrca do que acabava de ouvir. O caso parece extremamente irrisorio e, seriamente, não o teria acreditado se aquela creatura não merecesse a maxima confinça por ser sincera e verdadeira e não fosse corroborado por outras que o contaram, empregando as mesmas palavras e citando os mesmos fatcos. Entretanto, é minha opinião que se trata d’uma premeditada especulação financeira, cuja fonte de receita existe nas entranhas da serra, em qualquer manancial de aguas mineraes que recentemente tenha descoberto algum individu astucioso que, á sombra da religião, quer transformar a serra d’Aire numa estancia miraculosa como a velha Lourdes.

As autoridades já tomaram conta do caso, e, se ainda o ignoram, servir-lhe-ha o comentario de aviso.

“A Beira Baixa”, edição de 20 de outubro de 1917 

O CASO DE FÁTIMA

Tem sido o assumpto que tem prendido todas as attenções durante a semana.

Trata-se realmente da apparição da Virgem a tres creanças, a uma das quaes Ella se dirigiria especialmente?

Muitos milhares de pessoas viram as creanças em extasis no dia e á hora previamente e com grande antecipação annunciados.

As apparições, a serem reaes, vinham-se repetindo no dia 13 de cada mez desde maio e a do dia 13 d’este mez estava annunciada como a ultima e seria acompanhada de phenomenos miraculosos.

Houve esses phenomenos?

Milhares de pessoas respondem affirmativamente.

Chovia torrencialmente. Á hora annunciada para a apparição a chuva cessa, como que obedecendo á voz das creanças que disseram não ser necessario conservar abertos os guarda-chuvas.

O sol descobre-se, fica com uma luz estranha, podendo ser fitada como a lua cheia. A luz passa por diversas gradações, parecendo uma vezes que o globo solar é cercado d’uma aureola de chammas, outras vezes um disco metallico como de prata. Vê-se o disco girar sobre si mesmo rapidamente e tem-se a impressão de que elle se desloca da sua orbita e se approxima da terra, produzindo um calor excepcional.

Isto ninguem de boa fé o contesta. A testemunhas oculares o ouvimos e cartas vindas das proximidades de Fátima o confirmam.

Phenomeno natural, que se reproduzirá em indenticas condições atmosphericas?

Phenomenos electricos, como pretendem alguns?

Não sabemos nem nos cumpre a nós pronunciar-nos sobre tão melindroso assumpto.

Seja como fôr, é caso muito para meditar este de se produzir o phenomeno no dia e á hora precisos em que phenomenos miraculosos foram annunciados, a um mez d’antecedencia, por tres creanças rudes, incapazes de prever phenomenos que aliás nenhum homem de sciencia previu.

Tambem é para meditar a circumstancia de tres creanças, a mais velha das quaes conta 10 annos, interrogadas por diversas pessoas sobre as apparições da Virgem, nunca se contradizerem, nunca deixarem de insistir sobre a verdade do que dizem ter visto, resistindo a insinuações em sentido contrario, a promessas de dinheiro e até a ameaças.

O poder de Deus é infinito, os milagres têm-se dado, podem da-se e repetir se.

Á auctoridade ecclesiastica cumpre pronunciar-se sobre o occorrido com aquella ponderação que emprega sempre em casos identicos.

Emquanto isso se não der, nós, sem pormos em duvida o que milhares de pessoas affirmam ter visto (porque isso seria negar a evidencia), não diremos que houve milagre nem que o não houve. Somos filhos da Egreja e submetter-nos-emos ao que a este respeito fôr dito pelos seus legitimos representantes.

Nem precipitados nem contumazes.

“O Correio da Extremadura”, edição de 20 de outubro de 1917

P’LA SEMANA

O MILAGRE DE OUREM

Tem causado grande sensação o celebre aparecimento da Virgem n’uma charneca de Fatima!

Pode afirmar-se que isso tem levado a preocupação ás cabeças esquentadas de livres e prezos pensadores, mas não pelo facto da Virgem ter escolhido aquele local, de preferencia ao Avenida Palace, onde por certo, estaria melhor instalada. Tudo porque ha quem crêia no seu aparecimento!… Certo é que muita gente afirma que o sol dançou e este bailarico do astro-rei tem causado uma certa admiração a muitos que nunca se encontraram, com tão esbrazeador cavalheiro, nas salas d’um club.

Outro tanto não sucedeu a nós que, ha muito tempo, previamos este desvairamento do sol ofuscado pelo brilho das condecorações que se trocaram em pontos culminantes da peninsula. E houve quem julgasse que pulou de contente!…

Foi apenas um ataque nervoso, já diagnosticado e, se continuarmos, arriscâmo-nos a ficar…ás escuras.

RUY DE PINA

Carta do pároco do Pedrógão, concelho de Torres Novas, publicada no jornal “A Ordem”, edição de 26 de outubro de 1917

FÁTIMA

Recebemos sobre o assumpto os seguintes bilhetes, dos muito rev.os parochos de Pedrogão, Torres Novas (perto de Fátima) e d’Azambuja:

Pedrogão (Torres Novas), 24-10-917.

Exmº Sr. Dr. Pinto Coelho

Nem tudo seja censura. Estou perfeitissimamante a seu lado e ainda por aqui está mais alguem. Parabens e muito sinceros, pelo seu artigo n’ A Ordem de hontem, sobretudo pelo final. Chame pois todos e cada um d’esses 50:000 catholicos ao cumprimentos fiel dos seus deveres religiosos e sociaes, á bocca da urna e assignando jornaes só catholicos. Aqui é que é bater-lhes e dar-lhes a valer. Vi ha dias o pae de um sacerdote dizer a este devolvesse o jornal, por não concordar com o seu 1º artigo! maldita cegueira!!… Sou parocho de uma freguezia vizinha da Fátima, muito propositadamente me tenho abstido de ir àquellas manifestações, não fui a nenhuma, não estou arrependido de lá não ter ido, parece-me que foi imprudentissima a presença lá de collegas meus e cada um d’esses catholicos divulgue e leia só a imprensa catholica e vote só em candidatos catholicos. Se assim não fizerem foram á Fátima muitos impostores, mas não 50:000 catholicos.

Padre João Gomes Loureiro

Prior de Pedrógão – Torres Novas

(carta do Padre Antonio Coelho de Barros, de Azambuja, omitida nesta reprodução do artigo)

“Concelho de Mação”, edição de 18 de novembro de 1917

Milagre de Fátima

No logar de Ajustrela a 1 kilometro de Fatima, concelho de Ourem, residem 3 pastorinhos: Lucia de 10 anos, Francisco de 8 e Jacinta de 7.

Contam que ha 18 meses, perto da sua residencia lhes apareceu uma senhora muito bonita.

Nada lhes disse então.

O rebanho quedou-se; mas apenas a aparição acabou, correu para um campo de trigo. No dia 13 de maio, ultimo, voltou a aparecer-lhes, no mesmo sitio, sobre uma carrasqueira, do meio dia para 1 hora, revelando-lhes um segredo que não dizem a pessoa alguma. Disse-lhes que resasse o terço, e voltassem lá em todos os dias 13, há mesma hora. O caso divulgou-se, e a multidão começou a correr ao local, cada vez a mais, nos dias marcados para ver a aparição. A 13 de agosto o administrador de Ourem deteve-os, e levou-os para Ourem. O povo não deixou de ir ao local. No momento da aparição sentiram um forte abalo e cahiram de joelhos… No dia 15 as creanças viram um relampago misterioso, e viram novamente a Senhora que lhes disse: Tornem a 13 de outubro ao local primitivo, que iria lá muita gente, inclusivo estrangeiros e que em virtude de um sinal prodigioso se converteria muita gente. No dia 13 de agosto calcula-se 15000 pessoas as que foram ao local, que afirmaram ter visto no sol como que eclipsado, não obstante ser um dia de verão, as cores do arco-iris.

13 de outubro. Cahia de manhã uma chuva miudinha que foi aumentando progressivamente, até se tornar torrencial impelida por forte ventania. No local da aparição tinham colocado um trapesio tendo no centro ao alto uma cruz e suspensas 2 lanternas de azeite acesas. E sobre a carrasqueira um arco de flores naturais, e junto uns pequenos altares. Chegam os pastorinhos. A chuva diminue de intensidade. Os pastorinhos ajoelham e resam. Chega a hora e os pastorinhos mandam fexar os guarda chuvas e a seguir que se descobrissem todos. A chuva cessou por completo. As nuvens correndo velozes, abrem clareiras, e o sol aparece dardejando raios d’ouro, no sentido natural; mas passou á côr de prata fosca, vendo-se seguidamente rodeado de chamas encarnadas, e num dado momento viu-se animado dum rapido movimento de rutação, parecendo desprender-se do ceu e caír sobre a terra e passou ao roxo esbatido; passou em seguida á cor verde; e por fim a amarelo vivo que se prolongou por mais tempo e com tal intensidade que se viu passar a côr do sol á terra aparecendo-nos a atmosfera e os objectos proximos revestidos daquela côr.

Estavamos a sangue frio. E para que nos não ficasse a menor duvida no ispirito olhavamos, depois de um fenomeno tão estupendo, para o sol, não lhe voltando a menor alteração, depois de terminada a côr amarela.

É indiscriptivel a onde de fé que prepassa pela multidão que calculo em 100.000 pessoas, (os calculos mais gerais dão lhe 50.000).

Dentre a multidão que apinhava pela encosta, muitas mães se levantaram ao alto, e imensas vozes chamam pela Santíssima Virgem! Espetaculo grandioso!

A Lucia foi levada ao colo, dizendo: «que se emendassem, que a guerra ia findar, e que em breve os nossos soldados que estavam em França voltariam a Portugal».

A multidão debandou.

Fomos a casa dos pastorinhos e admiramos a firmesa das suas respostas.

O Francisco diz que viu a Senhora com as mãos postas, mas não ouviu o que dizia. A Lucia é que falou á Senhora. Dis que era muito linda, que vinha descalça, com vestido e manta branca, e de mãos postas, donde pendia um terço. Que abria as mãos quando falava.

A Jacinta diz que viu a Senhora da mesma forma e ouvio o dizia á Lucia. Perguntando a esta o que via no sol, disse que era S.José dando a paz ao mundo, e que a Senhora desceu sobre a carrasqueira e lhe disse:

“Que era Nossa Senhora dos Rosarios: que ia terminar a guerra e esperemos breve o regresso dos nossos soldados; que os homens se emendem e rese todos os dias o terço porque Deus perdoa os pecados: que façam um capelinha no sitio onde nos falou conforme a vontade do povo que por fim abençoou.

Garantimos a verdade do que fica exposto.

Joaquim Gregorio Tavares

DEIXAR UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here