“Espaço tradicional do mundo rural – A taberna, já passou o tempo dela”, por António Matias Coelho

Taberna na Chamusca, anos ‘50

Já foi o centro do mundo. Ou fez, pelo menos, parte dele, quando tudo, ou quase tudo, passava pelo largo e pela praça de jorna, às vezes pela igreja, quase sempre pela taberna.

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Espaço marcadamente masculino, próprio dum tempo em que homens e mulheres tinham destinos mais separados, ou percursos menos convergentes, a taberna funcionava no mundo rural como um ponto de encontro, do chegar e do partir de todas as voltas da vida.

Entre dois copos de vinho, o descascar das pevides e a emoção da sueca ou do som do bater das malhas no tabuleiro do chinquilho, acertava-se a conversa, sabiam-se as novidades, desabafava-se uma ralação, coscuvilhava-se o viver alheio, segredava-se uma confidência, propunha-se um negócio, fechava-se um contrato, soltava-se uma gargalhada, vivia-se uma tarde de domingo, mal refeitos os corpos da semana que lá ia e já adivinhando a que não tardava a vir. E a taberna, na sua simplicidade, feita de pouco espaço e um imenso alarido, era o cruzamento de todos os destinos da aldeia. Não se podia passar sem ela.

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Tirando a tarde de domingo, em que o sol também entrava na penumbra da taberna, de resto o sítio era escuro, feito de um estar noturno e muitas vezes cansado, depois de um dia de trabalho, de manhã até à noite. Os taberneiros mais antigos ainda guardam lembrança de usarem o gasómetro, dependurado do teto, funcionando a carbureto para alumiar a freguesia.

Nesses tempos, chegados da labuta do campo, a taberna era uma pausa onde arreavam o cansaço no caminho para casa. Com pouca vontade de falar, os homens sentavam-se nos bancos corridos, puxavam da bucha, um naco de pão já duro, uma lasca de bacalhau, umas poucas azeitonas e aconchegavam o corpo. Vinha meio litro de vinho para ajudar a engolir e às vezes a aquecer. O copo alegrava a alma, a pouco e pouco se libertava a língua, e a conversa desenrolava-se depois. Se viesse mais um copo, tudo se tornava mais solto e o vozear subia de tom, enchendo o espaço da taberna, à mistura com o bater dos ases na mesa do canto e a fumarada dos cigarros, feitos com onça e mortalha que chegava até ao teto.

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Os Jogadores de Cartas, Paul Cézanne, 1890-95

Taberna é sítio de vinho. Não faz sentido sem ele. E o mal não está no vinho, está no não saber beber. Dos copos de uma taberna, que são poucos por princípio e aviam toda a gente, só se contam três tamanhos: um pequeno, pouco usado, um de metade de meio litro, que mais vezes vai e vem, e o do meio litro perfeito, usado para a molhadura.

Tipos de copos de taberna: o maior é o da molhadura (foto do autor)

Nesse tempo havia a praça de jorna, onde se arranjava patrão. Por perto, sempre, uma taberna que se enchia de homens para beber a molhadura. Como se fosse lugar sagrado onde se assumia um compromisso, selado com um copo de vinho, sangue da cepa e de Cristo no altar da consagração, bebida nobre e respeitada, símbolo da lealdade que havia entre dois homens honrados.

Mas não era só de vinho que se fazia a taberna. Também se bebia cerveja, com gasosa ou sem ela, e, em tempos mais recuados, laranjadas e pirolitos. E para entreter os dentes, à parte as ditas pevides, amendoins e tremoços. Um monte de cascas no chão, varridas ao fim da noite, à mistura com as beatas, tudo despreocupadamente deixado cair, na distração da conversa.

Hoje já não há tabernas, destas de que estamos falando. Já passou o tempo delas. Agora é o tempo dos cafés, dos bares e das discotecas. O mundo cresceu tanto que já não cabe na aldeia e a gente jovem procura outros sítios para prolongar a noite e encontrar diversão. Os mais velhos ficam em casa, presos à televisão, isolados na solidão do sofá.

As tabernas esmoreceram e foram fechando. Perderam a praça de jorna, depois o chinquilho e a bisca e por fim a freguesia. Vítima do mundo que temos, bom ou mau não vem ao caso, é merecedora a taberna que lhe respeitemos a alma, lhe fixemos a memória e ergamos o copo para beber em sua honra.

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