Especial Abrantes | A tradição premiada do azeite ao queijo gourmet

Oliveira milenar do Mouchão, em Mouriscas, é a árvore mais antiga de Portugal. Foto: DR

No século XXI, Abrantes permanece um concelho rural, ainda que sem a aposta na agricultura com o vigor de outros tempos. Ainda assim, conserva a tradição de olivicultura, a qual se traduz na apanha da azeitona e fabrico tradicional do azeite. Sendo um concelho do Ribatejo enquadra-se numa região com grande importância no cultivo da oliveira e produção do mundialmente famoso azeite português. Diz quem sabe que as primeiras oliveiras trazidas pelos Fenícios (cerca de 2000 a.C.) apareceram no território que é hoje o concelho de Abrantes e que até foi de Abrantes que partiu a cultura do olival para toda a Península Ibérica. Uma coisa é certa, é em Mouriscas que se encontra a oliveira mais antiga de Portugal e uma das mais antigas do Mundo. A oliveira milenar do Mouchão conta 3350 anos.

O azeite tem uma longa tradição e estreita ligação com o concelho de Abrantes, tradição essa mantida e conservada ao longo dos tempos. Mas foi a partir da implementação da fábrica “União Industrial, Lda.”, em 1860, que Abrantes se desenvolveu enquanto região produtora de azeite.

Num tempo de novas tecnologias pode ainda assistir-se à apanha da azeitona por ranchos de homens e mulheres que varejam o olival e apanham à mão os seus bagos usando, no cair do fruto, panos tradicionais, moendo e transformando a azeitona nos diversos lagares que ainda funcionam no concelho. Embora, comece a ser comum a apanha mecanizada, resultado da implementação de tecnologia por alguns produtores.

E Abrantes possui entre o seu património natural, a oliveira mais antiga de Portugal (registada), a do Mouchão, em Mouriscas. Mereceu certificação da idade de 3350 anos há dois e após a dita, em 2017, sofreu uma intervenção patrocinada pela empresa Ourogal que se dedica à exportação de azeites em São Miguel do Rio Torto, no sentido de preservar a oliveira milenar.

A empresa, tendo em vista a internacionalização da sua marca e de levar o Ribatejo além fronteiras, estabeleceu um protocolo com a Câmara Municipal de Abrantes e a Junta de Freguesia de Mouriscas no sentido da árvore, património nacional classificado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, ser protegida por um murete em xisto branco à volta do enorme tronco com as devidas placas de certificação.

Especial Abrantes | A tradição premiada do azeite ao queijo gourmet
Placas com as devidas certificações da oliveira do Mouchão, Mouriscas.

A certificação da idade da oliveira do Mouchão teve por base, um estudo com dados recolhidos na região do Alentejo, levado a cabo por uma equipa de investigadores do Laboratório de Produtos Florestais e da Unidade de Modelação do Departamento Florestal da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Em Abrantes a azeitona é predominantemente “galega”. As características dos solos abrantinos aliadas às de um clima mediterrâneo, resultam na produção de um azeite espesso, frutado, numa cor habitualmente amarela ouro ou por vezes esverdeada.

Ingrediente tradicional, continua a ser usado na doçaria, por exemplo nas broas de mel fervidas, doce tradicional e conventual de Abrantes, que não faltam nas pastelarias abrantinas ao lado da famosa tigelada e da não menos famosa palha de Abrantes. Já na gastronomia, o azeite tem uma forte presença na base ou tempero de muitos dos pratos regionais, como as migas carvoeiras, a sopa de feijão com couve, a fataça na telha ou o achigã, peixe pescado no rio Tejo.

Mas outros produtos tradicionais marcam o concelho de Abrantes, como os vinhos, alguns merecedores de vários prémios como os Casal da Coelheira. Ouro, prata e excelência, troféus que os vinhos Casal da Coelheira – Sociedade Agrícola do Tramagal, concebidos pelo enólogo Nuno Falcão Rodrigues, conquistaram da Gala “Vinhos do Tejo”, em Tomar em março de 2018. Prémios que já não são novidade para esta casa, reconhecida nos mais prestigiados concursos nacionais e internacionais, figurando até na revista Forbes entre os vinte melhores brancos do mundo o Casal da Coelheira Reserva 2015.

Especial Abrantes | A tradição premiada do azeite ao queijo gourmet
Nuno Rodrigues, proprietário e enólogo do Casal da Coelheira. Foto: DR

A marca faz parte de um projeto familiar, com forte tradição vitivinícola, que cresceu na margem Sul do rio Tejo, junto à vila de Tramagal. Construída a meio do século XX, a adega do Casal da Coelheira sofreu várias alterações ao longo da sua vida, observando-se no presente uma cumplicidade entre a arquitetura tradicional e a mais moderna tecnologia enológica, numa quinta com 64 hectares de vinha.

Inserida na região vitivinícola entre Lisboa, Alentejo e Beiras, onde a Serra de Aire e Candeeiros constitui o principal traço orográfico que delimita o Médio Tejo e a Lezíria. Em termos hidrográficos, é o Tejo que marca a paisagem e influencia o clima sub-mediterrânico temperado. Estas características associadas aos vários tipos de solos da região e à tipicidade das castas conferem aos Vinhos do Tejo uma identidade muito própria.

Mas na referência aos produtos tradicionais abrantinos premiados, o destaque vai também para o queijo gourmet Brejo da Gaia, com produção artesanal em Tramagal. Os queijos Brejo da Gaia operam no mercado nacional desde abril de 2014 com produtos próprios e de fabrico tradicional e manual, tais como queijo de cabra curado em vinho tinto, queijo de cabra curado com orégãos, bombons de queijo de cabra, bolachas de queijo de cabra, entre outros.

Especial Abrantes | A tradição premiada do azeite ao queijo gourmet
Foto: CMA

O queijo de cabra curado com pimentão e piripiri foi premiado a nível nacional, em 2016, com a medalha de prata do Concurso Nacional de Queijos Tradicionais Portugueses, evento organizado pelo CNEMA (Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas), obtendo na edição de 2018 do Concurso Nacional de Queijos Curados Tradicionais Portugueses duas medalhas de ouro e uma de prata em três categorias: ouro no queijo curado simples, ouro no queijo curado de pasta mole e prata no queijo curado com pimentão e piripiri, na Feira Nacional de Agricultura.

Recorda-se que o Ribatejo interior beneficia de influências do Alentejo e da Beira Baixa que se verificam também nos sabores, nos temperos, nos métodos de confeção e nos aromas que enriquecem a gastronomia e conferem aos produtos tradicionais as especificidades da região.

Vasta tradição em Abrantes tem também o fumeiro e a salsicharia artesanal. A matança do porco tendo um cariz familiar, tornou-se num saber que passou por várias gerações, um legado deixado de pais para filhos. Tradição reconhecida fora da região, sendo cada vez mais projetada devido às várias medalhas de reconhecimento atribuídas à qualidade dos produtos fabricados no concelho

É o caso da MD Salsicharia Artesanal, de Rio de Moinhos, que conquistou no oitavo Concurso Nacional de Enchidos Tradicionais Portugueses, em 2018, no CNEMA, em Santarém, uma medalha de ouro na farinheira MF e outra de bronze para a morcela de assar. A empresa familiar de Rio de Moinhos dedica-se há quatro gerações ao fabrico tradicional de enchidos, fumados de forma natural exclusivamente com lenha de sobro e azinho.

Especial Abrantes | A tradição premiada do azeite ao queijo gourmet
A farinheira premiada com medalha de ouro em 2018 da Salsicharia Artesanal MF. Créditos: MF
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